Janeiro 23, 2021
Do Passa Palavra
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Por AngryWorkers / Lets get rooted

Caros camaradas,

Este é o segundo relato do Reino Unido para os camaradas no exterior.

O foco desse relato serão as limitações estruturais que a classe dominante no Reino Unido enfrenta. Qualquer governo enfrentaria restrições semelhantes, quer queira “fazer o Brexit” ou aprovar um programa de nacionalização “socialista”.

Nós iremos olhar para dois principais aspectos destas restrições.

Primeiramente, há o forte impacto econômico que vem desde a pandemia e forçou o governo a tomar medidas financiadas através do endividamento, e que agora ele terá dificuldade em “retirar” da sociedade. Aqui eles estão espremidos entre dois riscos principais. Por um lado, uma redução repentina no gasto financiando pelo endividamento iria levar a um verdadeiro crash, envolvendo falências e desemprego massivos. Por outro lado, o crescente endividamento vai minar a estabilidade da Libra como uma moeda internacional e, o que é mais importante, a “disciplina econômica” tanto da classe dos capitalistas quanto dos trabalhadores.

Em segundo lugar, há a dependência internacional da economia do Reino Unido, tanto em termos financeiros quanto de investimentos e conhecimento industrial, melhor exemplificada pela disputa em torno do uso de empresas chinesas para construir a rede 5G ou financiamento de reatores nucleares. Essa dependência limita o escopo para obtenção de um “Brexit soberano”. O Reino Unido foi pego no meio de uma guerra tecnológica e comercial entre os Estados Unidos, a União Europeia e a China. O governo compensa a sua falta de “poder de fogo industrial e financeiro” com joguinhos políticos, que ameaçam desestruturar o Reino Unido.

Nós não queremos especular sobre os resultados do Brexit neste relato. Nosso principal interesse é destacar como a atual crise desnuda a frágil espinha dorsal produtiva da economia do Reino Unido e seu sistema nervoso central. A crise nos permite entender a composição e as contradições da economia do Reino Unido.

Nossos desafios políticos novamente são duplos

Primeiramente, nós temos que tornar esse entendimento em uma crítica mais clara das ideais do “socialismo democrático”, que ainda acreditam na possibilidade de superação do capitalismo por meios parlamentares. No final deste relato, abordaremos brevemente a atual crise da esquerda “pós-Corbyn” no Reino Unido, que é abalada tanto pelo “socialismo realmente existente dos Conservadores” de intervenção estatal quanto pela virada conservadora da nova liderança trabalhista.

Em segundo lugar, e mais importante, nós temos que analisar as mudanças nas relações de poder entre chefes e trabalhadores. O lockdown e o foco público nos “trabalhadores essenciais” têm aumentado a confiança dos trabalhadores manuais com baixa remuneração, aumentando a pressão salarial vinda de baixo. Ao mesmo tempo, a crise e o crescente aumento do desemprego faz uma pressão de cima sobre os trabalhadores. A tensão cresce. Nós iremos destacar algumas disputas recentes no final deste relato e apresentar nossa ideia de uma série de entrevistas.

* * *

O impacto econômico

De todos os países da UE, o Reino Unido foi o mais duramente atingido pela crise da Covid-19, tanto em termos econômicos quanto de saúde. A economia do Reino Unido encolheu um quinto no segundo trimestre de 2020, entrando na mais profunda recessão já registrada. Investimentos privados registrados ao longo do ano até setembro de 2020 caíram 30%. O tropeço está relacionado a uma tendencia de longo prazo: no Reino Unido, a produtividade estagnou desde a crise financeira de 2008 e não conseguiu se recuperar. Desde o segundo trimestre de 2008, a falta de crescimento do Reino Unido contrastava com uma expansão de 9%, em média, na produtividade do trabalho nos 36 países membros da OCDE.

Em termos de crise de saúde, o Estado mostrou que as ligações entre o “alto comando” e as várias instituições da “sociedade civil” do Estado (administração local, organizações de saúde, estruturas comunitárias) são frágeis e muitas vezes a comunicação e as decisões são mal transmitidas através de várias formas de empresas ‘públicas/privadas’, o que levou ao caos. O setor industrial não foi capaz de fornecer os serviços e bens necessários, como testes ou máscaras. Essa combinação explica o alto numero de fatalidades, que passava de 42.000 em setembro de 2020. É a expressão da falência de um sistema de acumulação baseado na terceirização e na financeirização e também da desintegração da classe politica, que foi levada mais longe no Reino Unido nas últimas quatro décadas, em particular sob o Novo Trabalhismo [1].

