Maio 13, 2022
Do Passa Palavra
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Por Charles Júnior

Ou o ontem e o depois dos trabalhos do 13 de Maio – NEP, um ensaio crítico

Os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha, e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado”.
(Karl Marx. O 18 Brumário de Louis Bonaparte)

Após a expulsão da FASE [1], nossos heróis buscaram se organizaram para atender a demanda que continuava a bater à porta. No princípio, os trabalhos do 13 de Maio – NEP eram organizados em 3 núcleos: trabalho direto, trabalho de formação política e trabalho de produção de recursos pedagógicos [2]. Além desses, foi criado o de análise de conjuntura. Todos subordinados ao trabalho direto [3]. Vamos a eles.

Trabalho Direto

O trabalho direto, ou trabalho de base, era a ação central do 13 de Maio – NEP. Todos os outros eram organizados para atender a sua demanda. “Consistia em levar àqueles movimentos a experiência que se tinha com a organização de atividades de base, construção de boletins, a preparação de assembleias e outras atividades”.

A principal inserção era no Movimento de Oposição dos Metalúrgicos de São Paulo – MOMSP [4]. Além dele, os militantes se envolviam em oposições sindicais, movimentos populares, na luta por moradia, nos bairros, etc. Resumindo: o bom e velho trabalho de base.

Trabalho de formação política

Inicialmente era construído a partir das necessidades observadas no trabalho direto, ou seja, a partir do dia a dia do trabalho de base.

Um dos depoimentos colhidos por Cyntia relata bem como era esse trabalho.

[…] não posso dizer que aquele era um curso acabado e tal. […] Não dava a impressão de ser um programa pronto e acabado e tal. Dava a impressão de ser algo em construção, dentro do qual pinçava, de alguma forma, escolhia alguns temas e dizia: “olha, o que é que um trabalhador da Pastoral Operária precisa conhecer para poder pensar melhor o mundo do trabalho em que ele está inserido e poder agir com uma certa coerência?” Então digamos, assim, era uma sequência de temas, que depois boa parte deles vão estar presentes no [curso] Questões de Sindicalismo. Nós vamos encontrar eles nos primeiros dias do [curso] Economia Política e tal, mas o esforço era justamente esse: que tipo de temas eles precisam conhecer, dominar para fazer bem o trabalho de militância?
(GENNARI, 2007.Citado por CYNTIA, 2008 [grifos nossos]).

Um curso construído à partir do conhecimento teórico dos militantes, da prática e das necessidades dos participantes, ambos na luta de classes.

Trabalho de produção de recursos pedagógicos

Produção de cartilhas, manuais, recursos audiovisuais, etc.

O trabalho não dito – Boletim Semanal da Crítica da Economia

Após nosso estudo da tese de Cyntia, nos espantou a ínfima exposição/pesquisa sobre o Boletim Semanal de Crítica da Economia. Hoje, nos parece que o boletim é ponto áureo provindo do 13 de Maio – NEP, mantendo sua constante análise de conjuntura e elaboração teórica, ainda que talvez não seja reconhecido assim.

A Crítica da Economia consistia na elaboração de um boletim de análise de conjuntura, em seguida, organizava-se o debate com os integrantes do NEP e convidados. Acontecia semanalmente na sede da entidade. Nasceu em 1987 e em 5 anos já contava com 600 assinaturas. Era enviado, inicialmente, por carta para todas as regiões do país e hoje em dia pode ser acessado pelo site. Atualmente, detém milhares de acessos a cada publicação, é enviado por e-mail, para os assinantes, postado no site e são produzidas lives nas redes sociais com análises de conjuntura.

Caracterizamos o boletim como trabalho formulação teórica.

Os doze, digo, quatro trabalhos de Hércules

Mais sobre trabalho direto

… [o sistema] precisa ser derrubado. Mas, para isso, o proletariado precisa de um alto grau de educação política, de consciência de classe e de organização. Todas essas condições não podem ser adquiridas em brochuras e panfletos [quiça em cursos] mas apenas na escola política viva, na luta e pela luta, no andamento progressivo da revolução.
(Rosa Luxemburgo. Greve de massas, Partido e sindicatos)

O que antes eram apenas relatos embriagados dos militantes sobre o “trabalho direto”, após o estudo do trabalho de Cyntia, se entificou neste texto. Ao que tudo indica, algumas minúcias (nunca contadas) da transformação que se deu no NEP, ou seja, a autonomização da “educação política” e a exclusão, paulatina, é claro, do “trabalho direto”, são a pedra de toque para entender o que foi e o que se tornou nos dias de hoje o 13 de Maio – NEP.

