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A crescente animosidade entre a Rússia e a Ucrânia torna cada dia mais difícil chegar a um acordo sobre um cessar-fogo.

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, persiste na intervenção militar alegando que está libertando a Ucrânia de um regime que, como os fascistas, mata seu próprio povo (1).

O presidente da Ucrânia Volodymyr Zelenskyy mobiliza toda a população para lutar contra a agressão e diz que os russos se comportam como nazistas quando matam civis.

A grande media ucraniana e russa usa propaganda militar para chamar o outro lado de nazistas ou fascistas, apontando para seus abusos militaristas e dos grupos de extrema-direita.

Argumentos deste tipo estão simplesmente defendendo que as acções bélicas que conduzem é uma “guerra justa”, demonizando os seus inimigos, entrincheirados numa cultura política arcaica.

Claro que sabemos que uma “guerra justa” é algo que, em princípio, não pode existir porque a primeira vítima da guerra é a verdade, e qualquer versão dessa justiça sem verdade não passa de um insulto.

A ideia de levar a cabo matanças e destruição em massa como forma de alcançar a justiça está para além da sanidade mental. Mas o conhecimento de modos de vida não violentos eficazes e a visão de um planeta futuro melhor, sem exércitos e fronteiras, fazem parte da cultura de paz. Contudo, este conhecimento e visão não se espalharam o suficiente mesmo nas sociedades mais desenvolvidas, e muito menos na Rússia e na Ucrânia, Estados que ainda têm “serviço militar obrigatório” e dão às crianças uma educação militar patriótica em vez de promoverem uma educação para a paz para a cidadania.

A cultura da paz, que tem tido tão pouco investimento e que tem sido tão pouco divulgada, luta para lidar com a cultura arcaica da violência, baseada em velhas ideias sangrentas de que o Poder está certo e a melhor política é sempre a de “dividir para reinar”.

Essas ideias da cultura da violência são provavelmente ainda mais antigas do que os fascios, o antigo símbolo romano de poder, representado por um feixe de varas com um machado no meio, instrumentos utilizados para o açoitamento e decapitação, e símbolo de força na unidade: a ideia é que podemos facilmente quebrar cada vara isoladamente mas não o conseguiremos fazer se elas estiverem juntas (2).

Num sentido extremo, os fascios são uma metáfora para reunir violentamente pessoas descartáveis, privando-as de individualidade. É o modelo de governança por pau. Não pela razão e por incentivos, como sucederia com a governança não-violenta numa cultura de paz.

Essa metáfora dos fascios está muito próxima do pensamento militar, da moral dos assassinos que derruba os mandamentos morais contra a matança. Quando somos recrutados para a guerra, devemos estar obcecados com a ilusão de que todos “nós” devemos lutar, e de que todos “eles” devem perecer.

É por isso que o regime de Putin elimina cruelmente qualquer oposição política à sua máquina de guerra, prendendo milhares de manifestantes antiguerra.

É por isso que a Rússia e os países da OTAN proibiram a media um do outro (3).

É por isso que os nacionalistas ucranianos tentaram arduamente proibir o uso público da língua russa (4).

É por isso que a propaganda ucraniana contará um conto de fadas sobre como toda a população se tornou um exército na guerra popular e ignorará silenciosamente milhões de refugiados, pessoas deslocadas internamente e homens entre 18 e 60 anos que se escondem do recrutamento militar obrigatório quando são proibidos de deixar o país.

É por isso que as pessoas que amam a paz, e não as elites que lucram com a guerra, sofrem mais de todos os lados como resultado de hostilidades, sanções económicas e da histeria discriminatória.

A política militarista na Rússia, Ucrânia e países da OTAN têm algumas semelhanças tanto na ideologia quanto nas práticas com os regimes totalitários terrivelmente violentos de Mussolini e Hitler. É claro que tais semelhanças não são desculpa para qualquer guerra ou banalização dos crimes nazistas e fascistas.

Essas semelhanças são mais amplas do que a identidade manifestamente neonazista, apesar do facto de que algumas das unidades militares deste tipo lutaram tanto do lado ucraniano (Azov, Setor Direita) como do lado russo (Varyag, Unidade Nacional Russa).

No sentido mais amplo, a política fascista está tentando transformar todo o povo numa máquina de guerra. Aparecem assim as falsas massas monolíticas, supostamente unidas na pulsão vital para combater um inimigo comum, que todos os militaristas em todos os países do mundo estão tentando construir.

