Abril 25, 2022
Do Passa Palavra
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Por Passa Palavra

Passados aproximadamente dois anos e sete meses, a coluna Diabo da Economia chega ao fim no Passa Palavra.

Já havíamos tornado pública a nossa dificuldade em encontrar colunistas que fizessem análises baseadas em fatos, que adotassem perspectivas anticapitalistas e fugissem aos lugares-comuns. No artigo Nosso problema com o Diabo da Economia, aludimos ao fato de que a esquerda atual vive praticamente de costas para os debates e processos econômicos, interessando-se, em vez disso, pelos mais variados temas.

Com isso, as intervenções da esquerda, ou passam longe da economia, ou tangenciam-na, sem nunca chegar aos seus fundamentos, suas raízes, ao núcleo do sistema de relações sociais que a esquerda pretende (ou pretendia) combater. E o resultado disso é que os processos econômicos seguem seu curso, independentemente de nossa vontade, relativamente imunes às nossas ações, reiterando e ampliando problemas para os quais não encontramos soluções. Nos mantemos incapazes de avançar análises fundamentadas em dados concretos e que não se reduzam à exegese de textos sagrados.

A economia se desenvolve, complexifica, toma rumos inesperados, redistribui riqueza e poder, renova as classes dominantes, reconfigura a classe trabalhadora, altera as relações de poder entre centro e periferia, inverte tendências históricas, faz convergir processos aparentemente inconciliáveis, gera rupturas imprevisíveis, avoluma os problemas enfrentados diariamente pela classe trabalhadora, sem que a esquerda contribua para o esclarecimento desses problemas. Pelo contrário, mais confunde do que esclarece.

O Passa Palavra não deixará de ser um espaço aberto a análises econômicas anticapitalistas, inovadoras e baseadas em dados concretos, mas a falta de pessoas aptas e dispostas a assumir a coluna, mantendo uma regularidade de contribuições, nos obriga a dar adeus ao projeto.

Mas não o faremos sem antes tentar refletir sobre os fatores que nos obrigam a tomar essa decisão:

1. Originariamente, a esquerda preocupava-se sobretudo com os temas econômicos. Isto devia-se ao facto de o objectivo da esquerda ser a remodelação das relações de produção, entendidas como relações econômicas. As divergências e por vezes antagonismos surgidos no seio da esquerda deviam-se às diferentes propostas de remodelação das relações de produção, mas o fator em comum era a noção de que o objetivo era essa remodelação.

2. Na segunda metade do século XX o terceiro-mundismo começou gradualmente a alterar o objetivo originário da esquerda, substituindo a emancipação dos trabalhadores pelo desenvolvimento nacional. A partir de então, os temas econômicos foram gradualmente substituídos pelos temas geopolíticos e a economia foi substituída pelos jogos de poder.

3. Mais recentemente, o processo de desnaturação dos objetivos originários da esquerda culminou com os identitarismos. A remodelação das relações de produção foi substituída pela mudança de pessoas no interior das hierarquias econômicas e políticas existentes, de modo que umas “identidades” fossem substituídas por outras “identidades”. Esta renovação das elites teve como resultado, como tem sempre, consolidar as hierarquias enquanto hierarquias.

4. O golpe mortal na esquerda dedicada à remodelação das relações de produção foi desferido quando a noção de “exploração” foi substituída pela noção de “vitimação”. O sujeito histórico deixou de ser a classe explorada e passou a ser a identidade vitimada. Daí a competição entre as “identidades” para saber qual é a mais vitimada.

5. Para a esquerda originária, a classe explorada era portadora da capacidade de remodelar as relações de produção. Para os identitarismos as “identidades” mais vitimadas merecem ascender ao lugar das velhas elites. Assim, a estrutura das hierarquias mantém-se e, portanto, as relações de produção mantêm-se.

6. Em consequência, os temas econômicos foram substituídos pelos jogos de poder da geopolítica e pelo moralismo politicamente correcto dos identitarismos.

Por essas razões, deparamos com uma grande escassez de pessoas de esquerda interessadas em, e capazes de, com regularidade, analisar e desvelar as contradições de uma economia cada vez mais complexa e cada vez mais alheia às nossas intervenções políticas e ideológicas.

É uma pena, pois assim fica cada vez mais difícil compreender plenamente, e sobretudo transformar, o Diabo da Economia.




Fonte: Passapalavra.info