O governo tenta conter a queda livre com um aumento do gasto e da dívida, ou seja, se endividando para pagar os salários dos trabalhadores e para dar crédito barato para as empresas. O déficit do governo de £221,2 bilhões nos primeiros cinco meses de 2020-21 foi 11 vezes mais do que o registrado no mesmo período no ano contábil passado. O endividamento líquido saltou de 2,6% do PIB no ano passado para 19% neste ano — o maior em tempos de paz. Desde a crise da Covid-19, no Reino Unido, como em muitos outros países, o controle da oferta de dinheiro passou discretamente do banco central (Banco da Inglaterra) para o governo. O Estado está em destaque. Esta é uma situação de risco para a classe dominante, tanto econômica quanto politicamente.

Há riscos econômicos imediatos. Nos últimos dois anos o déficit comercial do Reino Unido aumentou, enquanto o valor da Libra caiu, com o resultado de que os bens importados (itens alimentícios, bens de consumo de massa) ficaram mais caros. Apesar de todo o papo sobre os superpoderes das “moedas soberanas” como a Libra, uma espiral de dívidas pode levar a instabilidade e a queda do valor da moeda nacional. A Libra foi recentemente comparada ao Peso mexicano por causa de seus altos e baixos. Outro risco imediato é a reação em cadeia imprevisível de falência de pequenos atores econômicos que não podem pagar suas dívidas. Mesmo o Estado tem pouca noção de como as várias empresas e instituições estão entrelaçadas economicamente, por exemplo, como os governos locais são dependentes dos aumentos de preços no setor imobiliário ou como os fundos de pensão dependem do desenvolvimento do mercado de ações. Nos últimos meses, vários elos fracos da cadeia econômica começaram a se quebrar. Uma pesquisa divulgada em 8 de abril pela Câmara Britânica de Comércio sugeriu que 57% das empresas britânicas não tinham dinheiro suficiente para sobreviver além de três meses de lockdown, enquanto 6% já haviam ficado sem dinheiro. Mas a crise não afeta apenas o “setor privado”. Autoridades locais anunciaram um déficit de financiamento adicional de £2 bilhões. Em Croydon, por exemplo, o governo disse que terá que despedir 175 trabalhadores devido às dívidas de £11 bilhões e aos custos crescentes por causa da covid. Os fundos de pensão de trabalhadores nas universidades e nas ferrovias declararam um déficit de financiamento de mais de £15 bilhões. Os níveis de dívida também estão aumentando para as famílias. O Citizens Advice estima que mais de 6 milhões de famílias atrasaram pelo menos uma conta doméstica. Ao mesmo tempo, os bancos aumentaram as tarifas de cheque especial nos cartões de crédito pessoais. Há um risco econômico concreto de que essas cadeias se rompam e saiam do controle. É por isso que o Estado é forçado a distribuir dinheiro, enquanto ainda não descobrem “quem é grande demais para falir” e quem pode falir sem um risco maior.

Há um risco político mais profundo. Decisões econômicas que anteriormente eram mediadas por forças de mercado aparentemente “impessoais” agora são vistas como resultado de decisões políticas, por exemplo, não resgatar essa ou aquela empresa. O Estado, como corpo representativo e administrativo, está sujeito a uma pressão e escrutínio crescente por parte tanto da classe dos capitalistas quanto dos trabalhadores. Da Virgin Atlantic a City de Londres, todos os capitalistas tentam forçar o Estado a compensar as suas perdas. O Estado tenta evitar resgates diretos e principalmente fornece as garantias para empréstimos tomados por meio de bancos comerciais, em vez de diretamente por meio do Estado. Esses esquemas de empréstimos forneceram quase £53 bilhões para mais de 1,2 milhão de empresas. Também há pressão vinda de baixo, por exemplo, os trabalhadores questionam por que o sistema de licença financiado pelo Estado que compensou as perdas salariais durante o lockdown foi abandonado e substituído por um esquema pior no outono de 2020, enquanto os governos de outros países ocidentais continuam “pagando os seus trabalhadores”. Mais uma vez, o Estado tenta evitar ficar sob os holofotes entregando o dinheiro da licença aos patrões, em vez de diretamente aos trabalhadores.

