Abril 18, 2021
Do Jornal Mapa
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Nas últimas eleições legislativas, realizadas em 2019, 67 826 pessoas votaram no Chega, garantindo desta forma a entrada no parlamento de um tipo de nacionalismo pós-fascista, acabando assim com a tão famigerada imunidade do país em relação a estas tendências. O objetivo deste artigo não reside na análise das implicações desta mudança no campo político-parlamentar, constituindo antes um ensaio em torno da relação entre este tipo de ideologia e a questão do trabalho, mais propriamente da precariedade e do seu aumento entre os trabalhadores.

Ao contrário do retrato típico do eleitor destes partidos – homem, jovem, não qualificado, operário, desempregado ou pequeno empresário –, a base de apoio do Chega, a avaliar por algumas sondagens recentemente publicadas, inclui mulheres, pessoas entre os 25 e os 44 anos e trabalhadores com níveis de instrução equivalentes ou superiores ao ensino secundário. O novo partido recolhe igualmente apoio junto de pequenos comerciantes, empresários e empregados de escritório 1. O Chega parece assim obter maiores intenções de voto entre os «colarinhos-brancos», não tanto entre os «colarinhos-azuis», em relação aos quais recolhe apenas 10% das preferências. Estes dados vêm assim colocar em causa um tipo de argumentação mais simplista (e até classista) que atribui a adesão aos populismos pós-fascistas a uma baixa escolaridade e à suposta ausência de ferramentas críticas passíveis de desconstruir os seus discursos. Inclusivamente, este tipo de fenómeno não é inédito na história dos fascismos.

Sem quererem ser operários e sem poderem ser burgueses, muito pouco parecia restar aos elementos desta camada social, falida e sem horizontes.

Os «colarinhos-brancos» e o nazismo

O estabelecimento de uma comparação do eleitorado do Chega com a base de apoio do nacional-socialismo alemão não parte de uma equiparação das forças em causa, nem das condições económicas, sociais e políticas responsáveis pela sua emergência e consolidação. Não só a história não se repete, como a Alemanha da primeira metade do século XX, marcada pela derrota na I Guerra Mundial, pouco tem que ver com a sociedade portuguesa (ou qualquer outra sociedade europeia) dos dias de hoje: basta, por exemplo, pensar no nível de militarização da primeira e na cada vez menor influência desta instituição na segunda. Todavia, existem pontos em comum cujo destaque, a nosso ver, poderá ajudar a uma interpretação do fenómeno em causa.

Poucos dias volvidos das eleições legislativas que viriam a alterar a composição do Reichstag a favor dos nazis, o sociólogo Theodor Geiger publicaria o artigo «Pânico na classe média». Neste, segundo a descrição realizada por Sergio Bologna, o autor identificava na opção pelo Partido Nacional-Socialista um conjunto de temores: «Medo de vir a ter uma consideração menor, medo de perder o prestígio social, por parte de todos: funcionários públicos, filhos de trabalhadores autónomos, empregados de oficina, filhos de operários, trabalhadores autónomos sujeitos a uma mobilidade descendente de classe, militares. » 2

Este grupo social heterogéneo englobava os segmentos remanescentes da velha classe média alemã, composta por agricultores, artesãos e pequenos comerciantes; os novos empregados assalariados, a maior parte dos quais a exercerem funções no setor dos serviços; e trabalhadores por conta própria e/ou profissionais independentes (os «proletaroides»). Se bem que os meios de produção não se encontravam na sua posse – no caso de proprietários, essa condição pautava-se por uma dependência factual em relação a empresas de maior dimensão –, em geral, auferiam melhores condições contratuais e salariais do que os operários fabris, permitindo-lhes um estilo de vida e estatuto social que, por vezes, pouco se distinguia do auferido pelo patrão, com o qual chegavam a privar.

A crise originada pela derrota alemã na I Guerra Mundial viria a devastar este cenário. Educada para vir a usufruir de uma condição social superior, esta classe vê-se confrontada com o desemprego ou com a diminuição de rendimentos. Ao mesmo tempo, a incessante racionalização instrumental do trabalho não poupava os empregados, envolvendo-os num conjunto de funções pré-determinadas, cujo cumprimento implicava a constante adaptação da pessoa à máquina. Desta forma, os «colarinhos-brancos» vislumbravam em si próprios o abismo que separava as suas expectativas sociais e profissionais da realidade, assistindo passivamente à sua aproximação a proletários: sem grande margem de manobra na execução do seu trabalho, sujeitos a baixos salários e incapazes de preverem o dia de amanhã.

A classe média, na análise do sociólogo alemão Siegfried Kracauer, era «em termos conceptuais, um sem-abrigo» 3. A indignação e o ressentimento face à proletarização a que era votada conduziam, paradoxalmente, ao afastamento relativamente aos operários e a outros trabalhadores «de baixa condição». Sem quererem ser operários e sem poderem ser burgueses, muito pouco parecia restar aos elementos desta camada social, falida e sem horizontes. Nas palavras de Kracauer, «estas classes são incapazes de experimentar a sua solidariedade com uma comunidade alargada, com o Volk ou a nação, por meio do sindicato, do clube, da classe ou qualquer outro tipo de organização. Elas apenas conseguem experimentar esta solidariedade através de um ideal, de um mito» 4. Tanto ontem como hoje, esta constitui uma das principais bases do discurso (pós-)fascista.


Texto de ZNM
Ilustração [em destaque] de Catarina Santos


Artigo publicado no JornalMapa, edição #29, Dezembro 2020|Fevereiro 2021.




Fonte: Jornalmapa.pt