Julho 29, 2021
Do Passa Palavra
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Apresentado por Passa Palavra

Desde Fevereiro deste ano uma leitora ou um leitor tem deixado poemas dispersos pelos comentários, sempre sob assinaturas diferentes, para que cada novo nome lhe apague o traço dos passos. O padrão é invariável, um encadeado rítmico em que a ironia provém da síntese, num panorama desolado entre a militância fútil e a condenação ao trabalho.

Para que esses poemas não se percam, pareceu-nos útil reuni-los.

28 de Fevereiro de 2021

Anarquistas perplexos no twitter twittando suas irrelevâncias.
O professor anarca vomita receitas sobre como fazer revolução.
O Editor anarca pede mais dinheiro, tudo em nome da autonomia e do bem viver.
A anarca identitária sentencia provérbios sobre o lugar de fala.
O punk dá de ombros e aumenta o volume do headphone.
O grupelho espalha A Palavra em zines que ninguém vai ler.
Anarcas do Instagram protestam contra as corporações.
O Big Data a rir de todos.
O povo na rua segue na lida, alheio aos ruídos.
A realidade não será digitalizada.

3 de Março de 2021

Cheque Mate
O povão circula nas quebradas
A Polícia circula nas quebradas
O tráfico circula nas quebradas
Entregadores circulam nas quebradas
A Perifa circula
O vírus circula
A Esquerda não sai de seu quadrado

11 de Março de 2021

O professor anarquista chegou aos 15.000 seguidores.
O Pedalant Copia e Cola 18 horas por dia.
A moça antropóloga segue escrevendo Teses nos twittes, exigindo lealdades.
A esquerda compra da esquerda é o lema da Revolução.
A agência de notícias traz notícias de além mar, de onde não virá revolta alguma.
O psiquiatra receita Clonazepan.
A mãe do assassinado chora a violência da PM.
Nós choramos pelo quê?
Fui cancelada da família, será que este ano eu morro?

4 de Maio de 2021

Enquanto isso… na República do “E daí?”
Convocaram outro Tuitaço.
Manifestos saem do teclado às centenas
Dá-lhe indignação digital.
O professor anarca comemora 15.000 seguidores.
A Editora adquire mais uma impressora libertária.
O Zé do Território é criticado por plantar sua própria comida e esquecer de “organizar para a revolução”.
Mais um Mestrando da Revolução é aprovador com louvor.
A Central clama no Facebook por uma greve nacional.
Maria clama por comida pros seus três filhos. A Vakinha Empreendedora é acionada.
O sol mais uma vez se levanta no horizonte, a galera aglomera na praia.
E o “povo” não vai pra rua, compa?

22 de Junho

Flagrante Delito
A Copa América segue a toda, a bola rola e rala.
O MTST ameaça com a polícia os vândalos da Ação Direta na Paulista.
Notas de repúdio se espalham pela blogosfera, e a cepa Delta se esparrama no território.
Entre debates e tretas da esquerda, mais uma TAG é levantada no twitter
No OnlyFans, uma ativista faz nudes pela Palestina.
A semana terminará com o relatório sobre ÓVNIS pela Governo dos EUA.
Viva São João!

1 de Julho de 2021

Mutatis Mutandis
A Editora anarquista festeja o aumento das vendas em tempos de “levantes”, até já compraram uma novíssima impressora de alto poder libertário.
A antropóloga informa mais duas Lives.
O professsor anarca agradece os novos egressos em seu twitter.
O sem teto clama por moradia digna
O faminto por alguma dignidade sobrante.
O hacker ético posta pela privacidade no Face e no Twitter.
A Perifa festeja o show on line da Anitta.
Ivete declara seu fervor “antifa”.
Nemésio, ajudante de pedreiro na ZL, não sabe se terá jantar de noite.
A Agência posta mais textos do que somos capazes de ler.
Amanhã tem importante jogo na Copa Covid.

3 de Julho de 2021

O Trem do Tempo posta mais um Podcast, quem escuta o quê?
O editor se esmera em mais um anúncio da Vakinha on line.
A antropóloga reclama da antropofagia de seus leitores.
Os anarcas do Mastodon postam mais um 3J.
A Agência de Notícias Anarquista comemora algum centenário.
Alfredo, motorista da linha 311, sai para mais um dia de labuta.
Anitta grava em inglês um novo hit.
O Professor anarca chamando pra sua Live pelo 3J.
Para onde iremos?

10 de Julho de 2021

Enquanto duginistas dominam o PDT
A Editora Anarquista adiciona máscaras pff2 n95 ao seu portifólio, além de gadgets diversos.
No Mastodon os anarcas brazucas dissecam a revolução espanhola em milhares de “toots”, multiplicados ad infinitum.
No Twitter a antropóloga sugere que o regime político está mudando de “textura”, e que isso demanda uma nova “cartografia das resistências”.
O professor prolixo indica Focault pro fim de semana.
O movimento indígena acusa os usuários de Ayuasca de “fascismo verde”.
Os “eco fascistas” pedem o fim do combustível fóssil, e a expulsão dos Ciganos dos países europeus.
Gilmar defende a urna eletrônica, Lula também, Boulos defende a urna, o STF defende a urna, o Banco defende a urna.
Rosa, operadora de telemarketing, defende seu direito de ir ao banheiro quando preciso.

Esta recolha de poemas está ilustrada com fotografias de Alan Schaller.




Fonte: Passapalavra.info