Maio 12, 2022
Do Jornal Mapa
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O 1.º de Maio foi celebrado como Dia do Trabalhador em Portugal, pela primeira vez, em 1890, após decisão do Congresso Internacional de Paris de 1889, que escolheu a data em homenagem aos trabalhadores de Chicago que morreram a lutar pela redução da jornada de trabalho para oito horas. Mas, antes desta data, o 1.º de Maio era já um dia em que não se trabalhava, de celebração da chegada da Primavera e de um novo ciclo agrícola.

No Algarve, as pessoas cultivavam práticas que variavam de localidade para localidade, como apanhar flores amarelas nos campos – as maias –, fazer piqueniques, organizar cortejos com crianças ou jovens vestidas de branco e adornadas com flores – a quem também chamavam «maias» ou «maios» -, participar em bailes decorados com motivos florais ou construir bonecos de palha ou trapos velhos, «maios» (se se tratasse de uma figura masculina) ou «maias» (se se tratasse de uma figura feminina).

A forma como o 1.º de Maio foi sendo festejado ao longo das décadas foi variando contextualmente, agregando, em muitos casos, elementos da festividade operária e da primaveril.

Do campo para a cidade

Durante a Primeira República, em várias localidades do litoral algarvio, o dia começava com o desfile de uma banda filarmónica, que percorria as ruas da cidade, entrando por vezes em sedes de associações ou organizações operárias para troca de cumprimentos, bem como para tocar o hino operário e agregar os trabalhadores associados ao cortejo. No final do percurso, ainda de manhã, o cortejo dirigia-se ao cemitério da localidade, levando coroas de flores para homenagear operários ou militantes falecidos; muitas vezes, durante a tarde, grupos de amigos ou famílias deslocavam-se ao campo ou à praia para fazerem piqueniques e merendas. À noite, as pessoas reuniam-se num dos grupos recreativos da zona para assistirem a comícios organizados por sindicatos. Ouviam-se então discursos de reivindicação das 8 horas de trabalho diário, do aumento do salário, do acesso à educação, de melhores condições de trabalho, das liberdades de reunião e associação ou da protecção de mulheres e crianças. O dia acabava com bailes em que se cantava e dançava até altas horas. Normalmente, os locais onde decorriam estes eventos eram decorados com flores.

Esta mistura de elementos primaveris e políticos terá sido imposta pelas bases populares que participavam nestes eventos. Inserido num projecto ideológico eminentemente urbano, o 1.º de Maio operário integrava práticas culturais de origem camponesa familiares aos novos migrantes, que vieram dos campos para as cidades do litoral, para trabalhar nas recentes indústrias da pesca e das conservas. 1

Por outro lado, ao Partido Socialista de então, principal órgão responsável pela organização dos festejos do Dia do Trabalhador neste período, seria vantajoso aproximar a celebração política ao festejo da Primavera, cativando essas bases e dando-lhe um cunho festivo e pacífico, que a afastava das organizações também presentes na altura, de anarquistas e antiautoritários, que preferiam acções ilegais, ou mais subversivas, e greves gerais. 2)

A forma como o 1.º de Maio foi sendo festejado ao longo das décadas foi variando contextualmente, agregando, em muitos casos, elementos da festividade operária e da primaveril.

Maio, o mês de Maria

No início do Estado Novo, o 1.º de Maio é descrito como a festa do trabalho. O discurso é veiculado de acordo com as orientações emitidas pela FNAT (Federação Nacional para a Alegria no Trabalho), que tinham como objectivo representar os trabalhadores como pessoas pacíficas e ordeiras e «eliminar toda a referência à oposição entre classes, ao internacionalismo proletário e aos valores culturais democráticos ou de esquerda». 3

Porém, mais tarde, o Estado Novo tentou separar a data política da primaveril, combatendo a primeira e permitindo a continuação da segunda. Até 1952, continuaram a realizar-se os piqueniques, os passeios no campo e os bailes populares, entre outras práticas, como as Maias, bonecas ou jovens enfeitadas de flores.

