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O preÇo da guerra e da liberaÇÃo [1]


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Marie Louise Berneri

O bombardeio britânico trouxe morte para milhares de pessoas nas últimas semanas. Em [a reunião de encerramento dos Aliados em] Quebec, políticos que providenciaram a si mesmos abrigos bem fora do alcance das bombas, estão planejando prorrogar o bombardeio massivo como um meio de continuar a “guerra contra o fascismo”.

Hamburgo, Milão, Gênova, Turim,   estão cobertos com ruínas, suas ruas amontoadas com corpos e fluindo com sangue. “Hamburgização” [2] está entrando em uso como um novo termo para a destruição total de cidades, e o assassinato em massa das suas populações através de ataques terroristas. A Imprensa se orgulha do poder da FAR [3] de carregar tal destruição para todas as cidades da Alemanha e da Europa Central. Grita com indignação quando os alemães bombardeiam igrejas e hospitais, mas quando o cheiro de carnificina sobre das cidades que um dia foram belas e populosas eles encontram palavras de regozijo. Quando as redes de água foram acertadas em Milão e o centro da cidade estava inundado, eles acham que é um tema para uma piada. “Lago Milão”, o jornalista esperto o chama. Que importa a ele se “a água está fluindo entre as ruínas e os destroços dos edifícios bombardeados e as pessoas vivendo no distrito foram forçados a permanecer nos escombros dos seus lares por quatro dias até que a água diminuísse e eles pudessem sair…” “Lago Milão é realmente uma piada esplêndida. Mas, enquanto os jornalistas dão risada nos pubs da Fleet Street, os hospitais e os esquadrões de resgate estão trabalhando dia e noite para tentar e aliviar um pouco da dor e da desfiguração da fome e exposição das vítimas.

Nossos cartunistas também acham a destruição total um tema para comentários humorísticos. “Berlim está fora do ar, e em breve estará fora do mapa também!”. Mas quando os jornais publicam descrições e fotografias da destruição e da miséria em Hamburgo e Milão, as pessoas de Clydeside e Coventry, Plymouth e da extremidade leste de Londres, serão lembradas dos dias e das noites quando suas casas foram bombardeadas, quando seus parentes foram assassinados ou esperaram pela sua vez nos hospitais… Quando os jornais falarem se regozijando dos fluxos de refugiados freneticamente saindo de Hamburgo com as sobras dos seus pertences nas costas, das pessoas de Milão “acampando debaixo das árvores”, as pessoas das cidades bombardeadas da Inglaterra se lembrarão das suas próprias tentativas de cair fora do terror noturno, se lembrarão que quando elas migraram de Plymouth para a zona rural, elas encontraram os casarões dos ricos fechados para elas, e elas foram largadas para vagar sem comida ou abrigo.

Pois quem sofre nas grandes cidades industriais quando elas são bombardeadas, senão os trabalhadores que levaram vidas de miséria e labuta como os trabalhadores de Clydeside ou Coventry?Quando o porto de Nápoles é bombardeado, é o distrito densamente populoso da classe trabalhadora que cerca o porto que mais sofre. As bombas não acertam as vilas suntuosas de fascistas ricos que estão espalhados ao longo das costas da baía de Nápoles; elas acertam apenas aquelas casas de andar alto tão lotadas uma por cima da outra que as ruas não passam de passagens sombrias entre elas; casas onde vivem entre quatro a cinco pessoas por cômodo.

Quando as cidades alemãs são bombardeadas, não é a elite nazista que sofre. Ela tem profundos e confortáveis abrigos, assim como a elite neste país. Suas famílias foram evacuadas para distritos seguros ou pra Suíça. Mas os trabalhadores não podem fugir. O proletariado da cidade, os trabalhadores franceses, holandeses, belgas e escandinavos são forçados pela Gestapo da fábrica de Himmler a continuar trabalhando apesar do bombardeio pesado. Para eles, fugir é impossível.

Trabalhadores nas fábricas de munição e nas fábricas de aeronaves são solicitados a se alegrarem com essa destruição indiscriminada da qual não há escapatória. Fotografias, mostrando enormes amontoados de ruínas, estão coladas em toda parte com a legenda “Este é o seu trabalho”. A classe dirigente quer que eles se sintam orgulhosos por terem ajudado a destruir famílias da classe trabalhadora. Pois é isto o que fizeram. Eles ajudaram seus amos a encenar massacres, em comparação com os quais, a destruição de Guernica, o bombardeio de Rotterdam e Varsóvia se assemelham a brincar na guerra. Tais cartazes deveriam causar indignação à humanidade, fazer com que se sintam doentes pelo papel que a sociedade capitalista os chama a encenar.

