Novembro 16, 2020
Do Anarcha-RadFem Br
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Entendo que muito o que foi replicado na internet favorece, de maneira quase totalitária, a discursos antagônicos de uma pressuposta teoria que defende o gênero, mas vou tentar “começar desde o zero” e assim tentar explicar o que houve.

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JK está cansada de ser mal interpretada. Apenas PA-REM.

Gênero é entendido como um sistema hierárquico e tanto eu, quanto você fomos vítimas deste sistema que promove isso. É através desse sistema que entendemos que homens devem responder a um determinado padrão imposto por determinados grupos de poder, sejam eles instituições religiosas (de ascendência judeu-cristã), ou de grupos de poder (monarquias, repúblicas, sistemas capitalistas, grandes indústrias, etc.). Para esse sistema o homem deve ser “macho”, agressivo, ser o provedor da família, não demonstrar sentimentos, não ser partícipe das atividades domésticas, deve se interessar por guerra, pela submissão dos povos, por violações e estupros, por domínios e conquistas. Exige-se do homem que ele se case com uma mulher e assim, tenham filhos que são vistos como propriedade do homem, a quem ele deixará seu legado e herança. É por conta desse entendimento de gênero que vemos como homens são violentos contra tudo o que possa existir na face da Terra. São os mesmos que entendem que filhos e filhas são posse e por tanto, devem ser tratados como tal e não como seres conscientes. Gênero não é biológico, é uma construção socio-cultural que nos é imposta a todos. Não sabemos em qual momento da história deu-se a divisão sexual do trabalho, apenas temos alguns apontamentos como de Margaret Mead que diz que essa divisão foi feita a partir da diferença em questão de força física entre os sexos. Mas veja bem, as mulheres não são inferiores biologicamente dos homens. Somos diferentes. E isso também responde a uma “razão de ser” (biológica) e que foi propositalmente usada para explicar a inferioridade feminina e assim, nos manter presas ao servilismo.

É também entendimento do sistema heteronormativo que a mulher exerça outro papel de “gênero”: que ela seja educada para ser serviçal e obediente. Que ela não almeje muito pois poderá ferir o ego e assim suplantá-lo em seus poderes e vivências. À mulher, por termos a capacidade reprodutiva, espera-se que ela seja a provedora de filhos, que gere abundante descendência ao homem. E isso também advém desde os anos feudais, quando era “necessário” o povoamento dos feudos. Mulheres foram as primeiras escravas, porque enquanto não férteis ou eram mortas, ou condenadas ao isolamento, sendo punidas por “bruxas” ou “defeituosas”. Mas jamais questionaram se tais homens eram também férteis. Sabemos pela ciência que para que um feto seja gerado, é necessário o cruzamento de um óvulo e um espermatozoide, mas sempre foi culpa da mulher a incapacidade de gerar filhos ao dono das terras, do feudo.

E quem saia desse padrão estabelecido, o heteronormativo? Eram e são até hoje considerados por uma ala preconceituosa, fanática e cega como aberrações. É impossível que existam homens e mulheres homossexuais em uma sociedade erigida baixo os costumes cristãos que prevê na mulher a fonte de produção de mão de obra e no homem que ele seja o chefe da família.

Não são poucos os casos em que homens que foram contra a norma estabelecida, e devocionaram seu amor a outro homem, foram mortos e/ou estuprados por outros homens. Condenados a todo tipo de violência física e moral, chamados, qualificados e estigmatizados por “sodomitas” e quando não submetidos a castração química e física. Ainda há a prática do bestialismo nas zonas afastadas das grandes cidades e centros, onde pais ainda levam seus filhos homens para iniciarem sua vida sexual, forçosamente, com animais. Não é esse o tipo de cultura que queremos. Queremos onde homens sejam livres o suficiente para poderem sim amar outros homens sem ter medo de sofrer represálias por parte de uma sociedade hipócrita.

Luísa Marilac, em seu livro, comenta o que é o gênero (se puder, leia). Ela não nasceu mulher e nunca foi mulher. Era um menino que não teve pai, sua mãe era fonte de abuso e violência física, foi um filho indesejado, nunca teve amor daquela que o trouxe a este mundo. Foi estuprado, ainda criança, por um homem e a mãe se recusou em acreditar na versão dele. Quantas situações violentas meninos não vivem a diário por parte de homens também violentos? Anos depois foi novamente vítima de um pastor de igreja, que logo após de pregar todas suas hipocrisias para seus crentes, abusava de um menor nos banheiros da igreja que frequentavam. A resposta é sempre a mesma, a situação também é. Crianças são submetidas a toda prática violenta por parte de adultos irresponsáveis e que também, em seu momento, foram vítimas, silenciados e possivelmente censurados.

