Maio 10, 2022
Do Passa Palavra
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Por João Bernardo

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Há uma radical assimetria entre o historiador e os personagens. O historiador estuda os acontecimentos do a posteriori para o a priori, mas os personagens vivem do a priori para o a posteriori. Um efeito — que serve igualmente de demonstração — desta assimetria é que nenhum historiador roda 180º e, já que também ele se situa num a priori, se atreve a descrever o seu futuro com a mesma aparente segurança com que descreve o passado dos outros.

Isto significa que no processo histórico, enquanto ele decorre, há actores, mas não existe enredo nem encenador. Ora, como podem os actores, representando um papel que não conhecem numa peça de que ignoram o desfecho, trilhar um caminho tão claramente definido como aquele que o historiador apresenta nas páginas que escreve?

Assim, não há nenhum motivo para admitir que a perspectiva anómala do historiador, arrogando-se o ilusório privilégio do a posteriori, corresponda, por si só, a uma relação causal.

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O problema não se resume à perspectiva a posteriori tomada pelo historiador. A questão é mais complicada, porque na história não existem causas possíveis de isolar, apenas contextos, entendidos como conjuntos estruturados de factores.

Tudo — seja uma coisa material, uma instituição, um conceito ou uma simples palavra — só se define por oposição a tudo o resto. x ≠ a, b, c … n. Um contexto é um conjunto de factores estruturado mediante relações de oposição, e a coesão desse conjunto decorre precisamente da simultaneidade de negações recíprocas. É a inter-relação de negações, e a sobreposição dessas inter-relações, servindo umas às outras como espelho das diferenças, que impede o todo de se fragmentar, se pulverizar e dispersar.

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Esta noção de contexto fica mais complexa, e ao mesmo tempo a coesão do contexto fica reforçada, se entendermos que as pessoas não vivem dentro delas mesmas e, portanto, não são sujeitos das práticas. Não há razão para recorrer a categorias psicológicas, desprovidas de validade histórica. Cada pessoa é um percurso, aleatório e sempre mutável, entre diferentes esferas sociais, caracterizadas por práticas distintas. São estas esferas, e não as pessoas, os sujeitos das práticas. Os actores da história são as esferas sociais. E cada pessoa, ao longo do seu percurso, partilha parcialmente multiplicidades de práticas com um número ilimitado de outros percursos pessoais. Nesta perspectiva a noção da pessoa como uma individualidade é uma ilusão, devida ao facto de haver cérebros que processam certos tipos de informação recebidos através de sensações e excluem outros tipos de informação, estabelecendo assim uma clivagem relativamente ao mundo considerado exterior.

Ora, se esta forma de conceber os personagens deixa os contextos mais complexos, porque lhes multiplica o número de factores, deixa-os também mais coesos, porque a variedade e a mutabilidade dos trajectos individuais entre esferas sociais distintas contribuem para entretecer aqueles contextos.

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A complexidade da noção de contexto é ainda superior, porque será que cada contexto se confunde com o presente dos personagens num dado momento? Mas um contexto articula o passado (memórias pessoais e instituições num processo de desenvolvimento) e o futuro (projectos pessoais e o desenvolvimento de instituições), podendo afirmar-se que não existe um tempo presente e que, portanto, ele nunca deve ser a matéria do historiador.

A afirmação inversa é igualmente verdadeira, podendo afirmar-se que o presente dos personagens em cada momento resume um contexto em que o passado é entendido como os traços que dele restam no presente, e o futuro é entendido como as antecipações contidas no presente. Deste modo, os sucessivos presentes são a matéria única do historiador, que neles deve inserir os passados e os futuros.

Na perspectiva temporal, a complexidade da noção de contexto resulta de uma necessária complementaridade, em que o historiador deve conjugar uma história centrada no presente, cujo dinamismo provém de se entender o presente como uma amálgama de tempos, com uma história alheia à noção de presente, porque segue o dinamismo de processos em que se desvendam traços e se antecipam projecções.

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Se considerássemos um contexto como causa linear dos efeitos que lhe sucedem, teríamos de definir quais dos inúmeros factores do contexto, ou quais das inúmeras relações entre factores, foram ou não causa e em que medida o foram. E esta definição deveria resultar da complementaridade de duas perspectivas, uma centrada no dinamismo de sucessivos tempos presentes e outra acompanhando a sobreposição de desenvolvimentos do passado e de despertares do futuro.

