Março 8, 2022
Do Passa Palavra
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Por João Bernardo

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A operação ideológica fundamental do fascismo consiste na conversão da luta entre classes numa luta entre nações.

Entre 1908 e 1910, o político e intelectual nacionalista Enrico Corradini começou a apresentar o seu país como uma «nação proletária». «Há nações que estão numa situação de inferioridade relativamente a outras, tal como há classes que estão numa situação de inferioridade relativamente a outras classes», afirmou ele em Outubro de 1910. «A Itália é uma nação proletária; basta a emigração para o demonstrar. A Itália é a proletária do mundo». Nesta perspectiva, as classes ficavam diluídas na entidade nacional. «O nacionalismo é, em suma, a reafirmação da solidariedade nacional contra a luta de classes», proclamou Corradini em 1911; «é o esforço para repor as classes no seu lugar e para as subordinar novamente aos objectivos da nação». Poucos anos antes, no Japão, o socialista Kita Ikki encetara uma evolução convergente, apoiando a guerra de 1904-1905 contra a Rússia e estabelecendo uma analogia entre o confronto de classes no interior das fronteiras nacionais e a disputa entre Estados na arena mundial. A partir de então Kita evoluiu para posições nacionalistas cada vez mais extremas. «Tal como no interior de uma nação se trava a luta de classes pelo reajuste das desigualdades, também a guerra entre nações por uma causa nobre há-de resolver as actuais desigualdades injustas», escreveu ele num livro publicado em 1923. «Os socialistas ocidentais entram em contradição ao admitirem que o proletariado tem o direito de recorrer à luta de classes dentro do país e ao condenarem simultaneamente como militarismo e agressão a guerra travada pelas nações proletárias».

Gerado simultaneamente na Itália e no Japão, desde a sua génese o fascismo é universal, abrangendo todo o mundo capitalista, independentemente de geografias ou tradições culturais.

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O postulado fundamental do fascismo passou a caracterizar a esquerda após a segunda guerra mundial.

Os fascismos foram derrotados militarmente em 1945, mas a partir de então o seu postulado ideológico fundamental, transformando a luta entre classes numa luta entre nações, tornou-se hegemónico na esquerda. O terceiro-mundismo, assente na dicotomia de Centro e Periferia, limitou-se a actualizar a noção de uma luta das «nações proletárias» contra as «nações plutocráticas», e pensadores e políticos de esquerda ou mesmo de extrema-esquerda empregaram indiferentemente a terminologia de nações colonizadas e de nações proletárias, como se os conceitos não tivessem consequências. Mas tinham-nas. No interior das «nações proletárias» as classes sociais ficaram diluídas, e as elites do terceiro mundo puderam considerar-se, à semelhança do que haviam feito as elites fascistas, como representantes de toda a população numa comunidade nacional.

Como foi possível que uma base ideológica fundamental do fascismo açambarcasse a esquerda?

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A revolução russa não foi russa, foi europeia.

No Natal de 1914, ainda não haviam decorrido cinco meses desde o início da guerra mundial, soldados britânicos e alemães tomaram a iniciativa de estabelecer uma trégua para festejarem a data em conjunto, e entre franceses e alemães estas fraternizações reproduziram-se durante o Inverno de 1915-1916. O movimento de hostilidade à guerra avolumou-se e consolidou-se, até que entre Abril e Setembro de 1917 uma onda de revolta se propagou nas trincheiras francesas, atingindo o auge em Maio e na primeira metade de Junho. Durante estas seis semanas amotinou-se a maior parte do exército francês, hasteando bandeiras vermelhas e ameaçando marchar sobre a capital para derrubar o governo, e também na frente de Salónica as tropas francesas se sublevaram em Julho de 1917. Ao mesmo tempo as deserções eram cada vez mais numerosas, a ponto de um relatório do serviço de informações do exército referir, em Julho de 1917, a presença de dez mil desertores só na região parisiense. Embora com menores proporções, a indisciplina alastrou ao sector britânico e em Setembro de 1917 ocorreu um motim nas tropas australianas e neozelandesas. Também no Corpo Expedicionário Português, dependente do comando britânico, sucederam-se insubordinações e revoltas. E nas tropas italianas contou-se mais de um milhão de deserções. Aliás, antecipando-se aos confrontos nos campos de batalha, os trabalhadores italianos haviam desencadeado em Junho de 1914 um enorme movimento antimilitarista, com que procuraram garantir a manutenção da neutralidade do país, declarando uma greve geral que em alguns lugares se abeirou da insurreição. No lado oposto, a marinha alemã amotinou-se no Verão de 1917.

