Setembro 15, 2021
Do Passa Palavra
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Por Passa Palavra

No último dia 11 de setembro aconteceu a terceira paralisação nacional dos entregadores que trabalham em aplicativos, o #BrequeDosApps. A pauta e a organização foram construídas ao longo de meses e o dia não foi uma escolha fortuita, já que a greve foi contra o “terrorismo dos aplicativos”. A pauta comum foi o aumento da remuneração por quilômetro rodado, a não implementação do sistema de agendamentos e o fim dos bloqueios indevidos com a criação de código de confirmação para cada entrega. De acordo com a localidade foi dada uma dinâmica de luta, além de pautas mais específicas.

A aderência e o tamanho das mobilizações não seguiram um mesmo padrão em cada cidade, mas elas se estenderam por todo o Brasil, com destaque para Porto Alegre, Belém, Manaus, Rio de Janeiro e Ribeirão Preto (SP).

Em João Pessoa a mobilização ganhou uma pauta local, o motoboy Kelton Moraes foi atropelado na noite do dia 10 de setembro por um motorista acima do limite de velocidade, e morreu. Isso fez com que o ato do dia fosse também em solidariedade à família e de denúncia contra as condições de segurança que os entregadores enfrentam. A mobilização não se encerrou no sábado, pois os motoboys fizeram uma grande motociata na segunda-feira, em homenagem ao colega morto.

Os entregadores paralisando e a esquerda paralisada

Em locais como Uberlândia (MG) a adesão dos motoboys foi tamanha que os estabelecimentos desligaram as plataformas, uma vez que não havia ninguém para fazer entregas. Na cidade de São Paulo, a região com maior aderência foi a Zona Leste: os entregadores que já se conheciam dos pontos de maior circulação organizaram bondes que passavam nos locais de maior concentração para avisar os colegas que era dia de breque. Dinâmica semelhante aconteceu no litoral paulista. Em Guarujá esses pequenos agrupamentos de motoboys circulavam pela cidade com faixas, parando os pontos de retirada de entrega. Em ambos os casos os laços de proximidade anteriores entre os trabalhadores, que já se conheciam dos mesmos pontos, foram fundamentais para que a greve tivesse adesão.

Entretanto, o local que mais se destacou nesse sentido foi a cidade de São José dos Campos (SP). A paralisação na cidade se estendeu por quatro dias e continua crescendo quando esse texto é escrito. Sabendo os pontos de maior concentração, os trabalhadores se dividiram para ficarem nos locais de entrada e saída dos estacionamentos, o que lhes permitia abordar algum trabalhador que ainda não estava sabendo da greve. Considerando que isso não seria o suficiente para paralisar a cidade, fizeram grupos que circulavam e paralisavam os locais de menor circulação. Ao mesmo tempo, combinaram andar sem as mochilas, dessa forma facilitando a identificação daqueles que não aderiam à paralisação e que eram abordados pelos grevistas e convencidos a aderir à greve. Toda essa organização foi potencializada por grupos de mensagens com centenas de entregadores, que trocam as informações e coordenam coletivamente as ações para expandir a greve. A dinâmica local, na qual já existia um grupo de motoboys que pressionavam estabelecimentos que tratavam mal os entregadores, permitiu que eles entrassem em contato com os estabelecimentos e explicassem que a luta era contra os aplicativos e não contra eles. Isso fez com que alguns estabelecimentos cobrassem o iFood em suas redes sociais. O discurso dos entregadores joseenses reconhece a importância dos vídeos e materiais enviados por colegas da capital paulista, ao mesmo tempo gravam chamados para que colegas do Brasil todo retomem a paralisação. Os entregadores de São José dos Campos dizem que só irão voltar ao trabalho quando as empresas de aplicativo fizerem melhorias concretas.

Em meio a essa intensa mobilização da classe trabalhadora, a esquerda parece indiferente. A greve foi ignorada pela maior parte das organizações e mesmos os perfis de redes sociais de ativistas pouco divulgaram os vídeos compartilhados pela página @tretanotrampo. Com reações críticas às falas dos trabalhadores que não querem Bolsonaro, mas também não querem Lula, ou reclamações da faixa “Motoboys sem Sindicato”, a esquerda parece mais presa aos seus símbolos que à luta dos trabalhadores. Emblemático desse bloqueio simbólico e do estado geral da esquerda é o posicionamento do coletivo Revolução Periférica – que tem como sua principal figura pública o mais conhecido membro dos “Entregadores Antifascistas” –, que declarou, em 12 de setembro, que os trabalhadores não conseguem participar nas greves e que melhor seria uma mobilização dos clientes, que deveriam passar a consumir de restaurantes que contratam diretamente os entregadores. Enquanto isso, os trabalhadores continuam a criar suas próprias formas de organização das greves.

Os entregadores paralisando e a esquerda paralisada




Fonte: Passapalavra.info