A locomotiva

“No princípio era o Verbo”
(Fausto. Goehte)

No princípio dos trabalhos do 13 de Maio, a lenta retomada da luta dos trabalhadores no Brasil se desenvolvia há quase 10 anos e chegava ao seu ápice com a greve de milhões no ABC paulista.

“O caráter massivo e pacífico das greves deixou perplexa a ditadura militar em sua fase terminal. Sem ter como reprimir a ofensiva operária iniciada em 12 de maio da Scania (e que logo se alastrou-se por todo país), o regime em crise assistia sua lei antigreve ser revogada pela prática de uma classe que, finalmente, recobrava a sua capacidade de luta e projetava nacionalmente a trajetória de Lula.\… a própria esquerda deparou com um vigoroso movimento de massas espontâneo que, inicialmente, era hostil a todos os partidos políticos existentes, e cuja liderança se declarava sem “ideologia”.
(Frederico, 1991) [5]

Com exceção do caráter pacífico [6] das greves do ABC, o caráter massivo nos remete a greve de massas, exposta por Rosa [7] em seu brilhante ensaio de 1906, e “as revoltas espontâneas das massas”, expostas por Lenin em Que Fazer?.

Simultaneamente, as lutas pariram organizações de trabalhadores inseridas no trabalho de base. Uma delas foi o 13 de Maio – NEP.

… até a fundação da CUT, essas linhas não estavam muito definidas, era só o trabalho de base. É evidente que já nesse período se produziam alguns materiais, mas não tinha uma linha muito clara em relação a isso não, mas se produzia […] Os cursos tinham vinculação com o trabalho de base, tanto que o conteúdo vinha da necessidade do trabalho de base […] eram todos em função de uma necessidade de trabalho e de explicar as Articulações Sindicais no Brasil […] pra ir formando uma concepção de sindicato. Isso tudo era necessidade da base.
(Manoel Del Rio, 2007. entrevista em Cyntia, 2008) [8].

Greve de massas na veia, pião e piquete na rua! Como cantou Chico Buarque: “A brasa da fornalha/ O guincho do esmeril/ Gente que carrega a tralha/ Ai, essa tralha imensa/ Chamada Brasil/ Samba samba São Bernardo/ Sanca São Caetano/ Santa santo André/ Dia-a-dia diadema/ Quando for, me chame/ Pra tomar um mé” [9].

E nesse samba do criolo doido com greve por todos os lados surgiu o 13 de maio – NEP, com suas prioridades, claro.

”… o 13 e a FASE sempre tiveram um trabalho de disputar as eleições sindicais, de disputar as máquinas sindicais. Afirma que em nenhum momento, o 13 fez essa discussão pra se posicionar: ‘Não vamos disputar os sindicatos, vamos disputar as organizações por local de trabalho, vamos fazer um paralelismo sindical’. Nada disso. Ao contrário. A maior parte dos trabalhos que a gente fez foi disputando máquinas sindicais, foi ganhando sindicatos“.
(IASI, 2007, entrevista em Cyntia, 2008) [10]

Os pró-trabalho de formação

Com o caminhar da luta, algumas peças foram se solidificando e trilhando caminhos diferentes. O trabalho de formação do Núcleo migrou de ponto acessório do trabalho direto, para única forma de atuação do núcleo [11].

Nas palavras de um antigo militante observamos o entendimento que o papel da formação se mesclava com o de agitação e organização. Para Iasi (2004),

“ainda que divulgadora de valores militantes, a crítica anti-capitalista raramente ultrapassava a crítica moral, fazendo com que a formação assumisse uma forma mista de agitação e tarefa organizativa, na verdade aglutinadora mais que organizativa” [12] [13]

Surge o 5º elemento: O programa de formação de monitores

Existe um abismo entre a ideia e a realidade.
(Pzerwoski) [14]

Em torno de 1983, o trabalho de oposições já passava a ser desenvolvido pela CUT, que estava tomado corpo, e grande parte da equipe do 13 de Maio se incorpora a Secretaria de formação da CUT estadual paulista, emplacando, inclusive, o 1o secretário de formação: Humberto Bodra (Tumolo, 2002).