A agitação entre os soldados era inseparável da agitação entre os trabalhadores. De 1915 a 1916 o número de dias de trabalho perdidos por greve na Alemanha aumentou 500%, e 700% de 1916 a 1917, quando atingiu dois milhões. As greves de Abril de 1917 em Berlim mobilizaram entre 200.000 e 300.000 trabalhadores. Na mesma altura uma vaga de greves agitou o operariado do Império Austro-Húngaro, e os motins provocados pela fome tornaram-se cada vez mais frequentes em Budapeste e em Viena. No lado da Entente, de 1915 a 1916 o número de movimentos grevistas em França subiu 220% e a quantidade de participantes aumentou mais de 340%, sendo as cifras correspondentes entre 1916 e 1917 de cerca de 120% e de 610%. Entretanto o rendimento do trabalho diminuía consideravelmente nas fábricas francesas de material de guerra. Mais importante ainda foi o novo carácter assumido pela organização do movimento operário, pois na Grã-Bretanha as greves de 1916 e 1917 suscitaram a expansão e a generalização dos shop stewards, membros dos sindicatos eleitos pelos trabalhadores no quadro das unidades de produção e que defendiam as posições da base operária, opondo-se frequentemente às direcções sindicais. E na Itália a insatisfação generalizou-se em 1917 entre operários e camponeses, culminando em Agosto numa revolta de cinco dias em Turim, reprimida com uma violência tal que se contaram cerca de cinquenta mortos e duzentos feridos e mais de oito centenas de presos. Foi então que começaram a aparecer no norte do país as comissões internas de fábrica, cujas implicações só se iriam manifestar plenamente durante as grandes greves de Agosto e Setembro de 1919.

Assim, aquela revolução a que geralmente se chama russa foi uma componente inseparável do processo revolucionário europeu. Já em meados de 1915 as autoridades militares czaristas estavam plenamente conscientes da desmoralização das tropas e das proporções assumidas pela deserção, e em Setembro desse ano soldados reservistas juntaram-se aos protestos populares. No final de 1915 os marinheiros amotinaram-se em dois navios de guerra e em Abril de 1916 os soldados de quatro regimentos russos estabeleceram uma trégua com tropas do Império Austro-Húngaro para festejarem em conjunto a Páscoa ortodoxa. Entretanto, em Janeiro desse ano mais de 10.000 operários haviam entrado em greve numa base naval do Mar Negro, um movimento que depressa atravessou o país, paralisando 45.000 trabalhadores do porto de Petrogrado, e calcula-se que em Outubro de 1916 cerca de 200.000 operários estivessem a participar em 177 greves de carácter político. A situação agravou-se de então em diante, culminando na revolução iniciada em Fevereiro de 1917, e de nada valia aos novos governantes decretar a reforma agrária sem pôr termo à guerra, porque os soldados, que na esmagadora maioria eram camponeses, queriam regressar às suas aldeias, repartir e ocupar as terras dos grandes proprietários e começar a cultivá-las. A questão da paz e a questão agrária estavam indissoluvelmente ligadas.

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Lenin transformou uma revolução internacional numa operação geopolítica nacional.

