Junho 9, 2022
Do Colectivo Libertario Evora
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Coincidindo com a cimeira da NATO na capital espanhola, no domingo, 26 de Junho, em Madrid, realiza-se uma manifestação multisectorial, de âmbito global, contra o militarismo, contra a NATO e o aumento dos impostos ligados ao sector militar. Uma manifestação pela paz e contra a guerra venha ela de onde vier. Neste contexto interessa perceber o papel – ou os papéis da NATO – e do militarismo norte-americano e europeu. É esse o âmbito deste artigo que traduzimos do jornal anarquista em língua castelhana Todo por Hacer.

O PAPEL DA NATO NA ARQUITETURA DO CAPITALISMO GLOBAL

Jose Luis Carretero Miramar

A Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO), também conhecida como “Aliança Atlântica”, foi fundada pelo Tratado de Washington, assinado em 4 de abril de 1949. Com apenas 14 artigos, este tratado internacional anuncia no seu preâmbulo que as partes signatárias “reafirmam a sua fé nos intuitos e princípios da Carta das Nações Unidas e o desejo de viver em paz com todos os povos e com todos os Governos. Decididos a salvaguardar a liberdade, herança comum e civilização dos seus povos, fundadas nos princípios da democracia, das liberdades individuais e do respeito pelo direito”.

Apesar de um início tão idílico, a NATO não é uma plataforma para o alargamento e desenvolvimento dos direitos humanos ou uma ONG focada em resolver as muitas injustiças que assolam as nossas sociedades, mas sim uma organização militar internacional que é responsável por mais de 50% da despesa global em armas . Segundo a revista Defense , “em 2021 o total de gastos militares dos 30 países que compõem a NATO subiu para 1.048.511 milhões de dólares constantes em 2015, e representa um aumento de 2,11% em relação a 2020. 30,8% deste valor corresponde aos EUA (322.803 milhões). Este orçamento financia mais de três milhões de homens e 3.317.000 mulheres que compõem os exércitos dos países da NATO (120.000 é o número de militares que corresponde à Espanha)” .

Qual é o objetivo final dessa gigantesca estrutura militar transnacional, firmemente hegemonizada pelos Estados Unidos, que constitui o Exército mais imponente e extenso da História da Humanidade? Tentaremos desvendá-lo, brevemente, neste texto.

A NATO foi constituída no início da Guerra Fria entre os Estados Unidos e a União Soviética. Oficialmente apresenta-se como uma organização armada constituída para garantir o apoio mútuo entre os países ocidentais diante do expansionismo soviético. O artigo 1º do Tratado fundador estabelece que “As Partes comprometem-se, de acordo com o estabelecido na Carta das Nações Unidas, a regular por meios pacíficos todas as divergências internacionais em que possam encontrar-se envolvidas, por forma que não façam perigar a paz e a segurança internacionais, assim como a justiça” . No entanto, o artigo 5º do mesmo Tratado estabelece um sistema automático pelo qual “As Partes concordam em que um ataque armado contra uma ou várias delas na Europa ou na América do Norte será considerado um ataque a todas, e, consequentemente, concordam em que, se um tal ataque armado se verificar, cada uma (…) prestará assistência à Parte ou Partes assim atacadas, praticando sem demora, individualmente e de acordo com as restantes Partes, a acção que considerar necessária, inclusive o emprego da força armada” .

No entanto, a ameaça do expansionismo soviético, nos anos seguintes a 1949, dificilmente podia consistir num hipotético ataque armado da URSS contra os países ocidentais. O Pacto de Varsóvia (a organização espelho da NATO entre os países do “socialismo real”) só foi fundado em 1955, como resposta ao surgimento da NATO.

A ameaça real, então, nos territórios da Europa Ocidental, era a expansão do movimento operário e do comunismo, nalguns lugares ainda não domesticados. Isso explica as reiteradas informações sobre a participação de serviços da estrutura de espionagem da NATO em atividades de contra-insurgência em vários países europeus, realizando ataques, vigilância ou campanhas de desinformação política. A rede Gladio na Itália, Absalon na Dinamarca ou ROC na Noruega, são os vários nomes das estruturas que os serviços secretos da Aliança, em colaboração com a CIA e o M16 britânico, bem como em estreito contato com setores da extrema direita de vários países, lançou durante a Guerra Fria numa Europa que pretendia afastar-se da influência comunista. Já em 1957, por exemplo, o diretor dos serviços secretos da Noruega, Vilhelm Evang, protestou publicamente contra as actividades de subversão politicas levadas a cabo pela NATO e pelos Estados Unidos, retirando temporariamente o Exército Norueguês do Comité Clandestino de Coordenação da Organização.

Com a queda do Muro de Berlim e a dissolução do Pacto de Varsóvia, a Aliança parecia ter ficado esvaziada de funções. A Europa já não estava em perigo. No entanto, a OTAN não foi dissolvida, mas assumiu com ainda maior vigor objetivos que, embora já implementados durante a Guerra Fria, são fundamentais para a gestão política e social da hegemonia norte-americana no mundo.