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Luísa acabou sendo expulsa de casa pela própria mãe e foi morar com uma tia em São Paulo. Conheceu a rua porque em sua cabeça não existia amor, nem espaço para um amor entre homens. Se o estupraram enquanto menino, então ele não podia ser menino. Ele deveria ser menina. Entende o doentio que chega a ser? Normalizar a violência sexual a tal ponto de fazer uma criança acreditar que ela é a culpada ou que ela nasceu em corpo errado? Que ela não pode crescer e finalmente viver sua sexualidade de maneira plena, sem violência física no meio?

Agora sobre como tudo isso entrou num vórtice de violência física e moral e também censura de debates.

J. K. não desqualificou a existência de pessoas trans. De fato, a disforia é um tema muito pouco documentado graças a grande massa raivosa e lacradora que impede qualquer avanço a nível científico. A disforia como tal é uma questão a nível psicológico e deveria requerer tratamento psicológico, não para “converter” a pessoa em um “gênero”, mas sim tentar solucionar e fazer entender o que há por trás dessa disforia.

Garotas jovens que recém estão se entendendo como lésbicas, estão sendo levadas a acreditar que neste mundo doentio só há espaço para pessoas heterossexuais. Então são submetidas a todo tipo de tratamento cruel por parte da indústria médico-farmacêutica, como a mastectomia desnecessária, terapia hormonal que tem sérios efeitos colaterais e a longo prazo são irreversíveis e a sim conversão de uma garota lésbica, homossexual em um sujeito “heterossexual”.

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Por que não conseguimos questionar de onde nasce esse ódio aos seios, essa aversão sem limites a um órgão saudável e que tem sua função no nosso organismo? Pois, eu te digo: a aversão, o nojo, o ódio nasce da hipersexualização desse órgão por parte dos homens. Sem ir longe, é prática comum, ainda em alguns países africanos, que as mães apertem com objetos pesados e quentes os seios de suas filhas, tudo isso para evitar os olhares dos homens e que eles entendam que a garota, ou menina, já está em idade sexual. Seios são “convite” para homens, assim como as nádegas. Não por nada, após o boom do silicone, vemos hoje em dia também outra indústria doentia, como é a estética. Por que não aceitamos nossos corpos como são, não os amamos como eles são? Quem nos impôs essa ideia de “defeito”? Quantas senhoras de idade você não vê que estão se submetendo a terapias com botox para parecerem mais jovens? Quantas garotas que mal terminaram seu crescimento e desenvolvimento corporal já pensam em silicone?

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Mães, que ao seu modo, protegem suas filhas frente aos predadores sexuais.

A mastectomia foi e era até então, uma cirurgia somente indicada em casos extremos de câncer de mama, que evitaria a propagação de células cancerígenas no nosso corpo, mas virou “terapia” para meninas que se recusam em performar feminilidade e se adequarem ao padrão heteronormativo. Até que ponto tudo isso não está interligado com o crescimento do consumo de material pornográfico de pedofilia e até mesmo as práticas incestuosas e violentas contra crianças? Garanto que se você perguntar a alguma mulher se ela foi vítima ou se lembra de algum caso de assédio enquanto era adolescente ou mesmo criança, ela poderá relatar vários casos ou deve saber quem sim vivenciou alguma experiência traumática.

É disso que JK estava falando e também do avanço das estratégias de apagamento do sexo como categoria material. Precisamos entender que agora virou sim uma moda e muito cruel ver meninas virando “homens” quando são apenas meninas que não querem ser femininas e que a feminilidade nos é imposta pela sociedade. Não é algo “inato” das mulheres. Quantas bebês você não vê cujas mães já as adornam com laços, brincos, vestidinhos? Isso é o papel de gênero, é adestrar desde a mais tenra idade o ser humano em formação, impedindo que ele tome suas próprias decisões a futuro.

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Aqui no Brasil estamos avançando de maneira sombria e a passos rápidos os projetos de hormonização infantil, retardando o bom e perfeito crescimento das crianças, retirando-lhes o mínimo de dignidade como seres humanos, impedindo que possam crescer de maneira saudável. Administram bloqueadores de puberdade, que são hormônios, a crianças que não têm ainda discernimento nem consciência ou experiência de mundo. Nós passamos por essa idade. Por que com essa geração estamos exigindo que eles se adéquem a uma sociedade homofóbica, quando eles são a própria resistência? Por que ainda expulsamos meninos gays de casa e os condenamos às ruas, a que morram nas mãos de homens violentos e assassinos?

JK não é contra pessoas trans. Ela apenas está questionando o porquê de tantos homens terem se tornado mulheres da noite para o dia, sem o mínimo de esforço. Por que alguns se recusam em fazer “terapias hormonais” e a retirar seus órgãos genitais? Por que o interesse desses sujeitos em se relacionarem com mulheres estritamente lésbicas? Uma rápida olhada naquele chernobyl de Twitter conseguimos ver o quão sádicos, perversos e psicopatas são esses sujeitos que ameaçam toda e qualquer mulher que resiste aos avanços deles em nossos espaços.

