Fevereiro 22, 2021
Do Passa Palavra
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Por Jan Cenek

Uma notícia foi pouco comentada. Entre 2011 e 2020, o Brasil empobreceu em termos absolutos e relativos. Como o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 2,2% e a população aumentou 8,7% na década, a renda média por habitante diminuiu [1]. O tombo é ainda maior se comparado à evolução do PIB global, que cresceu 30,5% no mesmo período. O encolhimento relativo da economia brasileira não é novidade, aconteceu também entre 1981 e 2010. Ou seja, mesmo na década retrasada, apesar dos analistas do mercado, que afirmavam incansavelmente que os “fundamentos da economia eram sólidos”, o Brasil encolheu em comparação com o mundo.

Importante destacar que, inclusive com o presidente que dizia “nunca antes na história desse país”, o Brasil encolheu em relação às outras economias, apesar da elevação dos preços das commodities exportadas, que criou certa ilusão de riqueza e deu alguma margem de atuação para o governo. Para ser justo, o “nunca antes na história desse país” faria algum sentido caso se referisse à elevação dos preços das commodities exportadas pelo Brasil. Este sim fato inédito. Mas a desindustrialização se manteve, e a concentração de renda não regrediu no período. A banda passou e “o que era doce acabou”, como na canção do Chico.

Chama a atenção a explicação uniforme da mídia empresarial para o fracasso econômico do país. A partir de 2009 o Brasil teria expandido os gastos e o crédito para combater a “crise financeira mundial”, a necessidade se converteu em conveniência do governo petista, que ampliou a intervenção estatal na economia e fez manobras contábeis, comprometendo a situação das contas públicas. Uma variação ainda mais simplória da cantilena neoliberal, repetida ad infinitum pelos liberolas [2], explica a derrocada do país única e exclusivamente pela corrupção dos governos petistas. É o discurso que ajudou a eleger o genocida que virou presidente. A fragilidade das explicações midiáticas sobre a crise brasileira, proferidas em geral pelos economistas dos bancos, depõe a favor da tese de que o país está encolhendo. A cantilena simplória dos liberolas idem. A questão não é só a fragilidade dos argumentos, porque a mídia empresarial e os liberolas sempre gargantearam ideias duvidosas, o problema é a inexistência, pelo menos com um mínimo de circulação, do necessário contraponto.

Antes que me atirem a primeira pedra, esclareço que não se trata de defender Lula e Dilma. Pelo amor de Marx! Questão importante, em tempos de encolhimento generalizado, é definir os governos petistas com um mínimo de rigor: foram, essencialmente, neoliberais. Ajudaram a pavimentar o caminho para o buraco em que o país se meteu. O neoliberalismo brasileiro está estruturado sobre três eixos: lei de responsabilidade fiscal, metas de inflação, geração de superávits primários. Enquanto puderam, os governos petistas rezaram o terço da santíssima trindade neoliberal. “Nunca na história do Brasil eles (empresários) ganharam tanto dinheiro quanto ganharam quando eu fui presidente da república”, disse, talvez com razão, Luiz Inácio Lula da Silva. Dilma começou a cair quando seu governo se mostrou incapaz de gerar superávits primários para alimentar o mercado da dívida pública.

Já disseram que a manipulação está na verdade omitida e não na mentira contada. Algumas perguntas que a mídia empresarial e os liberolas não fazem, mas que ajudam a iluminar a verdade omitida: Por que o Brasil foi o país que mais cresceu nas primeiras décadas do século XX? Por que a economia brasileira está encolhendo? Por que o encolhimento coincide com o neoliberalismo? Qual a relação entre o avanço neoliberal e o tombo econômico? Por que a ampliação das terceirizações não gerou empregos? Por que a reforma trabalhista não tirou o país do atoleiro? Por que a reforma da previdência não resolveu os problemas da nação? A única solução que a mídia empresarial e os liberolas dão para a crise é empurrar contrarreformas goela abaixo, como um bêbado que ingere quantidades crescentes de álcool. É como se a história tivesse acabado e não houvesse nem passado, nem presente, nem futuro, nem, sobretudo, alternativas. Restando, apenas e como única possibilidade, a radicalização do tripé neoliberal. As contrarreformas do tempo presente são, em geral, tentativas de radicalizar a lei de responsabilidade fiscal, de garantir as metas de inflação e a geração de superávits primários.

