Junho 7, 2022
Do Colectivo Libertario Evora
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Após a eclosão da guerra, os anarquistas na Ucrânia lançaram a “Operação Solidariedade” para ajudar os combatentes e outras pessoas que necessitavam de ajuda. O que é que a organização faz e o que deve ser salientado sobre esta iniciativa? Por que é que a ajuda mútua é importante, mas ainda não está generalizada? O que é que há de errado com o nacionalismo e como nos podemos opor a ele? Conversámos sobre isso com o nosso companheiro que usa o pseudónimo de Gremlin. Em novembro de 2020, ele fugiu da Bielorrússia para Kiev e agora juntou-se à resistência à agressão russa.

Diz-nos quais são as atividades da Operação Solidariedade.

Em primeiro lugar, ajudamos antiautoritários e antifascistas, anarquistas, pessoas que conhecemos e que se juntaram à Defesa Territorial. Também entregamos ajuda humanitária a centros de distribuição e hospitais. Levámos ajuda humanitária para Bucha, Irpin, Chernihiv. Havia comida, sacos de dormir, remédios, almofadas de aquecimento e coisas assim.

Temos dois armazéns: em Lviv e em Kiev. Relativamente aos bens de maior envergadura, já entregámos cerca de 10 termovisores, vários drones, quase 80 coletes à prova de balas, 30 capacetes, muitos remédios e comida.

Qual o teu papel na organização?

Estou a organizar um armazém. Aceito as mercadorias, classifico-as, identifico-as, distribuo-as. Às vezes distribuo bens aos combatentes da TerO. (Defesa Territorial)

Como é que se está a desenvolver o movimento do voluntariado auto-organizado, e outras iniciativas como esta, em Kiev?

É difícil avaliar a escala. No primeiro mês, enquanto nada funcionava, muitos cafés prepararam e entregaram comida para as TerO e para as Forças Armadas da Ucrânia. Há muitas locais para onde algo pode ser levado e de onde algo pode ser retirado. Eles recebem indicações dos militares, estão envolvidos na ajuda humanitária, na retirada de pessoas. Mas quão auto-organizados e se o estão duma forma horizontal é difícil dizer.

Li que, de acordo com um  inquérito sociológico, um pouco mais de 30% dos ucranianos participam em movimentos de voluntariado. Isto significa 1 em cada 3. Ou seja, a escala é enorme.

Por que é que achas que as pessoas se ajudam, assim, em massa?

Esta é uma forma de sobrevivência e uma forma de as pessoas se envolverem com os acontecimentos

Como disse Peter Kropotkin, a ajuda mútua é um dos principais fatores de evolução. O que ajuda uma espécie biológica a sobreviver. No exemplo ucraniano, vemos isso. Por mais patético que possa parecer, esta é uma guerra do povo contra a aniquilação. Portanto, sem ajuda mútua, é impossível sobreviver aqui, é impossível sobreviver a esta guerra.

Além disso, as pessoas querem fazer parte da vitória. Se não em operações militares, pelo menos ajude os militares, outras pessoas. Para sobreviver, para defender seus direitos, liberdades, seu país, para não cair na ocupação. Vemos o que é essa ocupação no exemplo das áreas ocupadas. As pessoas não têm direitos, nem liberdades que existiam na Ucrânia, ainda que de forma truncada do ponto de vista do ideal anarquista.

Que outras mudanças importantes vês, como anarquista, na sociedade ucraniana após o início da guerra?

Podemos também notar uma grande auto-organização de base nos locais de residência. Tal como aconteceu na Bielorrússia em 2020, quando os protestos se mudaram para os bairros. Na Ucrânia, as pessoas também se organizaram através de conversas a partir dos quintais. Especialmente nos primeiros dias da guerra. O povo organizou-se logo para resistir ao saque que se esperava. Para procurar sabotadores ou outros sinais que lhes dessem alguma indicação, montavam guarda nos telhados e organizavam vigílias.

Há também lados negativos que se podem intensificar durante a guerra. São correntes ultranacionalistas, ultrapatrióticas. Já houve um caso em que voluntários antifascistas em Lviv foram detidos por pessoas armadas com os símbolos do Setor Direita. Eram companheiros nossos que participam na Cozinha Solidária e distribuem comida vegana. Eles foram entregues à polícia, mas a polícia soltou-os.

