Julho 14, 2021
Do Passa Palavra
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Por Legume Lucas

Desde que Bolsonaro chegou ao poder somos cotidianamente bombardeados com pautas e ataques que ganham senso de urgência. Em uma semana são pelo menos cinco questões que tomam as redes e exigem o nosso posicionamento. Em geral, a resposta da esquerda tem sido a grande comoção nas redes, mas, devido aos frangalhos organizacionais em que se encontra, pouco estava sendo feito de prático para que esses ataques fossem interrompidos. Parecemos em alguma medida viciados na adrenalina de indignação que a situação atual nos proporciona. A coisa parece ter mudado um pouco nos últimos meses. Sinto isso na minha vida cotidiana, com diferentes pessoas me repetindo a mesma pergunta: “Você vai no ato?” São pessoas variadas, amigos, colegas de trabalho, familiares; em geral identificados com a esquerda. Todas as vezes que me perguntam, me ponho a pensar sobre ir ou não no ato. Escrevo este texto para compartilhar algumas reflexões sobre o assunto.

Me parece claro que retirar Bolsonaro do poder é uma tarefa urgente. Cada momento em que ele continua lá, aumenta a possibilidade de transformação de um governo fascistizante num regime fascista. E embora ainda pareça faltar ao presidente um movimento de massas próprio, ele parece continuar tentando cria-lo. Foi assim com sua aproximação aos caminhoneiros; com o incentivo às manifestações pela abertura do comércio, que uniam trabalhadores e donos de lojas; continua sendo assim quando organiza motociatas na tentativa de se aproximar esteticamente da mobilização dos motoboys. Mesmo que nenhum desses ensaios tenha logrado êxito em constituir aquele movimento, há que se perguntar se a inserção do bolsonarismo nas forças policiais e militares, associada a elementos populares distintos, já não configuram bases suficientes para uma ação radical do presidente. Embora, até o momento, a resposta me pareça negativa, não tenho dúvidas que a agitação dessa base tende a se radicalizar fortemente em 2022, tendendo a chegar a um ponto sem retorno.

Deveria ser desnecessário dizer que isso seria terrível não apenas para a “esquerda institucional”, mas também para todos aqueles que pretendem fomentar a organização autônoma dos trabalhadores, uma vez que o fascismo trabalha para destruir de vez essa capacidade de ação. Uma viragem radical do bolsonarismo implicaria a destruição das poucas capacidades de articulação e resistência de classe que existem hoje, um aprofundamento da derrota em que os movimentos dos trabalhadores se encontram. O atual estado das organizações de esquerda também me leva a acreditar que elas seriam facilmente destruídas por um regime mais repressivo, seja pela falta de autodisciplina, seja pelo excesso de exposição nas redes a que ficaram viciadas.

Partindo dessas constatações, derrotar o bolsonarismo se apresenta como desafio fundamental para todo militante de esquerda (não importando qual seja a concepção de esquerda que você adote). O que se coloca como questão então é o que significa derrotar o bolsonarismo.

Neste sentido, ir às ruas é importante para demonstrar que a maioria da população se opõe ao governo e exige que o presidente saia. Afinal, sua atuação durante a pandemia contribuiu ativamente para a morte das pessoas, especialmente dos setores mais precarizados da classe trabalhadora. No mesmo sentido faz-se necessário não deixar a rua ser monopolizada pelos grupos de extrema-direita; e como as manifestações pautam a imprensa, isto aumenta o desgaste do governo. Indo mais longe, é possível argumentar que, ao focar no uso de máscaras pff2 nas manifestações –- como tem sido feito em diferentes cidades -–, se contribui para a divulgação de medidas de segurança que realmente podem ser eficazes na mitigação da pandemia, não apenas nas manifestações, mas no país inteiro. Ainda cabe destacar importantes iniciativas de relacionar o aumento do custo de vida e o empobrecimento da massa trabalhadora com as ações de Bolsonaro, buscando conferir um caráter de classe aos atos.

Ao mesmo tempo, cabe perguntar em que medida as manifestações conseguem influir na desconstrução do bolsonarismo. Pelo que tenho acompanhado, parecem repetir alguns roteiros muito engessados: as falas são centralizadas nos carros de som, escolhidas pela composição de forças que oficialmente convoca os atos; a manifestação se divide em blocos dos partidos e movimentos, que por vezes terminam tendo a função de reforçar as identidades desses mesmos, com suas bandeiras próprias, cantos próprios e até baterias próprias. Esse ir à rua como um reforço da própria identidade vale tanto para a esquerda tradicional quanto para os “blocos autônomos”.