Neste sentido, a principal tarefa do regime de crise do Estado é reforçar a disciplina econômica, o que é difícil se o Estado está acumulando dívidas e sinalizando que os “pagamentos” podem ser adiados. O regime de crise deve obrigar os capitalistas a reestruturar e aumentar a exploração de seus trabalhadores. O Estado pode intervir neste processo, por exemplo, com um aumento da tributação. A crise força o governo a repensar os baixos niveis de tributação no Reino Unido. Ironicamente, os Conservadores consideraram um aumento dos impostos para as empresas, enquanto os Trabalhistas sob a direção de Starmer avisaram que esse poderia ser um passo prematuro. De acordo com o FMI, a receita tributária do governo do Reino Unido foi de 37% do PIB, bem abaixo dos 40% no Canadá, 44% na Holanda e 46% na Alemanha. A questão da tributação é uma área de lutas políticas internas da classe dominante. Já em outros aspectos, existe uma unidade: para reagir aos buracos nos fundos de pensões, a idade da aposentadoria foi aumentada para 66 anos em 2020 e irá aumentar ainda mais. O governo também planeja avançar com cortes no benefício social básico do Universal Credit em abril de 2021, o que afetará até 8 milhões de pessoas na faixa de renda mais baixa. Isso aumentará ainda mais a diferença salarial entre a classe trabalhadora e a “classe de renda média’, que o lockdown agravou: enquanto as pessoas de renda mais alta que podiam trabalhar em casa podem na verdade até ter economizado dinheiro durante o lockdown, aquelas que tiveram licença recebendo 80% de seus salários terá se endividado ainda mais. A fim de administrar o aumento do número de desempregados, o governo anunciou a contratação de mais 13.500 “coaches de empregos” para “levar as pessoas de volta ao trabalho”.

O regime de crise também determinou quem deve ser resgatado e quem pode ser deixado falir com segurança. O governo criou o “Projeto Birch” com esse propósito, um órgão que deve determinar os termos do auxílio estatal ao setor privado, o que pode levar o Estado a assumir ações e funções de gestão nas empresas beneficiárias. No caso da Tata Steel e da maior fabricante de automóveis do Reino Unido, Land Rover/Jaguar, que emprega mais de 30.000 pessoas no Reino Unido e perdeu cerca de £1 bilhão entre janeiro e julho, o Estado decidiu que, em vez de adquirir ações dessas empresas por meio de apoio financeiro, é melhor deixar a reestruturação futura para a “mão privada”. O Estado admite que seus próprios poderes financeiros são limitados e aceita a dependência internacional da indústria no Reino Unido: no final, um grupo de bancos chineses, que também financiam fornecedores da Land Rover/Jaguar na China, emprestou à fabricante de automóveis £560 milhões para manter o “Fabricado na Inglaterra”. Este é um bom exemplo de outra grande restrição estrutural, além da atual crise econômica, que limita o alcance político do Estado no Reino Unido: uma posição de dependência internacional e status enfraquecido no sistema de Estados internacionais, embora tenha que defender a ideia de “soberania” durante o processo atual do Brexit.

O dilema do Brexit

Não queremos nos aprofundar nos altos e baixos das negociações do Brexit. A principal questão controversa refere-se a quanta autonomia o Estado do Reino Unido terá para intervir em “sua própria” economia, por exemplo, através de subsídios. Embora esses detalhes sejam importantes, para nós é mais interessante que a estrutura econômica e a dependência internacional do capitalismo regional sejam reveladas de forma mais clara durante as negociações do Brexit e que fique mais visível a posição do Reino Unido em relação aos principais blocos de poder globais, ou seja, UE, EUA e China. Antes de passarmos para alguns exemplos recentes concretos, queremos resumir rapidamente como a competição global entre esses principais blocos de poder e a dependência econômica do Reino Unido interagem entre si.