Entretanto, registam-se claras tentativas de apropriação do discurso sobre as festas de Maio, resgatando-as quer do paganismo quer do socialismo, para as aproximar ao Catolicismo – Maio, mês de Maria – e à unidade nacional. Depois de várias tentativas de apropriação do 1.º de Maio, o Estado Novo impôs a proibição de todas as celebrações, incluindo as de carácter mais lúdico. O Decreto-Lei de 4 de Janeiro de 1952 aboliu os feriados municipais e as liberdades regionais das comemorações do 1.º de Maio. O dia 1 de Maio passaria, então, a ser um dia de trabalho.

Todavia, nesse ano, muitos foram os trabalhadores que decidiram folgar e participar nos habituais convívios e piqueniques nos campos. Vários foram os locais de trabalho em que houve uma espécie de greve espontânea nesse dia, em especial nas indústrias ligadas à construção civil e à tipografia.

A década de 50 marcou uma viragem na forma como o Estado Novo passou a reprimir as festas de Maio. Ao aproximar-se a data, o aparato policial reforçava a vigilância nos locais de trabalho e nas ruas, impedindo ajuntamentos de mais de três pessoas nos passeios, principalmente nos contextos reconhecidos como sendo mais «irrequietos». Em geral, houve uma certa resistência ao abandono das práticas festivas desta data, que continuaram com algumas adaptações. Muitas pessoas não iam trabalhar, faziam minutos de silêncio, interrompiam a produção, ou organizavam protestos mais ruidosos. Em muitos locais, os festejos passaram a obedecer a formas mais simbólicas ou codificadas, mas reconhecíveis entre as comunidades operárias, como o uso de gravatas vermelhas, flores à lapela, traje de domingo ou jantares de grupo. 4

No Algarve, os bonecos maios continuaram a ser construídos e colocados no espaço público. Em geral, eram feitos de uma forma muito simples e representavam um homem embriagado. Colocados nas açoteias, varandas ou à porta da casa das pessoas, eram acompanhados por um garrafão de vinho ou aguardente e um prato de caracóis ou frutos secos. Aquela cena representaria o que no Algarve se entende por «atacar o maio» ou «matar o bicho», um hábito que correspondia a, logo pela manhã, beber um cálice de medronho ou aguardente e comer um figo seco, para dar sorte para o resto do ano.

Num documento de 2015, Manuel Pereira, membro da direcção do Futebol Clube de Bias, clube responsável pela revitalização das festas dos maios nos anos 1980, indica que o costume da construção de bonecos em Olhão teria sido reprimido pelo Estado Novo: «Antes da Revolução de 25 de Abril de 1974, estas manifestações populares de carácter profano eram pouco viáveis. De facto, as autoridades reprimiam este ritual, na medida em que apresentava duras e jocosas críticas ao regime de ditadura de Oliveira Salazar, e depois de Marcelo Caetano. Mas, ainda assim, no passado era possível ver alguns maios pendurados, como se faz com o Pai Natal, nas fachadas de várias casas dispersas no campo». 5

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Adormecimento e revitalização das festas primaveris

Após o 25 de Abril de 1974, a Junta de Salvação Nacional proclamou o 1.º de Maio como feriado oficial e consagrou-o como «Dia do Trabalhador». Nos anos seguintes, as práticas primaveris parecem ter sido postas em segundo plano, para se favorecer a celebração de um 1.º de Maio militante e declaradamente político. Ocorreram, então, diversas manifestações nas principais cidades do Algarve e actos comemorativos organizados por sindicatos em toda a região, que incluíam actividades desportivas e culturais, e festividades populares.

Após alguns anos de um certo «adormecimento» das práticas associadas aos festejos primaveris, estas foram sendo reavivadas a partir da década de 80 por associações locais, juntas de freguesia ou autarquias. No sotavento algarvio, a construção de bonecos, que durante o Estado Novo era feita de forma espontânea e considerada marginal ou desmazelada pelas instituições de poder, e que no pós-25 de Abril estava praticamente extinta, foi reavivada por uma associação desportiva, o Futebol Clube de Bias em 1984, recuperando, conscientemente, práticas de sociabilidade e elementos discursivos que conjugam as vertentes política e primaveril do 1.º de Maio algarvio. O clube de futebol convidou as pessoas a fazerem os seus bonecos e a colocá-los ao longo da Estrada Nacional 125 (EN125), no troço localizado entre Bias e Alfandanga, na freguesia de Moncarapacho, Olhão, acompanhados por cartazes com versos de crítica social. A partir dos anos 2000, outras localidades (como Fuzeta, Estoi, Montenegro, Santa Catarina da Fonte do Bispo, Vila Nova de Cacela, Alte e Manta Rota, entre outras) decidiram replicar esta prática e adaptá-la aos seus contextos.