Para se comportar como fascistas, basta terem um exército e todas as coisas relacionadas ao exército: identidade compulsivamente unificada, única, um inimigo existencial, a preparação para a guerra inevitável. O inimigo não precisa necessariamente serem judeus, comunistas e pervertidos; pode ser qualquer pessoa real ou imaginária.

A sua beligerância monolítica não precisa ser inspirada necessariamente por um líder autoritário; pode ser uma mensagem de ódio e um apelo à guerra por inúmeras vozes autoritárias. E coisas como usar suásticas, marchar com tochas e outras encenações históricas são opcionais e dificilmente relevantes. Os Estados Unidos parecem um estado fascista porque há dois relevos escultóricos de fascies no Salão da Câmara dos Deputados? Claro que não; é apenas um artefato histórico.

Mas os Estados Unidos, a Rússia e a Ucrânia assemelham-se um pouco com os estados fascistas porque todos os eles estão prontos para a usar as suas forças militares para buscar a soberania absoluta, ou seja, para fazerem o que quiserem em seu território ou esfera de influência, como se o poder exercido pela força das armas estivesse certo.

Além disso, todos os três pretendem ser estados-nação, o que significa criar uma unidade monolítica do povo sob uma mesma cultura que vive sob um governo todo-poderoso dentro de fronteiras geográficas estritas e que, por isso, não pode ter conflitos armados internos ou externos. O estado-nação é provavelmente o modelo de paz mais idiota e irreal que alguém conseguiu imaginar, mas ainda é o modelo convencional.

Em vez de repensarmos criticamente os conceitos arcaicos da soberania vestfaliana e do estado-nação wilsoniano, cujas falhas foram reveladas pela política nazi e fascista, tomamos ainda hoje esses conceitos como indiscutíveis e colocamos toda a culpa da Segunda Guerra Mundial em dois ditadores mortos e no bando de seus seguidores.

Não é por acaso que sempre encontramos fascistas por perto e travamos guerras contra eles, comportando-nos como eles de acordo com as teorias políticas que eles também adoptaram, mas tentando-nos convencer de que somos melhores do que eles.

Para resolver o atual conflito militar bipolar, Ocidente versus Oriente e Rússia versus Ucrânia, bem como parar qualquer guerra e evitar guerras no futuro, devemos usar técnicas de política não-violenta, desenvolver uma cultura de paz e fornecer acesso à educação para a paz às próximas gerações. Devemos parar de seguir a política de atirar e começar a falar para, em vez disso, dizer a verdade, entendermo-nos uns aos outros e agir pelo bem comum sem prejudicar ninguém. Justificações de violência contra qualquer povo, mesmo aqueles que se comportam como nazis ou fascistas, não ajudam a resolver os problemas. Será sempre melhor resistir a esse comportamento errado sem recorrer à violência e as ajudar pessoas militaristas equivocadas a compreender os benefícios da não-violência organizada. Quando o conhecimento e as práticas efectivas de vida pacífica forem disseminados, e todas as formas de violência forem limitadas a um mínimo realista, as pessoas da Terra ficarão imunes à doença da guerra.

Por Yurii Sheliazhenko, in World BEYOND War, 15 de março de 2022

Yurii é ucraniano e vive hoje em Kiev. É secretário executivo do Movimento Pacifista Ucraniano e membro do Secretariado Europeu dos Objectores de Consciência. Ele obteve um Mestrado em Mediação e Gestão de Conflitos em 2021 e um Mestrado em Direito em 2016 na Universidade KROK. Além de participar no movimento pela paz, é jornalista, bloguista defensor dos direitos humanos, jurista, autor de publicações académicas e conferencista em teoria e história jurídicas.

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(1) Putin refere-se à forma como o Estado ucraniano conduziu a repressão aos opositores e, em especial, os alinhados com o regime russófilo deposto, da chamada «revolução da dignidade» em 2014, que foi conduzida por neo-fascistas com apoio declarado dos EUA, acabando por conduzir a uma situação de guerra não-declarada desde então e à proclamação das repúblicas do Dombas (nota do tradutor).

(2) O fascio, símbolo usado na Roma antiga, foi adoptado pelo Partido Nacional Fascista italiano (n.t.).

(3) E criminalizam, perseguem, prendem e torturam todos aqueles que, como o jornalista Julian Assange, apresenta ao público a verdade insufismável dos factos através da divulgação de documentos oficiais e informações mantidas secretas pelos governos que assim se furtam do julgamento público dos seus actos e dos actos das oligarquias que defendem (n.t.).

(4) Esta proibição ficou estabelecida na lei.




Fonte: Aideiablog.wordpress.com