O principal parceiro comercial do Reino Unido é a UE, o que representa o principal problema para o Brexit. Nesse sentido, o Brexit vai causar prejuízo econômico, seja qual for o acordo. As estimativas oficiais mais recentes em 2018 estimam que o Reino Unido perderia 4,9% da receita futura em 15 anos se deixasse a UE com um acordo comercial básico. Em um cenário de nenhuma acordo, isso aumentaria para 7,7% no mesmo período. Para conseguir o melhor acordo possível, o Reino Unido precisa da perspectiva de aprofundar as relações comerciais e de um acordo comercial favorável com outras grandes potências econômicas, principalmente os EUA e a China. Em negociações comerciais anteriores, o governo dos EUA sinalizou que não haveria um bom acordo se o Reino Unido a) concordasse em permanecer dentro da união aduaneira com a UE — o que não permitiria o aumento das exportações dos EUA e facilitaria o acesso de investimento ao Reino Unido — e b) continua a aprofundar as relações comerciais com a China. Este último ponto representa um problema significativo, dada a dependência do conhecimento financeiro e produtivo da China, da tecnologia 5G à energia nuclear. Durante a fase final das negociações do Brexit entre o Reino Unido e a UE, o governo do Reino Unido estava ansioso para fechar pelo menos um acordo com uma nação comercial significativa, a fim de ter uma melhor participação nas negociações com a UE. O acordo comercial com o Japão no verão de 2020 pretendia desempenhar esse papel. O problema era que, mesmo na relação com o Japão, o Reino Unido está na “extremidade receptora”, ou seja, o Reino Unido depende de investimentos produtivos do Japão, e não o contrário — veja os exemplos abaixo. Os negociadores do Reino Unido teriam que engolir um corte nas tarifas de importação para carros japoneses de 10% — que é a taxa atual da UE — para zero.

Resumindo: enquanto tenta afrouxar seus laços com a UE (Brexit), o Reino Unido foi pego no meio da guerra comercial e tecnológica entre EUA e China. Isso aumenta a tensão dentro da classe dominante no Reino Unido, onde um eixo pró-EUA se opõe àqueles que enfatizam a necessidade de uma colaboração mais estreita com a UE e a China. O governo do Reino Unido se envolve em uma diplomacia bastante patética do tipo “ainda-quero-ser-imperial” para sinalizar submissão aos interesses dos EUA [2], por exemplo, oferecendo asilo a dissidentes de Hong Kong, voltando “para casa”. Isso não pode diminuir a tensão econômica entre os EUA e o Reino Unido: a questão mais significativa é se o governo do Reino Unido vai reduzir o imposto de serviço digital (afetando grandes empresas dos EUA, como Google e Apple) e abrir ainda mais a agricultura e o setor de saúde do Reino Unido para os interesses estadunidenses. Os exemplos a seguir, tirados dos últimos meses, podem ilustrar das restrições e dependências materiais.

Serviços Financeiros

Este é um setor significativo no Reino Unido, que emprega cerca de 1 milhão de pessoas e contribui com cerca de 7% do PIB. Não é de se surpreender que o caráter global do setor se choca gravemente contra o plano do Brexit. Uma questão importante é se o setor financeiro do Reino Unido ainda pode lucrar com a “delegação”, ou seja, oferecer serviços financeiros na forma de gestão de fundos de hedge e ativos de empresas com sede na UE. Atualmente, £1,7 trilhão de ativos de investidores da UE são administrados no Reino Unido e a concorrência, em particular com bancos da França e dos EUA, está esquentando. Em 2015, seis dos dez maiores fundos de hedge do mundo foram listados como baseando sua gestão de recursos total ou conjuntamente fora do Reino Unido. Cinco anos depois, esse número caiu para três.

Setor Automotivo

A indústria automobilística ainda é o principal setor industrial do Reino Unido, empregando cerca de 180.000 pessoas e contribuindo com pouco menos de 1% do PIB. O setor é altamente dependente do comércio com a UE e o Japão. Cerca de 78% dos carros fabricados são exportados e mais de 50% das peças necessárias para a fabricação são importadas — principalmente da UE. Como mencionamos acima, o setor automobilístico foi duramente atingido pela crise e pela perspectiva do Brexit, que ameaça abalar as cadeias de suprimentos just-in-time. Durante 2020, a produção de automóveis deve cair 40%. Em setembro, durante o auge das negociações comerciais entre o Reino Unido e o Japão, a Nissan (principal fabricante de automóveis no Reino Unido) adiou a produção de seu novo modelo Qashqai até meados do próximo ano.

Indústria Química

A indústria química e farmacêutica é a segunda maior indústria do Reino Unido e foi igualmente abalada pela perspectiva do Brexit. Isso se deve principalmente ao trabalho burocrático adicional que se torna necessário caso as empresas químicas sediadas no Reino Unido abandonem os registros de segurança da UE (exigidos para o comércio internacional) e tenham que se registrar com o equivalente do Reino Unido, UK Reach. É provável que isso resulte em realocações, por exemplo: A fabricante de produtos químicos alemã BASF, que tem 10 pequenas fábricas no Reino Unido, cada uma empregando cerca de 100 pessoas, disse que a empresa teria cerca de 1.200 substâncias para registrar e calculou que o custo combinado seria em torno de £60 a £70 milhões. Os custos totais para a indústria são estimados em £1 bilhão.