Expliquemo-nos: A NATO é uma organização militar e de espionagem que permite ao Exército dos EUA (de longe o maior do mundo e que, de facto, hegemoniza a tomada de decisões da Aliança Atlântica) controlar padrões técnicos e estruturas de comando dos Exércitos aliados, orientar a formação militar e político-social das Forças Armadas dos restantes signatários do Tratado, impor a sua análise sobre as ameaças globais e sobre as medidas a tomar perante elas e, sobretudo, converter os Exércitos signatários em clientes leais e dependentes de sua imensa indústria de defesa. E a indústria de defesa é o pilar essencial do Império Americano.

Vamos detalhar: os Estados Unidos têm intermitentemente uma enorme dívida pública. Uma dívida que, se fosse nalgum outro país, implicaria a sua falência  e a venda em saldo da sua estrutura produtica e dos seus serviços públicos através de um Plano de Ajustamento Estrutural como os que o Fundo Monetário Internacional obriga os países do Terceiro Mundo a aceitar. Mas os EUA lidam com essa dívida sem problemas. Como? Porque tem o que alguns autores chamam de “soberania do dólar”, ou seja, tem à sua disposição a máquina de emitir dólares para pagar a dívida. Para isso, é fundamental que o dólar continue a ser a moeda internacional de referência, ou seja, que todos os bancos centrais e empresas do mundo estejam dispostos a usá-lo para as suas transações. O aparelho militar hipertrofiado dos EUA garante que assim seja. Se alguém toma medidas que possam privilegiar  outras moedas no comércio internacional, pode ser rapidamente surpreendido pelo Corpo de Fuzileiros Navais, como aconteceu Saddam Hussein.

A expansão brutal dos gastos militares dos EUA é, além disso, um dos elementos fundamentais para o seu sucesso económico após a Segunda Guerra Mundial. Como apontaram pensadores como Noam Chomsky ou Jame Petras, os Estados Unidos baseiam-se numa forma perversa de política económica a que poderíamos chamar de “keynesianismo militar”. Essa política económica baseia-se em grandes gastos públicos na defesa que alimentam um enorme “complexo militar-industrial” de empresas privadas gigantescas.

O “keynesianismo militar” funciona como uma injeção contínua de gastos públicos que alimentam a economia, mas num setor específico (o militar) onde não “concorre” com o setor privado (como seria o caso se essa despesa pública fosse de âmbito social, com gastos na educação ou na saúde). Deste modo, a economia dos EUA consegue fazer a quadratura do círculo, graças ao seu setor de defesa hipertrofiado. Estimula a sua economia industrial com despesas militares que não precisa pagar pelo seu valor real, pois tem a “máquina de fazer notas” de cuja aceitação internacional o Corpo de Fuzileiros Navais trata.

Pelo que a NATO é um clube de clientes fiéis da indústria militar norte-americana e uma estrutura que garante a sua influência política sobre as Forças Armadas de outros países.

Por outro lado, para legitimar a organização, foi atribuído à NATO um papel secundário na estratégia principal das últimas décadas do aparelho militar norte-americano . A “soberania do dólar” assenta no facto das Forças Armadas dos Estados Unidos cumprirem a função de “polícia do mundo” , garantindo as infra-estruturas básicas da globalização económica (ou seja, que as principais rotas comerciais estejam disponíveis para o comércio mundial e que a energia e as mercadorias cheguem onde devem chegar). Isso explica a estratégia dos EUA no Médio Oriente (invasões do Iraque e Afeganistão, guerra na Síria), bem como a pressão impiedosa da Aliança sobre a Rússia, que é um país com uma fantástica base de matérias-primas e fontes de energia que os fundos de investimento internacionais ainda não controlam totalmente.

Neste papel de “polícia global”, a NATO desempenhou, até agora, um papel auxiliar do Exército dos EUA. O artigo 5º do Tratado fundador só foi ativado para justificar a intervenção no Afeganistão (contra as redes jihadistas que ameaçavam as rotas de transporte de energia a nível global). No entanto, o seu papel na Europa parece dar-lhe um destaque acrescido: a viragem da infra-estrutura militar da NATO para a Rússia parece o prelúdio de uma enxurrada brutal de conflitos “quentes” e “frios” entre os países ocidentais e as novas potências emergentes ( China, Rússia , Irão…) que pode durar décadas.

A NATO justifica-se a si própria ao apresentar-se como a alternativa militar a uma Europa sem um Exército coordenado, ameaçada pelo sul e pelo leste e sem padrões comuns para a sua indústria de defesa. No entanto, não podemos esquecer que a única coisa que a NATO nos oferece, na realidade, é a dependência, a falta de soberania, o controle ideológico, a militarização social e o desvio de recursos públicos para as guerras e massacres de que os grandes investidores necessitam.

Os povos estão contra a NATO porque sabem que o industrial que vende armas é irmão do senhor que provoca as batalhas.

7 DE JUNHO DE 2022

Aqui: https://www.todoporhacer.org/otan/




Fonte: Colectivolibertarioevora.wordpress.com