A 3 de Março de 1918 o governo bolchevista assinou com as Potências Centrais o Tratado de Brest-Litovsk, que não só  reconheceu a ocupação de uma parte da Rússia pelo exército alemão, como lhe entregou o controle absoluto sobre a população desses territórios. Isto significa que, através da repressão e das chacinas, os generais alemães poderiam destruir a obra de renovação social que os operários e os camponeses russos ali haviam encetado. Ora, a capitulação dos bolchevistas perante as imposições do militarismo imperial germânico desnaturou um processo revolucionário que até então fora exclusivamente internacionalista e — o que tornava essa capitulação muitíssimo mais grave — continuava a ser internacionalista, porque a agitação revolucionária avolumava-se nas Potências Centrais. Em Janeiro de 1918, poucos dias depois de ter terminado uma vaga de greves que, reivindicando a paz imediata, paralisara Viena e Budapeste, começou em Berlim e estendeu-se a meia centena de cidades alemãs uma série de greves que mobilizou várias centenas de milhares de operários e foi acompanhada por manifestações contra a guerra. Tal como sucedera na Entente, em ambos os países esta agitação operária deu lugar à criação de conselhos, assembleias de base que não alienavam o controle exercido sobre o processo de luta e podiam em qualquer momento revocar o mandato dos delegados eleitos. E na Hungria, em Maio de 1918, dois mil soldados insurreccionaram-se e recusaram-se a seguir para a frente de combate, recebendo o apoio dos trabalhadores das minas de carvão vizinhas. A agitação era incessante e em Viena e Budapeste, em Junho de 1918, ocorreram greves violentas e manifestações contra a fome, ao mesmo tempo que progrediam as deserções no exército austro-húngaro. Em Outubro desse ano, na frente do Piave, partes de duas divisões austro-húngaras amotinaram-se e negaram-se a contra-atacar. Entretanto, noutra das Potências Centrais, a Bulgária, a linha de frente desintegrara-se completamente em Setembro de 1918, quando os soldados se recusaram em massa a prosseguir o combate. E nas batalhas do Verão e do Outono desse ano sucedeu que milhares de soldados alemães se entregassem como prisioneiros sem oferecer resistência ou sequer disparar um tiro. Calcula-se que o número de desertores atingisse então na Alemanha mais de setecentos e cinquenta mil. Por fim, a revolta dos marinheiros da armada alemã do Báltico, no final de Outubro de 1918, estendeu-se rapidamente em Novembro por todo o país e sublevou os restantes soldados e os trabalhadores da indústria, dando início à revolução dos conselhos, que ressurgiu em repetidas ocasiões nos anos seguintes e deixou na classe trabalhadora marcas muito duradouras.

Em Brest-Litovsk o leninismo desligara-se do processo revolucionário internacional que lhe havia permitido o triunfo. Não são as causas desta capitulação que aqui me importam, mas as suas consequências.

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Toda a estratégia da Terceira Internacional consistiu em subordinar a luta de classes mundial à defesa da pátria socialista.

Em 1919 Lenin escreveu no primeiro número do jornal da recém-fundada Internacional Comunista: «A nova terceira “Associação Internacional dos Trabalhadores” já começou a coincidir em certa medida com a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas». De então em diante, a evolução do movimento comunista fez com que a Terceira Internacional coincidisse com a União Soviética já não «em certa medida», mas completamente. Ao mesmo tempo, enquanto expressão e condição deste processo, ocorreram notáveis alterações semânticas, no centro das quais a palavra internacionalismo passou a significar o seu exacto contrário, até que em 1935 Georgi Dimitrov, no seu relatório ao 7º Congresso do Komintern, declarou que «o internacionalismo proletário deve, por assim dizer, “aclimatar-se” em cada país, para se enraizar profundamente na terra natal». O internacionalismo fora transformado numa soma de nacionalismos, e a presidir à pirâmide estava a pátria do socialismo. Em vez de ser um quadro de solidariedade entre lutas, a Terceira Internacional foi uma correia de transmissão de directivas que subordinavam ao Kremlin os comités centrais dos partidos comunistas nacionais. E se para um lado se veiculavam decisões, em sentido inverso veiculavam-se informações. Assim, dissimuladamente, a Terceira Internacional converteu-se num vastíssimo aparelho de espionagem, o que explica que o movimento lançado pelo senador McCarthy conseguisse destruir tão rápida e definitivamente a esquerda comunista nos Estados Unidos. Onde antes havia confrontos entre classes, ancorados na sociedade, passaram a ser suficientes operações de polícia, resumidas a casos individuais.