Após a batalha interna na central, inclusive com criação de estruturas por fora e convênios com a social democracia alemã, a nova gestão da CUT SP, em 1986, excluiu nossos heróis e seus trabalhos do Olimpo.

Com a crescente demanda por formação, em 1990, surge o Programa de Formação de Monitores. Quer queira, quer não, esta foi a forma que se expressou a transformação para a formação como carro chefe do 13 de Maio, ou seja, a demanda por cursos ia aumentando e resolveu-se formar monitores para dar cursos mundo a fora. Assim, mais interessados foram se juntando ao grupo inicial, mais militantes focados na formação para lutar melhor. A reboque desse processo, veio a necessidade de desenvolver roteiros, cursos, programas, etc. compactados para que fossem repassados os conteúdos comuns [15].

A transição que ocorreu no núcleo se deu pelo desenvolvimento da atividade de formação, como uma forma de acertar o rumo, uma resposta para a pergunta de para onde ir.

O feitiço de Juno ou A Cisão

Tudo cresce, se desenvolve, chega ao ápice e… ou muda ou morre. Com a perspectiva de “ou muda ou morre”, o 13 de Maio tomou seu rumo.

Iasi conta que:

Foi muito polêmico, o Léo foi uma espécie de mediador nisso e eu, Scapi, Paulinho trabalhávamos com a ideia de que a identidade própria do 13 era a da formação. Quer dizer, uma vez criada a CUT, onde a gente poderia auxiliar esse movimento e continuar sendo úteis era com o programa de formação. Era onde a gente tinha acumulado, era o que tinha dado certo. Porque na verdade, se você pega o trabalho [junto] das oposições, verifica que o trabalho direto foi caindo e o trabalho da formação foi crescendo. A gente tava no Brasil inteiro com uma Equipe de formação, dando conta, fazendo monitores. Então, era por ali que poderia crescer o trabalho e justificar a nossa existência. O Manoel e o Raimundo falaram: “Não! Temos que manter o trabalho direto!” Durante um tempo isso ficou um pouco um acordo. Tudo bem, então vamos investir mais no trabalho de formação. Tanto é que as contratações todas foram para o trabalho de formação. Vamos manter algumas pessoas acompanhando o trabalho da Oposição Metalúrgica de São Paulo, mas teve um momento que era praticamente o Manoel e o Raimundo que estavam deslocados para isso. Se você acompanhar pelos relatórios, desaparece a prestação de contas desse trabalho. Por quê? Porque o auge da Oposição Sindical (montagem de chapas, junta todo mundo, disputa) tinha acabado, tinha passado. A gente nem sequer conseguia montar chapa… Essa foi uma discussão doída e bastante polêmica. E a opção, na prática, ainda que não tivesse nenhuma decisão burocrática dizendo “fecha isso, vamos fazer só formação”, foi priorizar a formação, que foi o que acabou sendo feito.
(IASI, 2007, entrevista em Cyntia, 2008) [16]

“Um dos defensores da priorização do trabalho direto foi Manoel, o “Mané”. Scapi e Iasi lembram que ele dizia: “Isso é resultado de ter botado um bando de professores na Equipe. Essas pessoas estão decidindo que a Entidade tem que fazer tal coisa porque são eles é que fazem essas coisas” (Cyntia, 2008).