Por outro lado, a ultradireita considera que todos os tipos de estados autoritários levam àquilo em  que a Bielorrússia e a Rússia modernas se tornaram. Numa entrevista, eles relembram o Zaporizhzhya Sich (1) sobre a democracia direta.

O que há de mais criticável nesta ascensão do nacionalismo?

Essa é a ideologia do Estado. Consideram que uma nação não pode existir sem um estado. Por isso, acreditam que a identidade das pessoas é construída com base na pertença a uma nação. Acredita-se que, se se tiver o seu próprio estado-nação, isso conduz à prosperidade e à solução dos problemas. Não é verdade. Um estado pode ser nacional, mas não resolve os problemas, uma vez não acaba nem com as classes exploradas nem com os exploradores. Acredito que é com base nessa divisão que deve haver uma fratura. Ou seja, os explorados devem lutar contra a exploração e não por qualquer tipo de estado-nação.

O nacionalismo, mesmo moderado, divide os povos. Nacionalistas ucranianos tornam-se inimigos dos polacos, os bielorrussos com os russos e assim por diante. Ao mesmo tempo, os heróis do nacionalismo bielorrusso e ucraniano são personagens complexas. Bulak-Bulakhovich contribuiu ou não interferiu nos pogroms contra os judeus. Bandera realizou purgas contra a população polaca, também participou em pogroms contra os judeus. Os nacionalistas polacos realizam desfiles em memória de Romuald Rice, cujo destacamento procedeu à limpeza étnica dos bielorrussos após a Segunda Guerra Mundial. Para eles são heróis, para os bielorrussos são assassinos. O nacionalismo torna difícil que se olhe objetivamente para estes personagens. Os nossos são os bons, os outros personificam o mal.

Além disso, uma nação é construída com base em acontecimentos históricos passados , e não com base numa visão de futuro. Hoje temos sérios problemas com o meio ambiente e na economia. Temos problemas sociais e políticos. Eles não podem ser resolvidos com base em mitos históricos. Além disso, a solução para esses problemas só pode ser global. É impossível resolvê-los ao nível local. E o nacionalismo dificulta a união para que  isso aconteça.

O que os anarquistas podem opor ao nacionalismo?

Podemos mostrar como os grupos internacionais trabalham. Por exemplo, a Operação Solidariedade tem o apoio de pessoas de diferentes países: Alemanha, Bielorrússia, Rússia, Polónia. Se considerarmos o amplo movimento voluntário que agora está a ajudar os ucranianos, também participam neles elementos de diferentes nações. Com base nessa solidariedade internacional podemos opor algo ao nacionalismo. Podemos mostrar que as pessoas, independentemente de sua cidadania ou idioma, têm objetivos comuns que podemos alcançar tendo como base uma estrutura horizontal e a auto-organização.

Voltemos à ajuda mútua. Muitas vezes em situações de crise, as pessoas começam a auto-organizar-se e a solidarizar-se em massa. Depois há um regresso à “normalidade”, as pessoas afastam-se, e a atomização volta a crescer. Apesar deste revés, como pensa que o actual boom da ajuda mútua irá afetar a Ucrânia? Haverá alguma hipótese de a ajuda mútua ser institucionalizada, pelo menos até certo ponto?

Para já, é difícil falar sobre o futuro. Porque não é claro como e quando é que a guerra vai acabar. Em qualquer caso, a nível individual, a participação no movimento de voluntariado deixa uma marca. Especialmente para aqueles que estão a participar pela primeira vez. Alarga a compreensão do que cada um pode fazer, superando novos desafios. Além disso, as ligações ficam  e as pessoas aprendem com as experiências anteriores. Da próxima vez, portanto, se houver necessidade de voluntariado, será mais rápido e melhor.

É bom que as pessoas tenham estas capacidades e que se manifestem em situações de emergência. É natural. Mas também é natural que as coisas voltem a ser como eram quando a situação mudou. As pessoas continuam a ter carreiras, famílias, consumismo. Por isso, não penso que esta ajuda mútua deva ser institucionalizada de forma alguma, que devam ser criadas estruturas estáveis permanentes.

Mas será que podemos imaginar tais fundos e organizações a permanecerem e a tornarem-se algo como uma base de recursos e infra-estruturas para o movimento de protesto, para lutar por novos ganhos? Tal como aconteceu na Bielorrússia, quando a auto-organização e a assistência mútua se tornaram a base do movimento de protesto.