Mas aqui precisamente reside a dificuldade. O número de factores, e de relações entre factores, integrantes de um contexto é ilimitado, não só porque a pesquisa histórica tende a descobrir novos factores e a estabelecer novas relações, como porque cada factor ou relação deve, por seu turno, ser entendido num contexto, e assim sucessivamente, o que prolonga o carácter ilimitado dos factores e das suas relações.

Por isso, a noção de causa deve ser substituída pela noção de acção.

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Devido ao carácter ilimitado do número de factores e de relações e ainda devido à complementaridade das abordagens temporais, e se cada factor e cada relação devem ser entendidos no contexto de outros factores e relações, ad infinitum, então a acção emanada de um contexto nunca pode entender-se em termos de causalidade linear, mas exclusivamente em termos de determinismo probabilístico.

Mas será esse probabilismo do tipo apresentado no modelo de Maxwell e Boltzmann relativo às moléculas ou átomos (naquela época a terminologia a este respeito era imprecisa) nos gases, em que o momento e a posição de cada molécula ou átomo seriam definíveis simultaneamente, sendo, porém, impossível ao observador calcular a interacção desses milhões de partículas, o que obrigaria a um cálculo estatístico e imporia, portanto, um determinismo probabilístico? Ou será um probabilismo do tipo formulado pela primeira vez por Max Born ao reinterpretar a função de onda de Schrödinger, quando afirmou que no âmbito quântico nenhuma partícula é susceptível de determinação causal linear, sendo o probabilismo, portanto, inerente à natureza das próprias partículas? Será um probabilismo resultante do desconhecimento ou um probabilismo resultante da incerteza?

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De certo modo — mas só de certo modo — esta problemática fora já antecipada por Leibniz, quando considerou que toda a possibilidade, enquanto possibilidade, tem um grau de realidade, porque é uma «pretensão à existência».

O possível não é determinado especificamente, não sabemos se vai ou não materializar-se ou, numa terminologia precisa, se vai ou não actualizar-se. Mas nem tudo atinge o estatuto de possível. Os limites do possível são determinados. Isto significa que pode definir-se exactamente o impossível, podendo portanto definir-se os contornos do possível, mas dentro desses contornos o número de possibilidades é ilimitado. Por outras palavras, num quadro com fronteiras rigorosamente determinadas existem ilimitadas possibilidades de realização dessa determinação.

Os personagens da história ou sabem o que estão impedidos de fazer ou ignoram o que lhes está vedado sequer sonhar, mas deparam com um leque ilimitado de alternativas possíveis. O que cada um idealiza dentro da sua cabeça ninguém conhece, mas se o pensamento beneficiar nem que seja de um esboço de efectivação, então isto implica construir alguma coisa ou falar com outras pessoas, deixa traços materiais e move relações sociais. A possibilidade não é um fantasma, é o gérmen de um processo, a tal «pretensão à existência» de que falava Leibniz, e por isso é real. Se o processo não se desenvolver, a possibilidade não se efectivará, a «pretensão à existência» ficará frustrada, mas entretanto ela foi real enquanto possibilidade. A história dos múltiplos fracassos não é menos real do que a do único êxito.

Do a posteriori para o a priori o historiador vê uma só realidade efectivada, mas do a priori para o a posteriori os personagens vivem um número ilimitado de realidades possíveis.

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Para o historiador, a história comparada é tão necessária como é o laboratório para o cientista, destinando-se a focar um fenómeno ou um processo e a ter a certeza de que é dele, e não de outro, que se trata. Se os factores de um contexto estão estruturados mediante relações de oposição, só a história comparada permite definir essas oposições.

Mas a história comparada não responde apenas a esta exigência e tem igualmente uma segunda finalidade, que considero indispensável. Sendo de antemão frustrada a ambição de abarcar todos os factores e todas as relações para estabelecer uma impossível causalidade linear, a história comparada destina-se também a estudar factores que abortaram e relações que não se desenvolveram, presentes fracturados e dinamismos temporais interrompidos, de modo que o entendimento de múltiplos insucessos esclareça o grau de probabilidade do único sucesso. Para o determinismo probabilístico a história comparada é uma necessidade intrínseca.

A única maneira de evitar a distorção resultante da assimetria entre o a posteriori e o a priori consiste em levar a historiografia a incidir nos factores e relações que, apesar de serem realidades possíveis, acabaram por ser eliminados e nunca chegaram a ser realidades efectivas. Só estudando o que não aconteceu poderemos elucidar o que sucedeu. Deste modo, o a posteriori deve resultar do estudo do fracasso dos — de quantos? — a priori.

A historiografia só atingirá um nível científico quando se transformar na história do não.

As obras que ilustram este manifesto são de Antoni Tàpies (1923-2012).




Fonte: Passapalavra.info