… houve uma derrota dos movimentos populares [17], houve uma dificuldade maior também no trabalho de base. Aí, como tinha ganhado um corpo forte esse negócio da formação, teve a discussão: uns achavam que o 13 só devia fazer formação; eu achava que devia fazer as duas coisas; mas a maioria era da área da formação, da área acadêmica. Eram os “acadêmicos”, eu falava.
… a “morte” do 13. Eu falo que o 13 é um “defunto insepulto”, porque foi havendo esse descolamento, esse academicismo. Aí veio aquele negócio dos monitores. E foi se aprofundando nesse academicismo […] Não é academicismo [corrige], é assumir aquela concepção metodológica do cientista separado do objeto.
… quem tinha uma prática muito interessante dentro do 13 era o Humberto Bodra. Ele era um professor, mas estava sempre com o pé na prática. […] Greve ele apoiava; ocupação nos bairros [também]. É claro que, no final, ele já tinha se descolado muito, porque estava viajando muito. Mas o Humberto tinha um senso de teoria e prática muito forte.
… não foi uma cisão assim… estamos rachando. Não houve isso. Houve um acerto ali. Eu abri mão da discussão, [pois] nós estávamos numa crise terrível. O Léo [Birk] abriu mão e eu também desisti de brigar, nem coloquei a briga pra dentro. Mas acho que foi a “morte” do 13 que veio por aí. Claro que o outro lado vai dizer que não morreu. Mas hoje não tem influência nenhuma. Tem os cursos aí que dá e tal [mas], ninguém fala mais do 13. Está “morto”. Não está nas lutas principais de sem-teto, de sem-terra, nada… No ápice da luta de classes, ele não está dentro. Pelo menos eu não vejo.
(MANOEL, entrevista em Cyntia, 2008 [grifos nossos]) [18]

Junto ao fim do trabalho de base, o editor e os debates dos boletins também se afastaram.

Após a cisão, o núcleo toma o rumo acordado e se molda a partir da prática de formação: oferecer cursos e formar [19] monitores para munir os movimentos (sindical, social e estudantil).

Para nossos heróis do Olimpo o parto foi doloroso e demorado, caminhos estreitos e todo mundo (que concordara) segurando a mão de todo mundo:

A transição, planejada para durar três anos, durou aproximadamente uns dez. Uma data que marca o início dessa passagem é julho de 1992, quando o recém-criado Fórum Nacional de Monitores (1988), mais conhecido como FNM ou ê, lançava seu Boletim nº 1. [20]

Tabelando as reflexões

Atividade/ período antes hoje
Cursos algo em construção Roteiros
Cursos, cursões e curso monitores Militantes inseridos no trabalho de base acadêmicos [21] dedicados a formação
Trabalho de base Parte central excluída
Análise de conjuntura Debates semanais com a militância do 13 e convidados Se autonomizou [22]
Produção de materiais Elaboração própria, inclusive circular informativa Não há notícias [23]
Público majoritário Operários, funcionários públicos, professores, movimentos sociais, etc. [24] Estudantes, funcionários públicos [25]

Os doze, digo, quatro trabalhos de Hércules

Da Composição

Somos o que fazemos ou somos o que achamos ser? Como dito acima, além de nossa prática, trazemos conosco o legado de quem construiu a história da luta de classes, ou seja, o novo não é tão novo assim e nós estamos aí, com uma carga viral alta, com o passado pesando em nossas costas e mentes. O que cabe a nós é encontrar o antivírus que nos tire desse deserto do real em que vivemos.

Voltando para o 13 de Maio-NEP, observamos que a própria realidade foi dando as peças que pautaram a mudança em sua composição, ou seja, determinou o seu hoje. Ou seja, quanto mais “formadores” iam entrando, mais rico era o debate e a prática de formação. Assim, desde o conteúdo dos cursos até os debates internos foram se tornando a atividade principal do núcleo. Mas, como disse Iasi, “Era onde a gente tinha acumulado, era o que tinha dado certo”.

Entretanto, retomando a fala de Manoel Del Rio:

”… hoje não tem influência nenhuma. Tem os cursos aí que dá e tal [mas], ninguém fala mais do 13. Está “morto”. Não está nas lutas principais de sem-teto, de sem-terra, nada… No ápice da luta de classes, ele não está dentro.”

Aqui, divergindo de Del Rio, a questão não é estar na luta dos sem-terra ou dos sem-teto ou disputar o sindicato A ou B, mesmo tudo isso sendo necessário. A questão é estar na luta do proletariado, nas fábricas, nas favelas, nos alagados, nas motos, na praia, no fastfood, nas construções, nas livrarias e em qualquer lugar onde somos explorados; ser a coisa viva, pulsar, ser feito de gente que está na luta de classes.

Alterando a primeira composição do núcleo, temos alteração no conteúdo dos cursos e uma forma diferente de atuação, de prioridades, uma mudança na forma, que dá muitas pistas do conteúdo que está ali. Assim, chegamos ao ponto central deste texto: poderiam os acadêmicos ser a luz que falta no processo revolucionário, na luta de classes?

