Outubro 31, 2020
Do El Coyote
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Agosto de 2020, Bruno
Beaklini (Bruno Lima Rocha Beaklini) com ilustração de Rafael Costa
(não é descendente, apoia a Causa Palestina)

Parece que finalmente
as grandes emissoras de TV do Brasil “redescobriram” o Líbano e
nossa gigantesca descendência. A enorme colônia foi observada
através de um conjunto de virtudes além do embranquecimento de uma
classe média, média alta e frações de classe dominante cujos mais
notáveis membros formam a “vergonha dos árabes”. No texto que
segue fazemos uma correlação entre a missão brasileira para a
terra ancestral, o papel da solidariedade à Causa Palestina e uma
razoável proposta de arranjo e aproximação diplomática, contando
tanto com capitais emigrados como os recursos humanos da diáspora e
sua descendência. Desenvolvemos o texto como um esforço, grão de
areia na (re)construção da tão sonhada esquerda árabe-brasileira.

A mais recente
tragédia do Líbano e a encruzilhada política

No dia 04 de agosto de
2020 houve uma gigantesca explosão no Porto de Beirute, indo pelos
ares uma absurda quantidade de quase três toneladas de nitrato de
amônia. O fator que acionou o material explosivo estocado de forma
irregular e em área densamente povoada, além de muito relevante
economicamente, até agora não se pode afirmar. Foi acidente ou
ataque de Israel, não se sabe; mas com certeza houve negligência,
muita negligência. O fato, inequívoco e irrefutável é: o sistema
sectário, o confessionalismo político – herança francesa dos
tempos do Protetorado parcialmente revivido pelo presidente francês
Emmanuel Macron e sua missão “de amizade” – está esgotado. O
país existe porque ao menos quatro grandes agrupamentos
culturais-religiosos (cristãos do oriente de maioria maronita,
sunitas, xiitas e drusos) dividem entre si os postos de poder e os
cargos-chave do frágil aparelho de Estado. O Acordo de Taif, em
1989, serviu para sair do impasse da guerra fratricida, mas
definitivamente, para governar não serve. Este país sectário que
não dá mais dessa maneira tem na sociedade civil razoavelmente
auto-organizada e com uma ira nos protestos semelhante ao que ocorre
nas ruas da Grécia, a sua maior esperança.

Eis o paradoxo. Para
não cair em nova guerra civil, o Líbano precisa do bom convívio
entre ao menos um dos três “partidos” de maioria maronita e o
partido hegemônico xiita, o Hezbollah (que supera e muito o poder de
alcance da outra grande força shia, a Amal, também sua
aliada). De preferência, que a composição deste governo traga
consigo algumas parcelas de representação, como um acordo de
convivência com o maior partido druso (comandado pelo clã Jumblatt,
o PSP), alguma força armênia, composição laica e outras
agrupações menores. Em tese, a Aliança de 8 de março dá conta de
todos esses fatores.

Mas, de novo, embora
seja muito “menos pior” que a Aliança de 14 de março (de fato,
a união dos clãs Hariri, sunita, e Gemayel, maronita), opera como
força de contenção da ira popular, para além do arranjo
confessional e de favores na base do familismo. Tanto há alguma
forma de entendimento entre as forças tradicionais que o passo
seguinte à tragédia pela negligência foi criar um gabinete de
“salvação” e uma lei marcial proibindo os protestos mais que
justos. Reforço a ideia: um pacto de convivência evita uma guerra
fratricida entre os líderes sectários. Mas, ao mesmo tempo, a
governabilidade no sectarismo é a principal razão do
descontentamento da massa que protesta em Beirute e sua gigantesca
região metropolitana.

E fica a dúvida. Como
ser solidário com o Líbano sem entrar nos temas centrais: – como
“preservar” o arranjo do confessionalismo político, na verdade
reforçado pelo Acordo de Taiff em 1989? – De que forma ajudar o
Líbano sem denunciar as agressões de Israel que podem voltar a
ocorrer a todo o momento? Por fim, o tema permanente dos refugiados,
tanto os palestinos como os vindos da internacionalizada guerra civil
da Síria. Sem entrar nesses três temas, o movimento de aproximação
da diáspora árabe-libanesa com a terra dos cedros é importante,
mas segue apenas tangenciando os problemas centrais.