Os trabalhadores italianos mostraram que, apesar de vinte anos de opressão fascista, eles sabiam bem onde seus interesses de classe repousam. Eles se recusaram a ser ferramentas dispostas nas mãos dos chefes. Eles entraram em greve, sabotaram a indústria bélica, cortaram linhas de telefone e desorganizaram o transporte. Qual é a resposta Grã-Bretanha Democrática à sua luta contra o fascismo? Bombardeio e mais bombardeio. Os aliados pediram ao povo italiano que enfraquecessem a máquina de guerra de Mussolini, e agora nós tiramos proveito da sua própria fraqueza para bombardeá-los em pedaços.

Nossos políticos professaram interesse numa revolução na Europa para derrubar o fascismo. Mas agora está mais claro do que nunca que o que eles mais têm medo é que o fascismo deveria ser derrubado pela revolta popular. Eles estão apavorados com a revolução, apavorados com a “Anarquia”. Eles querem estabelecer a “ordem”, e, como sempre, estão preparados para avançar por rios de sangue para assegurar sua ideia de ordem – ordem na qual os trabalhadores aceitam sua sorte de pobreza e dor com resignação.

Quantas vezes no passado escutamos que o anarquismo significa bombas, que anarquistas trabalharam para a destruição geral. Quantas vezes a repressão policial da classe dirigente foi instituída pois um anarquista tentou assassinar um único governante ou político reacionário? Mas Mas um único ataque de Hamburgização mata mais homens e mulheres e crianças do que mataram em toda a história, quer verdadeiro quer inventado, as bombas anarquistas. As bombas anarquistas foram miradas em tiranos que eram responsáveis pela miséria de milhões; as bombas da classe dirigente apenas matam milhares de trabalhadores indiscriminadamente.

“Desordem”, “Anarquia”, bradou a Imprensa burguesa quando resolutos solitários como Sbardelotto, Schirru e Lucetti [4], tentaram matar Mussolini. Agora os mesmos capitalistas querem riscar cidades inteiras do mapa da Europa; querem reduzir populações inteiras a inanição, com seu flagelo resultante de epidemias e doença por todo o mundo. Esta é a paz e a ordem que eles querem trazer aos trabalhadores do mundo com as suas bombas.

Traduzido por Inaê Diana Ashokasundari Shravya

NOTAS

[1] Texto datado de setembro de 1943, disponível online em: <https://libcom.org/library/constructive-policy-versus-destructive-war-marie-louise-berneri>. Marie Louise Berneri era filha do filósofo anarquista Camilo Berneri e da ativista anarquista e redatora da revista libertária Uminatà Nova Giovannina Caleffi. Também possui um trabalho incrível sobre literatura e utopia intitulado Journey through Utopia [N.T.]

[2] “Hamburgização” é o termo usado pelo comando de bombardeiro britânico para descrever a completa ou vasta destruição de alvos militares e não-militares numa tempestade de fogo, desencadeada por bombas incendiárias e de fósforo. [N.T.]

[3] FAR é a sigla para Força Aérea Real [RAF (Royal Air Force) em inglês], o braço aéreo das forças armadas do Reino Unido. [N.T.]

[4] A respeito dos nomes citados, encontrei o de Gino Lucetti (1901-1943), que é contado no livro Gino Lucetti, l’attentato contro il Duce, 11 settembre 1926, de Riccardo Lucetti. Errico Malatesta teria sido apontado como participante por endossar o atentado. Michele Schirru pode ser encontrada no livro Vita e morte de Michele Schirru (l’anarchico che pensò di uccidere Mussolini), pela editora Laterza. Schirru estudou os itinerários habituais de Mussolini durante duas semanas antes da tentativa de assassinato. Quando foi preso, constava em sua sentença: “Quem atenta contra a vida do Duce atenta contra a grandeza da Itália, atenta contra a humanidade, porquanto o Duce pertence à humanidade”. Considerando-se os assassinatos e perseguições promovidos pelo Estado italiano, pode-se concluir que o Estado, conforme constata Berenice Bento num artigo seu sobre o Estado brasileiro intitulado Necrobiopoder(2018), “aparece como agente fundamental que distribui de forma não igualitária o reconhecimento de humanidade”. Sentenciado à morte, Schirru morreu gritando: “Viva a anarquia!”. Sobre Angelo Sbardelotto, assim como Schirru, foi condenado sem ter realizado a tentativa de assassinato, sendo condenado à pena de morte em menos de duas horas pelo Tribunal Especial para a Defesa do Estado Fascista. A base de sua condenação? “Delito de intenção” de assassinar o Duce. Assim que ouviu o disparo durante o fuzilamento, gritou “Viva a Anarquia!”. Seu corpo jamais foi entregue à sua família. Sua biografia pode ser lida no livro Angelo Sbardelotto. Vita processo e morte dell’emigrante anarchico fucilato per l’intenzione” di uccidere Mussolini, de Giuseppe Galzerano. Deixo também a indicação do livro Prisoners and Partisans: Italian anarchists in the struggle against fascism, disponível para download gratuito no seguinte link: <https://www.katesharpleylibrary.net/cc2gxx&gt; . [N.T.]




Fonte: Ielibertarios.wordpress.com
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