É compreensível que a mídia empresarial incorra em simplismos grosseiros para explicar o tombo econômico do Brasil, além da visão estreita e de curtíssimo prazo, lucram com o encolhimento do país. Nas crises a maioria perde, mas alguns ganham, entre estes estão os principais anunciantes da mídia empresarial. Relatório da Oxfam lançado em julho de 2020 informou que o patrimônio dos 42 bilionários brasileiros, somado, aumentou em US$ 34 bilhões, apesar da pandemia da covid-19 [3].

Um sintoma e um efeito do encolhimento do Brasil é o desaparecimento dos projetos para o país [4]. Tirando a mídia empresarial e os liberolas, alguém acredita que a submissão total ao mercado vai gerar desenvolvimento? Menciono o desaparecimento dos projetos para o país como constatação, não para defendê-los. Não se trata de propor um projeto para o Brasil, não existe nem socialismo em um só país nem libertação que não seja internacionalista. Não adianta substituir o neoliberalismo entreguista pelo desenvolvimentismo nacionalista, assim como a centralização estatizante não pode ser pensada como alternativa ao mercado capitalista, pelo menos na perspectiva da emancipação dos trabalhadores. As experiências desenvolvimentistas brasileiras [5] atestaram que o país não vai se desenvolver por dentro do capitalismo, com conciliações de classe e sem rupturas. Mas chama a atenção, atualmente, a ausência de projetos para o país, até o desenvolvimentismo nacionalista sumiu do mapa das ideias. Antes até a direita tinha um projeto, atualmente nem a esquerda sabe o que é isso. A burguesia brasileira se conformou com o papel de sócia menor do grande capital? Ou foi sempre assim, sendo as experiências desenvolvimentistas exceções que confirmam a regra? São questões para serem pensadas.

Como desgraça pouca é bobagem, não apenas a economia brasileira está encolhendo. Encolhe a política. Encolhe a fauna. Encolhe a flora. Encolhe a vida. Encolhe a democracia. Encolhe a ciência. Encolhe a pesquisa. Encolhe o conhecimento. Encolhe a moral. Encolhe a cultura. Encolhe o humor. Encolhe a literatura. Encolhe a música. Encolhe o futuro. Até o futebol brasileiro está encolhendo.

Mas é, sobretudo, na capacidade de crítica, de imaginação e de indignação que o Brasil está encolhendo. Cito apenas alguns: que falta fazem Machado de Assis, os anarquistas de 1917, os modernistas de 1922, Cora Coralina, Pixinguinha, Carlos Drummond de Andrade, Carolina Maria de Jesus, o Centro Popular de Cultura, Carlos Marighella, Clarice Lispector, Adoniran Barbosa, Zé Kéti e até um autoproclamado reacionário como Nelson Rodrigues. Sim, os reacionários já foram mais inteligentes, viraram meros liberolas.

Notas

[1] Enquanto Brasil cresce apenas 2,2% na década, mundo avança 30,5%.
[2] Liberola é um mamífero tipicamente brasileiro, diz que é liberal, mas na verdade é carola. Liberalismo no discurso. Carolismo na prática. O liberola defende, sobretudo, preconceitos atávicos, não hesita em abrir mão do livre mercado sempre que considera necessário para a manutenção do status quo.
[3] Bilionários da América Latina aumentaram fortuna em US$ 48,2 bilhões durante a pandemia.
[4] Por projeto para o país entendo, por exemplo, as teorizações desenvolvimentistas de um Celso Furtado, que, aliás, escreveu um livro chamado Um projeto para o Brasil.
[5] Considero que aconteceram experiências desenvolvimentistas nos governos Getúlio e Jango. Os governos Lula e Dilma foram, essencialmente, neoliberais.




Fonte: Passapalavra.info