A libertação da
Palestina é a chave de nossa reorganização junto com a ação
solidária ao Líbano

Não se trata de
denúncia, mas de mera constatação. “Normalizando” o crime da
ocupação de um país estrangeiro, o programa Esporte Espetacular
(revista eletrônica semanal de cobertura esportiva da Rede Globo)
manifestou apoio de fato a Ocupação da Cisjordânia e a Anexação
da Palestina. Isso ocorreu em matéria que foi ao ar (creio que
reprisada), no domingo 26 de julho de 2020.

O repórter Clayton
Conservani foi protagonista de uma reportagem da chamada “Maratona
Bíblica”, organizada pelo Estado de Israel e cujo trajeto se
passa mais de 70% na Cisjordânia. A Rede Globo mentiu duas vezes.
Primeiro ao não contextualizar a presença de soldados ocupantes em
ato de ilegalidade internacional, ferindo a já limitada soberania da
Autoridade Nacional Palestina. Ainda teve a cara de pau de afirmar
que a área está em “disputa”. Na sequência, em lindo
cenário de montes de oliveiras, usa o nome de Samaria, o mesmo
empregado pelo Comando Central das Forças de “Defesa” de Israel
(IDF) buscando uma justificativa bíblica para ferir o direito
internacional e arrecadar mais apoio da direita pentecostal dos EUA.

Mesmo quando se
posiciona de forma menos incorreta no Brasil, a Globo é a Globo e
segue mentindo no noticiário internacional. Já a família Saad,
controladora do Grupo Bandeirantes, serve para que mesmo em relação
a Causa Palestina e a Unidade Pan-arabista? Somos 16 milhões de
árabes descendentes para aturar isso todo dia?

Falamos acima, no
subtítulo da “libanidade”, da forte cobertura da emissora líder,
a TV Globo, assim como o correto posicionamento solidário – ou de
aparente solidariedade – ao Líbano através da família
controladora do conglomerado de comunicação criado na esteira do
projeto político de Adhemar de Barros. Infelizmente, abundam omissão
e desinformação, incluindo o “pop star” Guga Chakra –
orientalista do sistema – que dá palpite sobre quase tudo menos o
mais importante. No caso da Questão Palestina e da cobertura
jornalística que deveria ser correta – aplicando minimamente o
critério noticioso, de valor notícia – os ataques de Israel ao
Líbano (1978, 1982, a longa ocupação de 1985 a 2000, bombardeios
de 2006, 2009, 2017, 2019, 2020) e o mesmo se dá nos ataques contra
a Síria e a ocupação ilegal das Colinas de Golan. Mentem, omitem,
divergem. Repito: somos 16 milhões para aturar isso?

E a missão
brasileira ao Líbano? Onde está a diplomacia do Brasil no meio de
um novo arranjo?

Parece que os
“notáveis” da colônia foram para o Líbano coordenados
por dois execráveis golpistas, Paulo Skaf e Michel Temer (ver a
lista completa neste link:
https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2020/08/15/missao-brasileira-de-ajuda-enviada-ao-libano-retorna-ao-brasil-temer-e-skaf-desembarcam-em-sp.ghtml).
O ex-presidente ilegítimo se agarrou nesta oportunidade e levou
consigo até seu marqueteiro pessoal. Os doze integrantes – todos
homens por sinal – levaram dois compromissos de apoio direto: um
primeiro avião chegou com medicamentos e grãos (em 13 de agosto),
outro com a comitiva além de um navio com quatro toneladas de arroz,
uma semana depois. Houve um acórdão visível da aliança de 14 de
março (Hariri-Gemayel-Chamoun-Geagea) em terras paulistas e a partir
daí a delegação oficializada pelo imbecil fascistoide que anda com
a bandeira do Estado inimigo (Bolsonaro e sua bandeira de Israel a
tiracolo) só reforça as duas Alianças de Março e nada mais
concreto, como o engajamento das forças vivas da descendência
árabe-brasileira com ênfase nós árabes de origem libanesa.