O ByCovid não organizou a revolução na Bielorrússia. Havia pessoas que ajudavam os médicos porque o Estado não conseguia lidar com isso. Em seguida, reorganizaram as suas atividades para ajudar as vítimas da repressão. Fizeram-no bem e ainda o fazem.

Mas, em geral, tais estruturas não ameaçam o Estado, não alteram o sistema social. Preferem corrigir defeitos, melhorar o sistema. Estruturas de direitos humanos, sem fins lucrativos e assentes no voluntariado surgem quando o Estado não faz o que tem que fazer de forma eficaz. Eles veem os problemas e tentam resolvê-los.

Isso não significa que não se deva agir. Como eu disse, as pessoas adquirem uma importante experiência de auto-organização. Quando há uma nova emergência, incluindo uma revolução, eles utilizam essa experiência. Mas quando as condições não estão maduras, é natural que as pessoas não permaneçam no âmbito das organizações de voluntariado, há um regresso às condições da vida comum. Não é bom ou mau, é o que é natural.

O que deve, então, ser feito por quem quer mudar a sociedade no sentido de uma maior ajuda mútua e horizontalidade, quando este movimento atual diminuir?

Responderei apenas pelos antiautoritários e anarquistas bielorrussos que agora estão no exílio. Estou agora mais focado nisso.

Acho que precisamos continuar a trabalhar na diáspora, a participar em iniciativas, promovendo as nossas ideias. Porque muitas destas pessoas provavelmente regressarão á Bielorrússia. Seria bom, mesmo não se tornassem antiautoritários e anarquistas, pelo menos ficassem com algumas das nossas ideias.

É preciso prepararmo-nos para um possível regresso à Bielorrússia. Não é necessário que o regime caia, que as fronteiras sejam abertas e que todos voltem, e que todos sejam recebidos na fronteira com pão e sal. Pode haver outras opções de regresso. Por isso, também, precisamos estar preparados. É preciso ter uma base de recursos para que tal aconteça, e que se esteja preparado física e mentalmente.

Por fim, dê-me três dicas para quem deseja organizar uma iniciativa de ajuda mútua como a Operação Solidariedade.

A primeira é se preparar-se com antecedência para o que possa acontecer. Tínhamos as coisas básicas prontas, o que nos permitiu começar rapidamente. Por outro lado, se mais pessoas estivessem envolvidas, se tivéssemos responsabilidades melhor distribuídas, poderíamos ter feito melhor duma forma ainda mais rápida.

Em segundo lugar, não assuma tarefas com as quais você não consiga lidar. Tem que ser capaz de pedir ajuda se não puder lidar com isso. E poder oferecer ajuda caso veja que uma pessoa não consegue. Esta não é uma razão para se criticar o outro, mas uma razão para distribuir as responsabilidades de forma mais uniforme.

Além disso, numa organização ideal, seria bom se todos tivessem backups. Ou seja, pessoas que possam substituir uma outra pessoa e que estejam minimamente capacitadas para as suas tarefas. Neste caso uma pessoa sente-se mais confortável, por exemplo, se perceber, cajo seja necessário, que pode tirar um dia de folga. Se uma determinada pessoa não estiver, o trabalho não vai parar. O backup é muito importante, se não para todos, pelo menos para as pessoas-chave numa organização.

Por último, mas não menos importante, é preciso recordar que as pessoas são mais importantes do que os recursos. É importante manter um microclima saudável no grupo, uma comunicação respeitadora, um tom amigável e ajuda-mútua. Os conflitos internos, mesmo que pareçam pequenos e insignificantes, afetam esse o microclima. As pessoas ficam menos interessadas, menos motivadas para fazerem algo. Em última análise, isso afeta o funcionamento de toda a organização. Portanto, é importante lembrar que as pessoas têm as suas próprias fraquezas e os seus pontos fortes. Isso deve ser tratado adequadamente e levado em consideração.

Eu pedi três dicas….

É melhor mais do que menos..

28/05/2022

Boris Engelson para pramen.io

(1) O Zaporozhian Sich foi um estado semi-autónomo cossaco que existiu entre os séculos XVI e XVIII na região de Zaporizhzhya, na atual Ucrânia. (NdT)




Fonte: Colectivolibertarioevora.wordpress.com