Outubro 30, 2020
Do Reporter Popular
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Por Ane Xukuru do Ororubá

Um pouco de história pra quem não tem memória.
Pesqueira é terra indígena!

Nós ocupamos esse lugar muito antes da chegada de quem assim a batizou. Aqui, nessa terra tomada por aristocratas e por uma elite rural coronelista, que é, sempre foi e sempre será racista, existe uma comunidade indígena, a maior população indígena do estado de Pernambuco, terceira maior população indígena da região Nordeste, habitando a serra do Ororubá e todos os bairros da cidade.

Sim, nós estamos aqui!

Quem, como eu, nasceu na área urbana do município e vem de família indígena conhece bem o escárnio dessa gente outra, sempre fomos subgente, subclasse, sub-humanos. “Os porcos” como eram chamados nossos avós, pais, tios que, sendo ameaçados diariamente, sem terra pra trabalhar e viver, migraram pra região urbana atrás de trabalho pra manter suas famílias e que em sistema de escravidão pra os donos das fábricas, construíram essa cidade. Famílias da elite rural local que sempre governaram o município, foram aquelas que roubaram as nossas terras, financiaram/encomendaram assassinatos em nosso território e que tinham aqui espaços como a escola integralista, que tinha como lema “Deus, Pátria, Família”.

É desse tipo de gente que estamos falando, uma gente que nunca nos aceitou, que sempre nos pisoteou, que nos roubou, nos matou, nos escravizou e tentou, durante séculos, apagar a nossa memória coletiva, a nossa ancestralidade e que nunca vai nos perdoar, porque nós nos levantamos, e fortalecidos por nosso ritual sagrado e pelos tacós ancestrais, dissemos basta à espoliação de nossas terras e à situação de extrema vulnerabilidade em que se encontravam nossas famílias.

Mas nós mantemos essa cidade, pois Xukuru planta pra cidade comer, Xukuru consome no comércio, Xukuru partilha a água do território que chega nas casas da cidade, Xukuru preserva o verde, as cachoeiras, rios, açudes e outros espaços dos quais toda a cidade se beneficia. É Xukuru que atrai turistas, estudiosos, militantes e um tantão de coisa que leva o nome desse lugar pra lugares que jamais iria sem a nossa influência e lembrança. Na história recente dessa cidade, TODAS as mudanças de impacto vêm do território, a retomada da terra, a organização sociopolítica do povo, a gestão territorial, muito mais à frente e desenvolvida do que o que se tem aqui embaixo, na rua.

Não é surpresa nenhuma que essa gente agora se aproveite do pleito eleitoral para tentar atingir a nossa comunidade e as nossas famílias ao desrespeitar a nossa história, a nossa tradição e rituais. Mas nós lembramos, de TUDO!

E nós não iremos aceitar qualquer tipo de ridicularização do nosso sagrado, dos nossos rituais e das nossas tradições por parte de quem quer que seja, por que nós não temos vergonha de nada, nem do nosso sangue, nem da nossa história e nem da nossa tradição. Quem deveria se envergonhar é quem descende de ladrões, estupradores e assassinos perversos que durante tanto tempo nos causou dor.

Orgulhosamente índios! Avançaremos!




Fonte: Reporterpopular.com.br