Fevereiro 1, 2021
Do Jornal Mapa
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No dia 9 de janeiro ocorreu o que os pescadores, ambientalistas e setubalenses temem e contra o qual lutam: a destruição do habitat do rio Sado. A pradaria marinha localizada na zona de Eurominas, no estuário do Sado, acabou soterrada na sequência do rebentamento de uma parede do tanque de contenção de águas da dragagem, provocando uma escorrência de sedimentos sobre a praia onde se encontra a pradaria. Esta dragagem destina-se a aprofundar o terminal Teporset, concessionado às empresas Secil e Cimpor para transporte de granéis sólidos, aumentando assim a acessibilidade ao porto de Setúbal. Uma dragagem que não careceu de estudo de impacto ambiental 1.

O episódio vem sublinhar os receios fundados dos protestos contra as dragagens iniciadas em dezembro de 2019, após um Estudo de Impacto Ambiental tecnicamente «favorável condicional», confirmando ser um caminho para o desastre. A organização Ocean Alive, que trabalha para defender as pradarias marinhas do Sado, teme que a permanência das lamas nas pradarias destrua a maternidade de vida marinha.

A Teporset, empresa concessionária do terminal portuário adjacente ao local, referiu em comunicado prever que «a ação das marés, em conjunto com condições atmosféricas favoráveis, promova a movimentação natural destes sedimentos, regularizando progressivamente a situação», prometendo ainda, sem qualquer especificação, «tomar as medidas consideradas apropriadas para acelerar o processo de recuperação natural do ecossistema, se tal se revelar necessário».

SOS Sado

Os trabalhos de dragagem em nome da Secil aumentam o impacto da cimenteira, como previu o movimento SOS Sado, que teme o efeito destas lamas no sapal 2 da praia local, que não preocupa o Instituto de Conservação da Natureza e as Florestas (ICNF) por não considerar as lamas poluentes. No entanto, de acordo com a SOS Sado, o material dragado é «proveniente de uma zona do estuário onde vários estudos ao longo dos últimos vinte anos apontam presença de vários poluentes tóxicos em quantidades preocupantes e depositado num terminal que serve há vários anos de local de armazenamento e transporte de matérias como cimento, clínquer e, numa vida anterior, produtos metalúrgicos, [e que] é derramado em grande quantidade numa zona integrante da Reserva Natural do Estuário do Sado, soterrando fauna e flora ali presentes».

O ICNF só se deslocou ao local nos dias 18 e 20 de janeiro, depois de a Associação Setúbal, Ambiente & Cidadania, em conjunto com a cooperativa Ocean Alive, terem denunciado a situação. Aí, confirmou o derramamento de lamas devido às más condições da bacia de retenção dos sedimentos da dragagem, construída em Zona de Proteção Especial (ZPE) e perto da área invadida pelas lamas, também uma Zona Especial de Conservação e ZPE do Estuário do Sado.

A resistência por parte da população ao projecto das dragagens do Sado tem sido constante e diversa, defendendo a economia local, a preservação de espécies e habitat, a nostalgia de voltar a ver o Sado como uma casa para golfinhos, e continuando a irreverência sadina na luta de classes 3. Em fevereiro de 2019 uma assembleia popular alertou para os problemas do projecto, com a participação de pescadores, especialistas ambientais, conservacionistas, movimentos sociais e populares. Mais do que uma luta ambiental, as implicações nocivas desta estrutura levam a uma luta social local, como testemunhado pela antropóloga Vanessa Amorim que tem vindo a abordar as comunidades piscatórias de Setúbal 4.


Texto de João Vinagre
Fotos de SOS Sado [https://www.facebook.com/sossado/]




Fonte: Jornalmapa.pt