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Falemos da Esquerda que, como a Direita, é plural e resulta sobretudo das práticas tribunícias parlamentares. A Montagne e a Plaine, Girondinos contra Jacobinos, Conservadores versus Liberais ou Trabalhistas, Republicanos e Democratas, Cartistas contra Constitucionalistas, e tantos outros exemplos.

A partir da abertura da “questão social”, por meados do século XIX, o republicanismo foi, pouco a pouco, cedendo o seu lugar “de esquerda” ao “socialismo”. Proudhon, Marx ou Lenin foram nomes citados com alguma frequência nessas bancadas da esquerda do hemiciclo assemblear ou nos palanques donde os líderes falavam às massas em manifestação de protesto.

Mas à sua direita, exasperado com a inoperância do liberalismo político e no quadro de desespero gerado por uma terrível Guerra e uma não menos desastrosa Depressão econômica, acirraram-se as hostes ultramontanas e nacionalistas. Nasceram então os fasci e os yugo y flechas de arruaceiros e falangistas, os Sturm Aabteilung (SA) e outras suas pálidas cópias, que instalaram a violência nas ruas e massificaram a adoração irracional ao “Chefe”. Agora, num contexto de contraditória abundância-e-desespero, reaparecem manifestações deste tipo. Quem havia de dizer…

O “radicalismo” partidário (republicano e laico) ainda sobreviveu em alguns sítios até ao nosso tempo, enquanto o sector socialista não resistia aos episódios fracturantes das grandes guerras ou às tomadas de poder por meios insurreccionais. Sociais-democratas respeitosos dos processos de escolha democráticos separaram-se definitivamente dos “Bolcheviks” comandados por Lenin e Trotsky, os quais conseguiram guardar e consolidar o governo da “ditadura do proletariado” nos imensos territórios da Grande Rússia. E isto marcou quase o resto do século XX – tal como os seus descendentes Chineses prometem marcar agora o século XXI, fazendo também uso de algum característico pragmatismo Confuciano. 

Os comunistas também têm um Evangelho: os escritos de Karl Marx, que lhes deixou um método de análise sociopolítica, uma utopia longínqua (o Comunismo, da dissolução da propriedade privada, das classes sociais e do Estado) e uma teoria-prática de luta partidária e de exercício do poder. Têm alguma inspiração benévola (vaga, como todas têm de ser), mas agem no Estado como Maquiavel ensinou e, ao mesmo tempo, com cega inflexibilidade burocrática. Por isso, apreciam tanto os militares. Mas comportam-se como uma vulgar seita: só lá entra quem quer; mas só de lá sai quem pode.

Foi já Lenin quem identificou (e estigmatizou) o fenômeno do Esquerdismo. Mas a “doença infantil do comunismo” não se extinguiu. Daniel Cohn-Bendit até a reivindicou: Le Gauchisme, remède à la maladie sénile do communisme (Seuil, 1968). Mas isso foi antes dele ter crescido.

Na realidade, o Esquerdismo reinventa-se sempre, ao sabor das conjunturas: exagerando as reivindicações “da Esquerda”; assumindo todas as “boas causas”, mesmo as impossíveis de resolver nas condições presentes; e só aparenta render-se à realidade quando finalmente participa no poder (a que aspira) mas em posição minoritária, no quadro de um sistema democrático.   

Quanto ao Anarquismo, esse é mais difícil de classificar, embora muitos (e alguns deles próprios) o posicionem na “ultra-esquerda”, perto de certos marxistas não-leninistas. Contudo, seria talvez mais correto situá-los “fora do sistema”, embora existam especiosas variedades para todos os gostos, como nas Artes.

Não vamos decerto transformar todos estes processos numa “questão de linguagem”. Mas lá que as palavras contam, disso podem ter a certeza!

JF / 25.Junho.2021

Fonte: https://aideiablog.wordpress.com/2021/06/25/agora-esquerda-bolchevismo-esquerdismo-e-outros-ismos/

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O som de um rato
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Fonte: Noticiasanarquistas.noblogs.org