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Na Guerra Fria a luta contra o imperialismo converteu-se numa oposição geopolítica.

Neste novo quadro ideológico da esquerda, reduzido a nações e agrupamentos de nações, o imperialismo deixou de ser entendido como um movimento expansivo do capital para se converter num sinónimo de Estados Unidos, por vezes numa acepção quase racista. Em vez de ser a dinâmica económica a explicar a supremacia política, passou a considerar-se a força política e militar como causa do predomínio económico, e deste modo a luta de classes travada no plano da economia foi substituída por um confronto geopolítico em que de um lado estava o bloco socialista e do outro lado estava o imperialismo americano. Era uma vez mais a ideologia fascista que triunfava, porque a esfera soviética apresentava-se como bastião das «nações proletárias», enquanto as «nações plutocráticas» convergiam em redor do imperialismo americano.

E assim ficou absolvido o imperialismo dos capitalismos de Estado governados por partidos comunistas.

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A dissolução da União Soviética facilitou a transformação da geopolítica em movimentos identitários.

A dissolução da União Soviética teve dois efeitos paralelos. Por um lado, já que a transnacionalização do capital tornara as fronteiras em grande medida obsoletas, as noções ideológicas do fascismo adquiriram um novo alento e as «nações proletárias» converteram-se em identidades marginalizadas, enquanto as «nações plutocráticas» passaram a servir de modelo a identidades consideradas opressoras. Pouco importa aqui o critério das identidades, quer seja a cor da pele e o formato do nariz ou o sexo ou as preferências sexuais ou mesmo a ausência de preferências. O que importa é que se assumam como identidades, tal como uma nação se define pelo simples facto de se assumir como nação. Iniciou-se então uma competição de vitimizações, e a identidade que demonstrar ter sido mais vítima é equiparada a uma «nação proletária», assim como, reciprocamente, a identidade considerada mais beneficiada é equiparada a uma «nação plutocrática». Ora, neste contexto a geopolítica não desapareceu, porque as identidades beneficiadas são assimiladas ao tão odiado eurocentrismo. E, embora esta nova geografia política já não diga respeito a nações, mas a identidades supranacionais, apesar deste deslizamento terminológico a semântica fundamental mantém-se, o critério e o objectivo dos confrontos permanece o mesmo, não a abolição das exclusões, mas a conversão dos excluídos em excludentes.

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A dissolução da União Soviética mostrou que a pátria socialista se convertera já na pátria russa.

Por outro lado, a dissolução da União Soviética tornou explícito que a pátria do socialismo já há muito não era senão a velha pátria russa. O primeiro-secretário do Partido Comunista da Federação Russa, Gennady Zyuganov, sustenta que no final da guerra Stalin estaria decidido a abandonar as referências ao marxismo-leninismo e a adoptar oficialmente uma ideologia baseada no patriotismo soviético. Com efeito, quando a União Soviética começou a participar na segunda guerra mundial, designada como Grande Guerra Patriótica, as referências à tradição revolucionária, mesmo sendo apenas superficiais, foram substituídas por símbolos mais poderosos, evocativos dos mitos religiosos e de nebulosas grandezas nacionais. Zyuganov lastima que a morte tivesse impedido Stalin de levar a cabo a remodelação estritamente nacionalista da entidade soviética, mas essa aspiração persistiu no interior dos serviços secretos, o KGB, onde a maioria dos quadros superiores considerava o comunismo como uma fase transitória, rumo à afirmação da Rússia enquanto potência mundial. Convém não esquecer que Vladimir Putin iniciou em 1975 uma carreira promissora nos serviços secretos; e o Partido Comunista da Federação Russa, o segundo maior do país, está na origem imediata da invasão da Ucrânia, porque foi ele que apresentou no parlamento a proposta de reconhecimento da independência de Donetsk e de Luhansk.

Este longo percurso, desde as «nações proletárias» até à invasão da Ucrânia, é um de profundis pela esquerda.

A fotografia de destaque é de Diego Herrera, a outra é de Sergey Bobok.




Fonte: Passapalavra.info