As recentes disputas por qual seria o grupo que fica na frente do ato e, portanto, qual seria a pauta mais destacada, são apenas mais um capítulo de uma forma de organização que sempre levará a este tipo de problemas. Muito se pode argumentar sobre como cada pauta é a mais urgente e a que mais explicita os ataques feitos pelo governo. Entretanto, a prática emula a disputa feita nas redes sociais por hashtags, reforça identidades militantes específicas e cria a disputa por uma foto mais bonita.

Para algumas das lideranças, o foco aparenta ser a construção de si mesmos como figuras de relevo. Isso explicaria a concentração de horas com falas alternadas, explicaria também o fato de terem marcado inicialmente atos com mais de um mês de intervalo. Não fica muito claro qual é a estratégia para derrubar o presidente a partir desses atos. Em alguma medida lembra a tática do MBL e do Vem pra Rua para derrubar Dilma Roussef: focar-se em grandes atos festivos que se assemelham a comícios e com um apoio generalizado da imprensa, para a partir daí pressionar o Congresso. Evidentemente, não foi só isso que derrubou Dilma Roussef, tendo os parlamentares agido claramente em interesse próprio. Será que cabe à esquerda emular a estratégia que a direita utilizou?

Ainda enredados no mesmo roteiro estão as críticas que setores da esquerda, junto com liberais contra o Bolsonaro, fazem a ações de destruição de propriedade e as denúncias feitas pelo “bloco autônomo” em relação à comissão de segurança do MTST desfazer barricadas. Pode questionar-se a efetividade de fazer uma barricada no meio de um ato no sábado. Qual fluxo se pretendia interromper com ela? Em que ela permitiria uma radicalização da manifestação? Quem esperava que se radicalizasse? Será que existe uma esperança que setores da esquerda que sempre prezaram por manter as manifestações e bases sob controle tenham aprendido que isso pode fortalecer a direita? Nesse sentido ambos falam em aprender com 2013, porém os campos tiraram lições opostas. Enquanto uns acham que a repressão feita pelos governos da época abriu caminho para a direita, os que coordenam as manifestações pensam que falta de controle daquelas manifestações foi o que permitiu o fortalecimento da direita, e se negam a reconhecer a que a destruição de propriedade privada naquele contexto contou com uma grande aprovação popular. Em comum nenhuma delas olha para os equívocos de seu próprio campo, assim como ambas se consideram a verdadeira leitora da vontade popular.

Há que se pensar em que medida tem sido feito um esforço para falar para fora das próprias manifestações; para propor ações que permitam que pessoas nas ruas, que não estão lá para a manifestação, se engajem nela. Pelo que pude observar, são pouquíssimos os panfletos distribuídos para a população, e também não me pareceu existir uma preocupação de que as pessoas que estão na rua adiram à manifestação. Em alguma medida, o próprio chamado da manifestação dificulta tal adesão, já que o ato em pleno sábado assume o papel de ocupação do tempo livre e não de interrupção da vida normal. É perfeitamente possível a pessoa se submeter a um trabalho que não segue os protocolos de higiene nos dias de semana, e a ir à manifestação no sábado respeitando todos os protocolos. A mencionada distribuição de máscaras na rua poderia ser um caminho para a articulação do ato com o cotidiano dos trabalhadores que se expõem ao vírus, mas para isso precisaria ser algo voltado não apenas aos manifestantes. Entretanto, é uma iniciativa muito pontual. A questão que fica para mim é a seguinte: se os ataques feito por Bolsonaro ao conjunto dos trabalhadores é cotidiano, como podemos romper com esse cotidiano? Apenas respondendo a essa pergunta poderemos derrotar o que permitiu o bolsonarismo ganhar força.

Anos atrás um camarada militante escreveu um texto que me marcou muito. Ele dizia que sair do roteiro é uma obrigação de quem quer vencer. Interpreto isso, não sozinho evidentemente, como a necessidade de olhar para as nossas experiências anteriores e ao mesmo tempo evitar repetir as práticas, sermos criativos e críticos ao mesmo tempo. Parece ser isso que tem nos faltado nos últimos anos.

A fotografia de destaque, só um detalhe, é de Emil Heilborn (1900-2003) e as outras duas são de René Maltête (1930-2000).




Fonte: Passapalavra.info