O problema de fundo
está na diplomacia brasileira. Se o Itamaraty tivesse um comando à
altura de sua história, proporia um grupo de trabalho comprometendo
o Brasil com um aporte da oferta de grãos que nossa ancestralidade
necessita. O arroz abundante poderia ser o começo de um Banco de
Alimentos com lastro e garantias em um banco cooperativo captando
capitais emigrados e tributando “moralmente” a bilionários
como os Slim Helú (Grupo Claro, de família maronita). Expertise de
sobra tem o Banco da Palestina (ver
https://www.bankofpalestine.com/en/home), com capitais de origem
também vinculados na maior colônia de “baisanos”
palestinos no Chile. O fato desta colônia chilena ser de ampla
maioria cristã poderia tranquilizar aos ex-falangistas ainda na
vassalagem psicológica da França. Um aporte de uma entidade
bancária externa poderia dar a tranquilidade necessária para a
militância da diáspora que olha com muita desconfiança ao sistema
sectário. Um fundo específico com aportes e cotas das colônias e o
dinheiro entrava limpo, sem carimbos de esquemas Ponzi, elisão
fiscal, evasão de divisas e outras formas suspeitas de gestão
financeira (ver:
https://www.aljazeera.com/programmes/countingthecost/2020/08/lebanon-economy-destroyed-politics-banking-elites-200815065601081.html).

Uma solução fácil
como essa colocaria Brasil, Chile e junto à Argentina no miolo dos
eixos diplomáticos do Oriente Médio novamente, pela porta da frente
e dando um alívio para a sociedade civil libanesa que quer ir além
do arranjo de 1989.

Pelo visto, não faltam
ideias razoáveis, mas carece de condições políticas no MRE
brasileiro para implementar o óbvio. Cabe aos brimos e brimas, a
brimarada por esquerda para forçar alguma saída razoável que não
seja exportar a “vergonha dos árabes daqui” para
“referendar a mesquinharia de lá”.

Uma conclusão óbvia

Não devemos fingir que
nada acontece e mesclar de forma irresponsável temas da política
regional com os domésticos libaneses. O conjunto de ameaças
externas ao Líbano é enorme: Arábia Saudita e EUA, mais os ataques
constantes de Israel e as pretensões tutelares da França. Também
não se pode negar que a agenda da Síria e Irã incide no país, e
nem sempre de forma positiva. Por mais relevante que seja a posição
iraniana de defesa da libertação da Palestina e no apoio da
resistência libanesa, o passo adiante se faz necessário.
Geopolítica é importante, mas a luta popular deve ser superior.

É
hora de incentivar Bella Ciao em árabe, canção da revolução
civil e anti sectária. Antes que pensem bobagem de incentivo a uma
“revolução colorida para troca de regimes a favor do Ocidente”,
tenho todo o respeito pelo empenho do Hezbollah em expulsar as forças
invasoras israelenses, mas o governo Aoun, onde a força
político-militar liderada por Hassan Nasrallah faz parte, manteve
péssimos serviços públicos e não conseguiu sequer organizar a
coleta de lixo! Sendo que essa é a parte “menos ruim” da
política profissional libanesa, imagina sob controle de banqueiros
ex-falangistas?!

Logo, viva a sociedade
civil auto-organizada do Líbano, já que a única saída dos povos é
protagonizar sua própria luta. E, de preferência, que “as ruas
árabes” voltem a entoar a unidade pan-arabista na soberania
absoluta do Líbano, a libertação da Palestina e o confederalismo,
nos termos que a luta conseguir alcançar!

Bruno Beaklini
(Bruno Lima Rocha Beaklini), é militante socialista libertário de
origem árabe-brasileira e editor dos canais do Estratégia &
Análise, a análise política para a esquerda mais à esquerda.

Rafael Costa
apoia a Causa Palestina e o Confederalismo Democrático, é
desenhista e cartunista (E-mail- Rafael.martinsdacosta@yahoo.com.br.
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Fonte: Elcoyote.org