“… vocês aprenderem com a experiência da gente. O fato de a gente chegar a esse nível de aprofundamento teórico e compreensão dos textos, etc. e ser obrigado a reconhecer de fato que não temos a menor ideia de como levar isso aos trabalhadores, pra mim é a demonstração mais cabal de como a universidade deformou a gente, castrou a gente do ponto de vista revolucionário, por que veja, como eu, Ivo e outras pessoas, quando a gente veio para a universidade a ideia era justamente ao contrário. A gente ia produzir dentro da universidade uma teoria revolucionária que a gente ia ter os meios, que a gente ia entender a realidade. Na verdade, o que a universidade fez com a gente foi transformar a gente em acadêmicos. E acadêmico vive num mudo que não é a realidade, é completamente a parte. Veja: claro que a gente poderia, sem nenhuma dificuldade, verificar qual é o proletariado de Maceió, se é que tem… seria uma investigação mais simples do que boa parte das investigações que a gente faz na vida…, mas a gente nunca se propôs a fazer e academicamente a gente nunca vai se propor a fazer, percebe? Porque de fato nos tornamos incapazes de enfrentar um objeto como esse, que em si é um objeto muito simples. A Universidade nunca vai ser capaz de produzir uma teoria revolucionária, de fato revolucionária. É capaz de fazer teoria acadêmica… que talvez sirva. Quem vai produzir teoria revolucionária tem que ser o movimento revolucionário… a universidade é uma instituição acadêmica e transforma todos que estão dentro dele em intelectuais acadêmicos, portanto burgueses, necessariamente (risos). A gente é o que a gente faz, não é o que gostaria de ser… percebe que tem esse limite … todos os intelectuais revolucionários que entraram na universidade … deixaram de ser intelectuais revolucionários, se transformaram em intelectuais acadêmicos, mesmo os profundamente honestos… os critérios acadêmicos matam a teoria revolucionária”.
(Lessa, 2018 [grifos nossos]) [26]

Além desses e outros problemas, quero retomar o ponto chave da primeira parte do texto: a análise contratualista do 13 de Maio – NEP sobre a criação das classes sociais.

Indo além do indivíduo, mas chegando no grupo que foi sendo formado para ser o novo núcleo, o que nos perguntamos é: será que há problemas nisso? Mesmo que honestos, os companheiros, envolvidíssimos nas questões latentes da luta de classes, os acadêmicos seriam a chave para resolver o problema da economia política [27] e da prática revolucionária?

Será que repetir o roteiro, seja ele qual for, é o que falta na luta de classes? Ou o proletariado que resiste e respira na luta do dia a dia e/ou nas lutas autônomas coletivas respira a base da revolta pelo dia a dia?

Aqui temos uma divergência mesmo. E de forma nenhuma acreditamos que o espontaneísmo é a solução, ele sim só acarreta em conquistas momentâneas e pueris. Ou seja, se há ciência e história proletárias, elas têm que servir a quem é de direito por quem é de direito, mas, indo próximo à linha de Del Rio, sempre aliados ao trabalho de base. E também não é uma questão de faltar a luz ou de iluminar o proletariado a partir de alguém.

Por acreditarmos que “aquele que tudo nega” [28] tem que voltar a vida e se entificar a todos nós classe, acreditamos que já é um bom início negar e que repetir pode ser tudo, menos ser reflexão. Retomando o problema que segue até hoje e logo em um ponto chave da reflexão: é claro que os companheiros do 13 de Maio [29] podem acreditar que “a formação assume uma forma mista de agitação e tarefa organizativa” tomando o lugar do trabalho de base, sem problemas. Entretanto, vale aqui reafirmar que estamos com Sergio Lessa, que, parafraseando Marx, insiste que a prática é o critério da verdade e uma prática ligada ao mundo acadêmico é alijada do processo revolucionário, estando longe de ter a capacidade de construir algo que exploda a barbárie nossa de cada dia.

Sobre o roteiro cristalizado e a necessidade dos cursos

Outro ponto que nos prendeu aqui foi a crítica ao roteiro, vivo e atuante, sendo o ser supremo que se impõem. Existiria alguma crítica a forma roteiro?