Indústria Têxtil

Os casos da Covid-19 dispararam em Leicester e a cidade entrou em lockdown. As pessoas começaram a se perguntar qual era motivo e só então ouviram falar da nova indústria têxtil local. Leicester costumava ser uma cidade fabril, mas a maioria das fábricas têxteis foi fechada na década de 1970. Nas ruínas industriais, uma nova “economia de oficina” cresceu, estruturada por relações de tipo mafioso, fabricando roupas para grandes empresas de moda, como a Boohoo. Estima-se que cerca de 10.000 desses trabalhadores recebam cerca de £3,50 por hora, menos de meio salário mínimo. As más condições de trabalho e de vida contribuíram para o aumento de casos da Covid. “Prefiro fabricar em Bangladesh do que em Leicester, porque eles estão muito mais avançados [em termos de proteção trabalhista]”, disse o executivo-chefe da varejista Esprit em entrevista ao Financial Times. A Boohoo, que recebe um terço de seus suprimentos para seu negócio de roupas no valor de £5 bilhões de dentro do Reino Unido, anunciou que formalizará a economia de oficina e construirá uma fábrica de roupas local com 250 trabalhadores. Mesmo com os custos globais de transporte e, portanto, as importações provavelmente ficando mais caras, a competição com fornecedores sediados na Ásia exercerá uma grande pressão sobre os salários e as condições de trabalho.

Notas

[1] O legado do Novo Trabalhismo: Sob Blair e Brown, a participação das finanças na economia cresceu mais acentuadamente do que nos Estados Unidos, e a da indústria caiu mais abruptamente do que sob os Conservadores. A dívida hipotecária per capita era maior do que na América, e as desigualdades de renda e riqueza só aumentaram. Um quinto dos gastos públicos foi subcontratado ao setor privado; 90 por cento das despesas de capital em saúde. No ensino superior, a quant-mania deu um passo patológico ainda maiore com o Research Excellence Framework (ref). Em nome da Guerra ao Terror, a legislação repressiva se intensificou e o número de encarcerados aumentou. (…) Na política externa, o atlantismo tradicional do Trabalhismo assumiu uma nova reviravolta, uma hiper-subalternidade para os Estados Unidos em uma era em que os EUA se tornaram a única superpotência, cuja recompensa no exterior era uma soma imensamente maior de matança e tortura do que sob Macmillan, Thatcher ou Major: por si só, razão suficiente para o Novo Trabalhismo ser expulso do cargo.” (…) “Os governos de Blair-Brown viram uma contração contínua da indústria; regulamentação mais frouxa do sistema bancário; entradas ainda maiores de capital estrangeiro — a propriedade estrangeira de ações quadruplicando novamente; uma bolha imobiliária ainda mais distendida; e níveis mais elevados de endividamento das famílias. A essa altura, o balanço de pagamentos estava se deteriorando, junto com um maior aprofundamento da divisão regional entre Londres/Sudeste e o Norte. Depois de 2004, um aumento acentuado na imigração da UE ajudou a sustentar o modelo de crescimento de baixa qualificação/baixo salário da Ukania, poupando os custos de treinamento das empresas. Nos mesmos anos, a desigualdade aumentou novamente, para um coeficiente de Gini de 0,36, “seu nível mais alto desde que a série temporal comparável começou em 1961”. Resumindo o histórico do Novo Trabalhismo, uma pesquisa de 2007 observou que ele havia contado com uma farra de consumo para impulsionar a demanda, cuja ressaca ainda estava por vir, e “lavou as mãos para a crescente desigualdade”, com um conjunto de políticas que simplesmente “refinou e desenvolveu o thatcherismo que o precedeu (Perry Anderson: https://newleftreview.org/issues/II125/articles/perry-anderson-ukania-perpetua)
[2] Sobre o declínio do Reino Unido: “Na verdade, regressão lenta e bem amortecida ao status de subalterno: 1914-18, perda da liderança mundial; 1947-62, perda do império e em 1956 da soberania internacional; na década de 1980, a conversão da City em um centro de serviços para bancos estrangeiros, dissolvendo reconhecidamente a riqueza nacional em participações globais mais difusas; na década de 1990, rebaixamento do status regional com a reunificação da Alemanha; no novo século, do status global com a ascensão da China.” (Anderson)




Fonte: Passapalavra.info