Março 7, 2022
Do Reporter Popular
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Do Repórter Popular – Rio de Janeiro

Mais de três semanas após a tragédia do dia 15 de fevereiro que atingiu a cidade de Petrópolis, na serra do Rio de Janeiro, a população local segue sofrendo com as consequências sociais do evento. 

O Repórter Popular fez uma cobertura da localidade entre os dias 25 de fevereiro e 1º de março. O cenário de destruição se verifica em diversos pontos da cidade, especialmente nos locais mais afetados pelos deslizamentos.

Segundo boletim da Prefeitura divulgado na última sexta (04/03), já se somam 233 mortos, 4 ainda desaparecidos, e 1.118 pessoas desabrigadas. Relatos da população local, contudo, estimam que haja, na verdade, muito mais afetados do que as autoridades têm apontado, sobretudo porque óbitos por doenças como leptospirose e outras infecções, ainda que obviamente decorrentes da tragédia, não têm entrado nas contagens oficiais.

Diferente do que vem sendo divulgado pelo poder público e pela grande mídia, o desastre de Petrópolis não foi uma tragédia exclusivamente natural. Essas frequentes tragédias que atingem a serra fluminense — como ocorreu também em 2011 — e várias outras regiões Brasil afora — como as recentes enchentes de Ilhéus e arredores na Bahia — são resultados da falta de políticas públicas de urbanização, do desmatamento e da poluição desenfreados e suas consequências climáticas e ambientais, e da falta de investimentos preventivos por parte do poder público, como reflorestamentos, desassoreamento de rios e recuperação de encostas.

Foram esses fatores que levaram diversas entidades nacionais e locais nas áreas de arquitetura e urbanismo a classificar o que ocorreu em Petrópolis como uma “tragédia anunciada”, e que há de se repetir com cada vez mais frequência caso não sejam adotadas medidas efetivas. 

Estima-se que foram mais de 2.000 deslizamentos em Petrópolis
Morro da Oficina, um dos locais mais atingidos pela tragédia.

A Defesa Civil de Petrópolis, um dia antes da tragédia, chegou a ser advertida sobre fortes chuvas com risco de deslizamentos na região pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (Cemaden), Segundo Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física da Universidade de São Paulo, em entrevista à Folha de São Paulo, o poder público deveria ter evacuado a localidade assim que recebeu um aviso desses, o que não foi feito. As sirenes de evacuação da região só começaram a tocar com as chuvas já ocorrendo no dia 15, e ainda há relatos de insuficiência das sirenes e de infraestrutura de evacuação.

Uma das pessoas que perderam suas casas é Dominique, estudante de música da UFRJ, de 26 anos, e que morava no Alto da Serra, na Rua Caetano Salermo. Dominique teve sua casa tomada pela chuva, o que tornou o imóvel condenado e destruiu praticamente todos os seus bens, além de ter ferido seu gato, que só foi resgatado dois dias depois da tragédia. Dominique conta que teve que dormir em seu local de trabalho no dia do ocorrido, e que só conseguiu acesso a sua casa dias depois. Uma de suas vizinhas chegou a ser hospitalizada, mas acabou vindo a óbito na semana seguinte.

Rua Caetano Salermo, onde Dominique morava.

Dominique é militante da Resistência Popular Estudantil – RJ, e afirma que o desastre é um reflexo de como o capital e a especulação imobiliária são assassinos. “Ninguém mora em uma área de risco porque quer. A gente mora em um lugar de risco porque não tem opção, e a gente fica lidando com esse pesadelo durante nosso cotidiano e uma hora a tragédia acontece. O que eu vejo diante de tudo isso que aconteceu é que apenas o povo tá pelo povo, ninguém mais, porque é muito fácil para os políticos darem a cara quando chega a verba, mas no olho do furacão só quem estava era o povo”, desabafou a estudante.

Morro da Oficina, um dos locais mais atingidos pela tragédia.

