Setembro 28, 2021
Do Passa Palavra
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Por Passa Palavra

1.

Em outubro de 2018 um dos cantores mais célebres no Brasil, o rapper Mano Brown, subiu ao palanque do então candidato a presidente Fernando Haddad, do Partido dos Trabalhadores (PT), e fez um duro discurso criticando os governos petistas e a “cegueira” do partido. “Se somos o Partido dos Trabalhadores tem que entender o que o povo quer. Se não sabe, volta pra base e vai procurar entender”, disse, em meio às vaias do público. Com raras exceções, e apesar do incômodo inicial, esta frase norteou grande parte das críticas ao PT vindas da esquerda e da extrema-esquerda.

Ora, o entendimento de que o processo de burocratização dos movimentos sociais se deu por um descolamento da base não só é falacioso, como foi justamente a incorporação dos movimentos de base à máquina governamental que caracterizou o modelo de gestão de conflitos que o PT se dedicou a construir nos seus mandatos:

Marcadas por uma crescente distância entre a cúpula e a base, enquadradas pelas ditas “políticas públicas” (desenvolvidas a partir do conhecimento acumulado pelos próprios militantes), as organizações populares sofrem um esvaziamento que as atrela a uma enorme máquina burocrático-eleitoral. As “bases”, agora, só podem existir como contingentes coisificados, devidamente domesticados e representados, de trabalhadores — tratadas como moeda de troca das burocracias (ver aqui).

2.

A queima da estátua de Borba Gato, protagonizada e reivindicada pelo coletivo Revolução Periférica, retoma essa narrativa, atribuindo uma certa identidade àquela “base” evocada no discurso de Mano Brown: a “periferia”. Nas palavras de Wilson das Neves, que serviram de inspiração para a faixa que decorou a ação, tratava-se de anunciar “o dia em que o morro descer e não for carnaval”. Longe, no entanto, de uma suposta “irrupção das bases” na cena política, a ação revelou-se um mero espetáculo pirotécnico de um pequeno grupo improvisado na véspera, liderado pela figura mais conhecida dos Entregadores Antifascistas, Paulo “Galo” Lima. Apesar do barulho que o incêndio provocou, a imagem “feita para ser filmada e fotografada” — como foi dito aqui — não passou disso, de uma imagem. E, como tal, alimentou as redes sociais atrás de cliques e curtidas até que arrefeceu, como o fogo.

Ausente enquanto sujeito social, a periferia se faz presente enquanto símbolo, identidade. Uma análise da proliferação de coletivos e organizações “periféricas” (para se contrapor às organizações tradicionais, tidas como elitistas) mereceria um artigo à parte. Nos interessa aqui entender como essas organizações se relacionam com as lutas dos trabalhadores, sobretudo com os trabalhadores das periferias. Nesse sentido é interessante notar a postura que essa esquerda assumiu diante da última paralisação dos entregadores de aplicativos, o “Breque dos Apps”.

Pelo Twitter, o perfil da Revolução Periférica apresentou sua análise de que, diante da onipotência das empresas de entregas por aplicativo, as greves se tornam praticamente inviáveis, trazendo mais riscos do que oportunidades aos trabalhadores. Assim, o poder, segundo eles, estaria nos consumidores (exigindo melhores condições para os entregadores, boicotando os aplicativos e até oferecendo gorjetas). Esse movimento foi batizado de “Apagão dos Apps”. “O principal é que o consumidor tenha consciência de que quando ele pede comida por aplicativo, algum trabalhador vai estar sendo explorado”, diz a nota. Nessa linha, a resistência subterrânea dos trabalhadores é substituída pela identidade de esquerda, pela consciência do consumidor que quer “o bem” para os trabalhadores, esperando assim deliberadamente retirar o protagonismo dos trabalhadores nos processos de luta concretos. A perspectiva do poder de mudança estar nas mãos dos consumidores para alterar as relações de trabalho aproxima a Revolução Periférica mais do MST S. A. e sua ação de captação financeira do que um processo revolucionário que emancipe os trabalhadores da periferia das grandes cidades.

Lembremos que essa perspectiva não é tão nova assim, pois, ao menos desde finais da década de 1970 nos EUA, “a tática de substituir as mobilizações no meio operário pelas pressões no meio capitalista” vem sendo adotada pelas direções sindicais no sentido de direcionar suas ações para formas de conflitos empresariais. Um enquadramento histórico dessa financeirização da luta social pode ser encontrado no livro Capitalismo Sindical, escrito por João Bernado e Luciano Pereira, e podemos entender melhor como foi construída a versão do consumidores de todos os países, uni-vos!. Ações de propaganda junto aos consumidores e pressões por alterações de membros de Conselhos Administrativos de empresas que financiavam ou mantinham relações comerciais com as companhias hostis à ação sindical passaram a ser mais comuns diante da incapacidade dos sindicatos em mobilizar os trabalhadores para as campanhas salariais, e se alastraram, posteriormente, como tática de inúmeras organizações não-governamentais para atacar a reputação das empresas. Por outro lado, com o avanço do toyotismo, são as instituições sindicais que oferecem novos serviços a serem adquiridos pelos trabalhadores, ao mesmo tempo que procedem à precarização da força de trabalho contratada pelos sindicatos.

Diante do que foi escrito na nota da Revolução Periférica, podemos questionar se o caminho seria a criação de uma nova empresa de entrega por aplicativo voltada para consumidores conscientes do “bem” que estariam a fazer aos trabalhadores, com o pagamento de taxas um pouco maiores, mas mesmo assim precarizados?

3.

A queima da estátua teve sua eficácia como ato performático para as redes sociais, subiu rapidamente aos Trendig Topics, junto com seus autores, e com isso propagaram sua pauta revolucionária. A saber, uma cobrança a toda a esquerda de um posicionamento na luta contra a política morticida de Bolsonaro que não se restringisse ao “peleguismo” das centrais sindicais. Os custos foram altos, três dos membros do coletivo, além de um motorista contratado para o carreto, foram presos. A catarse incendiária talvez nos aponte um novo caminho para formação de burocracias. Se historicamente elas se formaram a partir da cooptação de figuras ativas de movimentos sociais e políticos mais amplos, as redes sociais parecem permitir que a extrema-esquerda forme seus burocratas de maneira expressa, onde nem sequer seja necessário ter envolvimento prévio em movimentos amplos da classe.

Percebe-se, por outro lado, que a recusa em disputar as lutas concretas em prol do âmbito simbólico não só é a característica de coletivos como esses, mas mostra que a esquerda tem sido tão carente de posturas novas que identificou-se com a ação descolada de um movimento orgânico, com o delírio de que “ações diretas” possam ser realizadas fora de qualquer contexto de luta concreta por melhores condições de vida ou, no mínimo, de termos menos derrotas. Não é um mero acaso o fato de a histeria midiática em torno do Borba Gato ser alheia, ou até contrária, à imensa categoria dos entregadores de aplicativo, o que se percebe pela baixa repercussão desse grande debate que agitou as redes sociais, mas não os grupos de motoboys.

O que mostra o aprendizado dos incendiários e dos breques? Teríamos prestado atenção demais às estátuas e menos às relações sociais em que se inserem? De que maneira esses novos agentes entram para a história?

As imagens que ilustram esse artigo são, respectivamente, de Willian Turner, Ludwig Meidner e Josef Čapek.




Fonte: Passapalavra.info