Indo além, entre os militantes e organizações é comum enxergar a necessidade de cursos, de forma geral mesmo (ILAESE, 13 de maio e demais), mas com um sentido bem peculiar. Como uma forma de gerar uma evolução da “galera do sindicato ou da base”, “assumindo uma forma mista de agitação e tarefa organizativa”. Um ritual de evolução da consciência. Quase um: “manda pros cursos que resolve!”. Quantos dos mais esforçados não foram para curso depurar a consciência?

Claro que, de nossa parte, não há uma negação dos estudos, muito pelo contrário. Há sim uma negação da fórmula mágica, do manual de formação oral centrado em um roteiro e em um mestre de cerimônias, ou seja, a necessidade dos cursos que vem sempre aliada ao posterior não ingresso efetivo nos estudos e reflexões. Cumprindo o manual, já sabem o que tens que fazer e agora podem voltar ao dia a dia, as “tarefas urgentes”. Antes um manual, agora um curso. No mínimo uma regressão.

Claudín resume bem esse processo:

O bom comunista não precisa esquentar os miolos na decifração de Marx ou Lenin: Stalin condensou a quintessência do marxismo, tudo o que realmente é necessário saber, no pequeno manual redigido de forma simultaneamente “acessível” e “profunda” para que todos os homens – tanto o sábio quanto o “homem simples” – possam trilhar sem desvios a rota que conduz diretamente ao comunismo. A partir de 1945, sucedem-se as edições, em todos os idiomas e em milhões de exemplares, desse Pai-Nosso dos povos.
(Fernando Claudín. A crise do movimento Comunista. Expressão popular. p. 385)

Novos rumos

Observamos que houve mudanças substanciais na totalidade das relações do 13 de Maio – NEP. São elas: hegemonia [30] dos acadêmicos, fim do trabalho de base, cristalização do roteiro, fim dos debates semanais de conjuntura, fim dos materiais e alteração do público atendido.

É fácil concluir que a coisa está viva, mas com forma e conteúdo diferentes. Isto é, longe do proletariado (ou mesmo da classe trabalhadora), cada vez mais acadêmica e para o movimento estudantil e direções sindicais (com todas as implicações já expostas sobre isso e quando consegue chegar até lá). Rumo bem diferente daquele que foi planejado no dia 13 de maio após o expurgo da FASE.

Hic Rhodus, hic salta!

Obs: O fechamento do texto fica mais divertido lido ao som de Another Brick In The Wall (Pt. 2)

