Setembro 26, 2021
Do Colectivo Libertario Evora
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A falta de rigor, mentiras e insuficiências de alguns dos materiais do Museu do Aljube (como também do Museu de Peniche) que deveriam abordar a resistência ao fascismo de uma forma séria, isenta e baseada em dados objectivos, continua em força, agora e mais uma vez. Numa referência recente ao marinheiro Cândido Alves Barjas, envolvido no acontecimento da Revolta dos Marinheiros em 1936, os propagandistas do Museu vão contra todo o conhecimento histórico produzido pelos investigadores nos últimos anos e insistem na visão propagandística com que o PCP quis revestir os factos,

Segundo o Museu, a Revolta dos Marinheiros foi um “levantamento realizado a 8 de setembro de 1936, preparado pela Organização Revolucionária da Armada (ORA), estrutura ligada ao Partido Comunista Português (PCP), com o objetivo de derrubar o Estado Novo”, o que vai totalmente ao arrepio da verdade histórica desenvolvida por vários investigadores, para quem esta revolta nunca teve a ver com qualquer tentativa de derrube do Estado Novo ou com uma solidariedade afirmativa com a Republica Espanhola, mas sim com um protesto, que se queria pacífico, visando a reintegração de 17 marinheiros demitidos depois de terem mantido contactos em portos espanhóis com elementos republicanos, o que não estaria autorizado.

É esta a constatação a que chega José Eduardo Casimiro Da Silva Capinha Henriques que na sua tese de mestrado sobre a “A Revolta dos Marinheiros de 1936” escreve, nas páginas 23/24: “O argumento principal apresentado é que se estava a organizar um protesto, não violento, por causa dos camaradas do NRP Afonso de Albuquerque que tinham sido expulsos em virtude da viagem a Málaga, no Sul de Espanha, com o intuito de recolher refugiados nacionais que se encontravam em território espanhol, uma semana antes e que este protesto visava a readmissão dos mesmos, derivado das circunstâncias, tidas como injustas, em que os marinheiros tinham sido expulsos da Marinha”.

E prossegue: “Este protesto iria consistir em tomar conta dos navios e tentar levá-los para fora da barra de Lisboa, de modo a exigir ao governo de Salazar a reinserção dos militares expulsos. Mas, em alguns casos, chega-se a falar em exigir a libertação de presos políticos do forte de Peniche e caso não fossem atendidas as exigências impostas, o plano seria navegar até aos Açores ou Madeira e libertar os presos políticos que lá se encontravam; caso isso falhasse, o último recurso seria ir até Espanha e juntarem-se ao lado Republicano.”

Esta justificação é, de novo, reforçada na página 51 do mesmo trabalho: “O golpe consistiria num protesto, supostamente não violento, em que iriam tomar conta dos navios e tentar levá-los para fora da barra de Lisboa, de modo a pedirem ao governo de Salazar, a readmissão dos 17 camaradas do NRP Afonso de Albuquerque expulsos da Marinha alguns dias antes.”

Também recentemente, numa comunicação apresentada no colóquio “Socialistas, Republicanos, Anarquistas, Radicais, Velhas Resistências, Novos Estudos e Memória”, a historiadora Luísa Tiago de Oliveira apresentou  a exigência de reintegração dos marinheiros expulsos como a razão para a revolta, e não qualquer tentativa de derrube do Estado Novo ou de solidariedade com a República Espanhola, como referem os textos propagandísticos.

A investigadora, baseada na documentação existente, considerou que apesar de uma presença forte do PCP na Marinha, a revolta, falhada e rapidamente controlada pelo regime,  teve a ver com a reivindicação de reintegração de 17 marinheiros afastados depois de terem mantido contactos não autorizados em portos controlados pelos republicanos espanhóis.

Foi este o motivo da revolta e não aquele que, ao arrepio da verdade histórica, vem agora o Museu do Aljube reafirmar, coincidindo com a versão propagandística do PCP, de que o levantamento foi “preparado pela Organização Revolucionária da Armada (ORA), estrutura ligada ao Partido Comunista Português (PCP), com o objetivo de derrubar o Estado Novo.”

Começa a ser demasiado grave a falta de rigor de uma entidade que se deveria pautar pela verdade histórica e não pela visão deturpada e ideologicamente orientada em que, cada vez mais, é useira e vezeira.




Fonte: Colectivolibertarioevora.wordpress.com