Para além da responsabilidade pelo ocorrido, o poder público e a sanha capitalista vêm de diversas formas agravando ainda mais o problema. As equipes de resgate disponibilizadas tanto pelo município quanto pelo governo estadual, através do Corpo de Bombeiros, foram absolutamente insuficientes. Praticamente não houve nenhum esforço do poder público em resgatar sobreviventes assim que a tragédia ocorreu, e até hoje seguem corpos pendentes de serem resgatados das áreas de deslizamento. 

No mais, não há qualquer perspectiva de realocação das famílias desabrigadas, apenas uma promessa de disponibilização do valor de R$ 1.000,00 a título de aluguel social, após toda uma enorme burocracia de cadastro, perícia técnica da Defesa Civil e liberação da verba. Enquanto isso, os preços de alimentos, materiais de construção e mesmo de imóveis para alugar na cidade vêm subindo consideravelmente. Pela falta de alternativas, várias famílias, que têm sido abrigadas em escolas públicas, vêm retornando às suas casas, mesmo que em áreas de iminente risco de novas tragédias.

Desde o desastre, o que vem garantindo a sobrevivência das vítimas são as diversas iniciativas de solidariedade sendo promovidas pela população local e por voluntários que foram à cidade para ajudar. Dominique relata que não teve qualquer ajuda do poder público desde que perdeu sua casa, tendo contado apenas com amigos, vizinhos e conhecidos desde do resgate de seu gato e seus pertences que não foram destruídos, bem como estando abrigada de favor em uma pousada em que um amigo trabalha. 

Apesar de toda a adversidade que está passando, Dominique se dispôs logo após a tragédia a estar ajudando outras vítimas. “Eu me propus a me manter ocupada com as urgências. Entrei em contato com alguns amigos meus que estavam ajudando os pontos de apoio levando de moto doações para as vítimas que estavam em locais sem acesso a carro. Levamos cestas básicas, quentinhas, itens de higiene, água e mesmo velas e fósforos, em locais que ficaram sem luz. Em alguns locais nem era possível chegar de moto, e aí tínhamos que descer para seguir a pé”, relatou a estudante.

Militante da Campanha de Luta por Vida Digna e da Resistência Popular Estudantil – RJ apoiando um ponto de recebimento e escoamento de doações.

São diversos os pontos de apoio espalhados pela cidade recebendo, organizando e escoando doações e abrigando famílias que perderam as suas casas, sendo o protagonismo nesta logística principalmente de voluntários e moradores da região, mas contando também com igrejas, ONGs, brigadistas e agentes públicos. Em um desses pontos, em uma escola pública, está abrigado Jonatã, atendente de padaria, de 19 anos, e sua família, que também perderam sua casa no Morro da Oficina. 

O jovem conta que o Estado deu um prazo de 60 dias para receberem o valor do aluguel social, e que praticamente toda ajuda que têm recebido até agora vem sendo de doações e ajuda de voluntários. Relata ainda que há uma pressão por parte do poder público para que ele e sua família deixem logo o abrigo, tendo eles sido até pressionados a se realocarem em outra localidade de risco.

“Nossa situação está muito difícil. Cada dia que eu acordo e lembro que a gente tá sem um lugar pra ficar, é meio desesperador pra a gente, pra minha família”, desabafou Jonatã.

A alternativa, como sempre, foi a solidariedade do próprio povo. Foram muitas também as doações que campanhas de solidariedade arrecadaram e destinaram à cidade. Destaca-se a importância que os motoboys vêm tendo no deslocamento de doações pela cidade, especialmente assim que o desastre aconteceu e quando, por conta dos escombros e do barro nas ruas, em certos locais só era possível chegar de moto.

A Campanha de Luta por Vida Digna arrecadou doações na cidade do Rio de Janeiro e levou a Petrópolis, bem como teve integrantes trabalhando por cinco dias nos pontos de apoio da cidade.




Fonte: Reporterpopular.com.br