Notas

[1] O capítulo “Breve histórico do Núcleo de Educação Popular” está no texto Como Funciona o Dhuring.
[2] O histórico do 13 de maio foram obtido em O resgate da trajetória histórico-política do 13 de Maio NEP – Núcleo de Educação Popular.Cyntia de Oliveira e Silva. 2008
[3] No trabalho de Cyntia, 2008, observamos somente uma nota de rodapé relatando esse trabalho. Pela importância na aglutinação, formulação e propaganda o inserimos como o quarto trabalho.
[4] “Ao longo de mais de vinte anos, a MOMSP afirmou-se como uma frente de trabalhadores, com um programa de defesa de um sindicalismo livre, democrático e de massa e pela auto-organização dos trabalhadores nas fábricas, em grupos e comissões, orientada pela perspectiva de uma independência política e ideológica dos organismos operários. A esta direção, a Oposição Sindical Metalúrgica subordinou a ocupação e a atuação no aparelho sindical oficial. Seu objetivo imediato foi o de conquistar a diretoria do Sindicato dos Metalúrgicos do Município de São Paulo, pela via das eleições sindicais.” (Maria Rosângela Batistoni. Entre a Fábrica e o Sindicato: os Dilemas da Oposição sindical metalúrgica de São Paulo [1967-1987]). Ver também Celso Frederico. A esquerda e o movimento operário Vol. 2
[5] Celso Frederico, A esquerda e o movimento operário 1964-1984. A reconstrução. Volume3. Ed Oficina de livros: 1991.
[6] Destacamos que, longe dos relatos de passividades, o exemplo da greve da construção civil em Belo Horizonte, no ano de 1979, onde o proletariado quebrou vidraças de um bairro nobre cantando palavras de ordem e, no interior paulista, onde metalúrgicos quebraram sindicatos mostram que, longe das rédeas sindicais, as coisas não foram tão pacíficas assim.
[7] Rosa Luxemburgo. Greve de Massas, Partido e sindicatos
[8] Cyntia (2008) p. 98.
[9] Linha de montagem – Chico Buraque.
[10] Para iniciar uma crítica a essa concepção destacamos o boletim Acerca Da Organização Dos Trabalhadores e os textos de Amadeu Bordiga em GRAMSCI, BORDIGA. Conselhos de Fábrica.
[11] Mesmo o boletim semanal da crítica da economia estando a todo vapor, chegando, no mínimo, a 3 continentes, o atual grupo de monitores-novos praticamente rompeu os laços com o editor da crítica. Claro, sem deixar de utilizar os boletins semanais (sic), sem expor críticas concisas e, muito menos, manter algo de análise de conjuntura que contraponha ou não, com a posição teórica e prática da Crítica. A exceção são as palestras de análise de conjuntura feitos a cada encontro anual.
[12] Entrevista em Cyntia (2008), p. 77.
[13] Após análise do programa dominante da esquerda pós-criação do PT, até os dias de hoje, o programa democrático e popular, também adotado pelo 13 de maio – NEP em seus primórdios (ficando a dúvida se até hoje), fica fácil observarmos porque “a crítica anti-capitalista raramente ultrapassava a crítica moral”. Para infelicidade de Iasi e se Marx está correto em afirmar que “a prática é o critério da verdade”, (a frase não é do Lenin?) de nada adiantam os esforços em replicar roteiros com a verdade se a consciência é construída pela prática do dia a dia. Sendo assim, conclui-se que, a única forma de acabar com a crítica moral, claro, baseado na teoria proletária de Marx e Engels, é modificar a prática dominante na luta dos trabalhadores através da disputa no trabalho direto, nunca só dar formação a quem deseja qualificar a luta. Quem sabe mais, muita das vezes, não luta melhor, haja vista a luta em Jirau e a luta da categoria do professor Iasi.
[14] Adam Pzerwoski. A social deocmracia como fenômeno histórico. Introdução, p. 19.
[15] O que nos chama a atenção é que antes se confiava mais no estudo e reflexões alheias para os cursos, mas agora, com incorporação dos novos cristãos, é melhor garantir o sucesso com o roteiro.
[16] p. 115.
[17] Referente a derrota de Lula nas eleições presidenciais em 1989.
[18] pgs. 114 e 115.
[19] Tivemos notícia da seguinte crítica: formatar, cursos de formatação.
[20] Cyntia p. 25.
[21] Abaixo inserimos uma breve crítica.
[22] Por parte do grupo de monitores, não temos informações se há leitura coletiva ou se há estudos regulares. Pela questão exposta na primeira parte deste ensaio crítico, acreditamos que os acadêmicos não estão ou não conseguem estar próximos da teoria proletária.
[23] Hoje não há mais boletins do FENEMÊ, não temos notícia em que data cessaram.
[24] p. 143. Perfil dos participantes em 1995. O detalhe é que não consta o movimento estudantil.
[25] Dado obtido através de relatos de monitores referente a região Sul e Sudeste.
[26] Vídeo/curso A democracia burguesia. Ivo Tonet e Sergio Lessa. https://www.youtube.com/watch?v=wj9TJAZq008&t=5s
[27] A questão aqui não é que um metalúrgico deveria resolver os problemas, mas sim o conteúdo histórico do proletariado, a teoria revolucionária e o ser coletivo revolucionário.
[28] (Fausto. Goehte) – ou seja, a ciência.
[29] Respeitando os monitores que se autointitulam.
[30] Propositalmente, replicamos aqui o conceito gramsciano utilizados no cursão sobre revoluções. Curso este monoliticamente reprodutor de barbáries como o massacre da Ucrânia/makhnovista e Kronstadt (ambos completando 100 anos), publicizando o dualismo totalitário, se colocando como vítimas de um mal maior. Como todo democrático e popular, apela para uma emotiva mística moral.

As imagens que ilustram este artigo são do filme de animação dos Estudio Disney “Fantasia” (1940).




Fonte: Passapalavra.info