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A mulher negra é a mais oprimida entre todas. Um homem que se identifica como mulher deseja a morte de uma mulher real e preta.

São justamente essas pessoas quem promovem o apagamento, silenciamento e exclusão da categoria “mulher” como ente conformado pela biologia. Ao tentarem apagar o sexo e assim, deslegitimizar a origem da nossa opressão enquanto mulheres, estão permitindo nos apagarem das inúmeras estatísticas e estudos. Coloco um exemplo: crimes contra mulheres (feminicídios), deixarão de ser contatos por e exclusivamente como ataques feitos de homens a mulheres, independente do fator motivante. Pode ser por ciumes do companheiro, pode ser por ausência do homem dentro de casa e essa mulher vir a requerer o divórcio e o homem não aceitar tal decisão da mulher (o orgulho e o ego ferido masculino impede que ele veja a mulher como um ser humano, mulheres são tratadas como “posse” e isso advém desde anos feudais onde era rito e prática comum “aceita” o prima nocte), pode ser a recusa dela em querer ser companheira dele ou a se submeter a algum tipo de assédio por parte de homens. Quantos casos não vemos de “boa noite, Cinderela” praticados por homens com o único intuito de estuprar mulheres e assim realizar suas perversões e fetiches?

O apagamento da categoria mulher promove a total quebra das nossas vivências e garantias conquistadas a duras penas. Já não poderemos falar de violência obstétrica, já que até “mãe” foi considerado transfóbico, não poderemos falar sobre estupro marital, abandono paterno, alienação parental, estupro de vulneráveis porque o sujeito agora se identifica como mulher. Isso sem dizer a questão dos esportes, onde atletas medíocres que jamais ganharam ou conquistaram grandes méritos ou prêmios, agora como mulheres, não só espancam condenando à morte (como Fallon Fox, que deixou a duas mulheres hospitalizadas em estado grave após terem lutado contra ele), mas também retirando de jovens garotas o acesso à educação e a bolsas de estudo (como CeCe Telfer, que bateu todos os recordes de atletismo, mas que enquanto homem jamais teve bons números, nem pontuações).

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Cece Telfer.

Quem está promovendo tudo isso?

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JK pode ser de direita, podre de rica… mas veja bem. Até o ex-marido dela surgiu das cinzas para dizer que não estava nem um pouco arrependido em ter esbofeteado ela há anos atrás. Ela teve que esconder seu nome, seu sexo para conseguir que algum editor e algum grupo editorial lessem sua obra. O que é isso senão o velho machismo de sempre? Por que estamos cancelando novamente uma mulher ao invés de fazer as perguntas certas? Qual o nosso dever, como pessoas do meio das Ciências Humanas senão questionar essas novas gerações? Por que devemos aceitar tudo o que nos é imposto, calados?

O capitalismo fez e continua fazendo das suas, a tal ponto em que estamos completamente embrutecidos e sem capacidade alguma em questionar, dialogar, buscar a informação. A avalanche de “fake news” proporcionada pelos partidos nos fez mais pobres e miseráveis. Não conseguimos ler, não conseguimos interpretar. Ficamos apenas com o que nos deram e engolimos seco, achando que aquilo será a resposta para nossas dores, quando elas promovem outras, cada vez piores. E nada, nem ninguém conseguiu frear o aumento no número de suicídios, principalmente de garotas jovens. Estamos mutilando meninas, garotas, mulheres. Estamos condenando uma população a acreditar que não há espaço para lésbicas, que a misoginia é palavra de ordem e que homens podem tudo, sem medo, sem culpas. Por que não questionamos o sistema — sistema mesmo, não “cistema” porque ninguém é nem estamos de acordo com os padrões heteronormativos impostos — que nos oprime a todos nós, em todos os setores, países e meios?

JK é apenas uma mulher. Assim como eu.

Por que continuamos perseguindo e massacrando, de todos os modos as mulheres? Por que não podemos existir e co-existir?

Nos condenam de tudo, nos ofendem por tudo… somos chamadas de “racha”, de “cheiro de bacalhau”, de parideiras, de cornas… qual é a origem desse ódio? Será que não temos direito a falar sobre nossas experiências? Por que a sociedade ainda insiste nesse modelo machista e heteronormativo para readequar as pessoas?

Por que estamos normalizando ações violentas, frequentes e cada vez mais e mais escancaradas contra mulheres em prol de uma “inclusão”? Afinal, de quem é o padrão violento de perseguir e ameaçar de estupro e morte, senão de homens heterossexuais e com ego frágil que não admitem nem a tua, como homem gay, nem a minha existência, como mulher?

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*Este texto foi em resposta a um homem gay. Foram adicionados links de referência que no e-mail em resposta não foram.



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Fonte: Radfembr.noblogs.org