Mais recentemente, as festas dos maios sofrem um processo de institucionalização que supõe o apoio à sua realização por parte de entidades estatais do poder local. Por um lado, esta dinâmica poderá explicar-se através da presença de um Estado social mais forte que, imediatamente após o 25 de Abril, terá permitido melhorias gerais nas condições de vida da população, incluindo o apoio ao associativismo local. 6Por outro lado, é também neste tempo que a agricultura perde a sua hegemonia sobre a utilização do território algarvio. A partir deste momento, o espaço rural ganha novas funções, abraçando actividades como a produção agrícola intensiva, a silvicultura, a protecção ambiental e a conservação da natureza, mas também actividades associadas ao turismo, ao desporto, ao lazer e ao património. Por outras palavras, o espaço rural do Algarve encontra-se, ainda hoje, numa fase de transição, marcada pelo declínio da hegemonia da agricultura e pelo surgimento do espaço rural como espaço de consumo, orientado sobretudo para o turismo e para o lazer. 7

O espaço rural do Algarve encontra-se, ainda hoje, numa fase de transição, marcada pelo declínio da hegemonia da agricultura e pelo surgimento do espaço rural como espaço de consumo, orientado sobretudo para o turismo e para o lazer.

«Democracia é não haver nem ricos nem pobres»

Nos últimos dois anos, devido ao contexto pandémico, a celebração dos Maios foi cancelada. Apesar disso, algumas pessoas decidiram construir os seus bonecos e colocá-los na via pública, com os seus dizeres críticos da situação política actual.

Conceição Morais, natural de Estoi, já constrói os bonecos há dezenas de anos. Costuma colocá-los em diversos pontos do centro da localidade, bem como à porta da sua casa. Tem cerca de dez bonecos que vai refazendo a cada ano, com novas roupagens e novos dizeres. Este ano, Conceição colocou um par de maios, representando um casal idoso, em frente à sua casa. A crítica incidia sobre o contexto político actual. A seu ver, a situação deveria, hoje, ser bem diferente: «O 25 de Abril trouxe-nos uma esperança.» No entanto, «já passaram 47 anos e continua-se a ver as desigualdades.» Por isso decidiu escrever nos seus cartazes frases como estas: «Chamam a isto de democracia/Mas é pura hipocrisia/Os factos estão provados/A corja de ladrões/roubam aos milhões/e nunca serão condenados.» E, em entrevista, remata: «Há uma grande disparidade de riqueza. O Estado tira tudo àqueles que menos têm, aos grandes não tira.» Para si, «Democracia é não haver nem ricos nem pobres».

A sua motivação para querer participar na festa tem como base o grande prazer que sente a expressar as suas ideias a cada ano que passa, através dos dizeres e da construção dos bonecos. Testemunha também com agrado a reacção das pessoas que vêem os seus maios e que se identificam com o que escreve. Mas, sobretudo, Conceição afirma que participa nas festas porque «amo as tradições e como amo profundamente a minha aldeia, o lugar onde estou, comecei a fazer e aquilo dá-me um certo gozo».

As tradições, tantas vezes olhadas como costumes imutáveis, cristalizados e virados para o passado, traduzem-se, afinal, como no caso das festas dos maios, em práticas em permanente relação com a realidade que as rodeia: são dinâmicas, sofrem contaminações de outras práticas, e dependem do contexto de onde emergem. Nesse sentido, estas práticas são inventadas constantemente, relacionando-se, mais do que com o passado, com o momento presente em que decorrem e com os desejos que as pessoas têm de futuro.


Artigo publicado no JornalMapa, edição #31, Julho|Setembro 2021.




Fonte: Jornalmapa.pt