Outubro 28, 2020
Do Reporter Popular
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Dinha, da Rede de Proteção e Resistência Contra o Genocídio, filmava uma abordagem policial e teve a casa invadida no fim da noite de domingo. Policiais tomaram o celular da militante

Policiais civis de São Paulo tentaram intimidar a professora e defensora de Direitos Humanos Maria Nilda de Carvalho, a Dinha, da da Rede de Proteção e Resistência Contra o Genocídio. Eles invadiram a casa da lutadora, na zona sul da capital paulista. Um vídeo mostra parte da abordagem violenta, acontecida na noite de domingo.

Dinha faz parte da Rede de Proteção e Resistência Contra o Genocídio, articulação de militantes que denunciam a violência policial em São Paulo. Naquela noite, ouviu tiros e foi até a janela, com o celular para filmar a cena. A polícia estava fazendo abordagem a um homem, quando os policiais viram Dinha gravando a ação, e a mandaram sair de casa. Ela se recusou, por não se sentir segura, e então os policiais simplesmente invadiram a casa. “Passaram o portão do quintal e foram até a porta. Me mandaram entregar o celular. Abriram a janela por fora e puxaram a cortina. A porta estava trancada, mas conseguiram abrir não sei como”, disse Dinha, à Ponte Jornalismo.

Ela conta que passou por uma revista truculenta, com perguntas intimidadoras. Toda a ação aconteceu na frente de suas filhas, que têm 8, 11 e 13 anos. Os policiais tomaram seu celular, e depois o entregaram a uma vizinha. Os policiais também questionaram os vizinhos sobre Dinha e os intimidaram.

A Rede de Proteção e Resistência Contra o Genocídio denunciou o caso, e alerta que se acontecer algo com Dinha, a polícia é a primeira suspeita. Segue o comunicado do movimento:

SOLIDARIEDADE À DINHA: policiais civis invadem casa de articuladora da Rede de Proteção e Resistência ao Genocídio

O caso ocorreu às 23h40 deste domingo, 25/10. Maria Nilda de Carvalho Mota, nossa querida, aguerrida e valorosa companheira Dinha, moradora do Jardim São Savério, no Sacomã, Zona Sul da capital, é articuladora da Rede de Proteção e Resistência Contra o Genocídio, militante dos Direitos Humanos, professora, escritora e mãe.

Dinha acordou com barulho de tiros e viu uma abordagem violenta sendo realizada por policiais na rua em frente a sua casa, passando então a filmar. Ao perceberem a filmagem, os policiais invadiram a casa dela pelo portão, abriram sua janela e derrubaram a cortina, com lanternas e xingamentos racistas, machistas e classistas, mandando que ela saísse. Ela não saiu e eles arrombaram a porta da sala, causando destruição em sua casa e desespero em sua família, composta por crianças pequenas.

Os policiais tomaram o celular da mão de Dinha, na tentativa de apagar os vídeos, ameaçando levá-la à delegacia, incriminá-la, ou fazer isso com vizinhos, caso ela não cedesse o aparelho ou se recusasse a ir com eles. Também olharam sua casa, fotografaram o interior e uma policial feminina a revistou truculentamente. Antes da invasão, Dinha ainda teve tempo de avisar amigos e familiares, que logo foram socorrê-la. Ao fim, os policiais foram embora e deixaram seu celular com sua vizinha. Os policiais alegavam estar, na abordagem, procurando o assassino de um outro policial. Entretanto, nada justifica essa abordagem ilegal, que contraria a Constituição Federal, a qual garante a casa como um asilo inviolável.

A Rede de Proteção e Resistência Contra o Genocídio atuou na hora do fato e presta total apoio à educadora, que também é uma de suas articuladoras, além de ativista em Direitos Humanos. A Rede também aciona o Ministério Público, que imediatamente coloca um promotor para acompanhar o caso.

A Rede, ainda, com seu apoio jurídico foi acompanhada para a Corregedoria da Polícia Civil, e mobiliza toda sua militância, as instituições públicas e a mídia para a defesa de Dinha, assim como da lei e da Constituição diante da mencionada arbitrariedade policial. Vale ressaltar que é direito de todos filmar abordagens policiais, entretanto a polícia não tem o direito de invadir casas sem mandado. Além disso, cabe destacar que, ao contrário dos bairros dos ricos, como Alphaville, a região de Sacomã vem sofrendo com graves violências policiais. Dinha só recuperou seu celular e sua segurança graças a seus próprios esforços e aos de sua comunidade, ativa, unida e consciente. Se algum ataque acontecer à segurança e integridade de Dinha, de suas filhas, de sua vizinhança e de sua rede de apoio, a responsabilidade deve recair sobre a própria polícia, que deverá ser considerada a primeira suspeita.

Nós, da Rede de Proteção e Resistência Contra o Genocídio, repudiamos toda forma de violência policial e mantemos todas as autoridades, todos os meios de comunicação e as pessoas solidárias alertas, pois sabemos que ações como essa são frequentes e devem ser prontamente enfrentadas para o fim dessa cultura de arbitrariedade e impunidade policial.

Fazemos nossas as palavras dos versos de Dinha, no poema referente ao Massacre do Carandiru, contido no livro Onde escondemos o ouro, de 2013, poema chamado Convocatória, “aos 111, que descansem, e a nós, que insistimos em sobreviver. Porque a justiça tem olhos de águia, mas gosta de brincar de cabra-cega”. E segue:

“Não queria calar o grito
Eu queria sim
Escrever um poema
Que não dormitasse
Na garganta da minha indignação
Não queria calar o grito
Eu queria sim
Atirar um poema
Que sangrasse
Nó na garganta do Ubiratan
não queria escrever um poema
eu queria sim
saudar as vítimas
furar os olhos da justiça
e convocar à rebelião.”

TODA SOLIDARIEDADE A DINHA! TMJ, COMPANHEIRA!
BASTA DE VIOLÊNCIA POLICIAL NO JD SÃO SAVÉRIO!
BASTA DE VIOLÊNCIA POLICIAL EM TODAS AS QUEBRADAS!
PELO PODER POPULAR, CONTRA O GENOCÍDIO!




Fonte: Reporterpopular.com.br