Fevereiro 26, 2022
Do Passa Palavra
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O Passa Palavra traduziu esta intervenção devido à relevância política de voltar as atenções para o proletariado, e não para disputas entre as classes dominantes, no que diz respeito à guerra na Ucrânia e às guerras em geral. Contudo, não corroboramos com a visão de que trabalhadores e soldados sejam proletários no sentido político ou sociológico do termo, ou tenham interesses convergentes na luta de classes.

“Rumores de guerra ressoam ruidosamente na Europa novamente, canhões são carregados, bombardeiros são equipados com balas e bombas mortíferas, mísseis apontam suas ogivas nucleares para seus objetivos futuros.”

Estas palavras que escrevemos em 2014 não poderiam ser mais relevantes diante do conflito entre a Rússia e a Ucrânia. Se o capitalismo é, visceralmente, um criador de mazelas, gerando miséria, crises climáticas e de saúde, nós quase “esquecemos” que ele foi e continua sendo indubitavelmente um promotor de guerras.

Proletários em uniforme russo. Há anos vocês têm sido enviados ao redor do mundo para proteger os interesses da “Nação Russa”. Começou com a “defesa da integridade territorial da Rússia” contra os separatistas do norte do Cáucaso, depois a “proteção dos ossetianos na Geórgia”, para culminar com a “proteção dos irmãos e irmãs russos contra as hordas de [Stepan] Bandera na Ucrânia” e o “governo legítimo da Síria, contra os terroristas islâmicos”.

História semelhante foi contada a gerações de proletários, tanto “soldados” como “civis”, em todos os conflitos capitalistas anteriores em todo o mundo, a fim de fazê-los sangrar na frente militar ou nas fábricas atrás das linhas, na frente de produção, na frente doméstica… Eles lutavam pelo “Czar”, o “Socialismo”, a “Nação”, a “Democracia”, o “Lebensraum” [“espaço vital”], o “Cristianismo” ou o “Islamismo”. E o mesmo conto de fadas é contado aos proletários de uniforme dos EUA, Turquia, Reino Unido, Israel, Ucrânia, a Síria de Assad, o Daesh, Rojava, Geórgia, Donetsk e Lugansk, Irã, regiões governadas pelo Hezbollah, Hamas… e qualquer outra comunidade nacional, regional, religiosa ou outra falsa comunidade.

Proletários em uniforme ucraniano. Sua própria burguesia os faz acreditar que vocês têm uma pátria para defender do “agressor russo”, que vocês devem se juntar a seus exploradores e exigir que a Ucrânia ingresse na União Européia ou na OTAN. Mas como todos os proletários do mundo, vocês só têm a perder os grilhões da escravidão assalariada.

Proletários colaborando com o esforço de guerra. Mais uma vez, é dito a vocês que se sacrifiquem, que sejam “mais produtivos”, que sejam “mais flexíveis”, que “adiem” a satisfação de suas necessidades imediatas (mesmo ao ponto de passar fome em vez de comer a “comida do inimigo”), etc. Tudo isso para o bem maior da Nação. É dito a vocês que apoiem inquestionavelmente esta ou aquela “Guerra Santa”, que esqueçam as greves e a interrupção da produção de material de guerra, que enviem voluntariamente seus filhos, irmãos, maridos e pais para se tornarem mártires para os lucros de seus mestres burgueses.

O capital e seu Estado sempre encontraram uma maneira de transformar os proletários em bucha de canhão e deixá-los matar uns aos outros sob a bandeira desta ou daquela “Mãe Pátria”. Como se nós, o proletariado, a classe explorada, tivéssemos qualquer país a defender. Como se os “interesses nacionais” representassem algo mais do que os interesses da classe dominante. A guerra e a posterior disputa pela reconstrução não são mais do que uma forma concreta de competição entre várias facções capitalistas. É uma expressão de sua necessidade de expandir o mercado para compensar a diminuição da taxa de lucro. Ao mesmo tempo, a guerra serve para dividir nossa classe em linhas nacionais, regionais, religiosas, políticas, etc., a fim de suprimir a luta de classes e quebrar a solidariedade internacional do proletariado. Em última instância, a guerra serve para descartar a força de trabalho redundante. Ou em outras palavras, para nos massacrar.

Soldados “russos”, vocês estão destacados na Síria ou na Ucrânia para matar e ser mortos por pessoas que, como vocês e seus parentes em casa, são forçados a vender sua força de trabalho ao Capital para sobreviver, pessoas que fazem parte da mesma classe explorada que vocês, pessoas que são seus irmãos e irmãs proletários do “outro lado”. Todas essas aventuras militares, exercícios e corridas armamentistas estão começando a prejudicar a capacidade do Capital de apaziguar o proletariado com migalhas da burguesia.

O capitalismo só nos pode trazer exploração, miséria, alienação, guerra e destruição, como sempre fez. O proletariado global está na encruzilhada: erguer-se contra ele ou cair no maior moedor de carne humana da história. Em todo o mundo, conflitos militares mais ou menos abertos e impasses entre várias facções burguesas estão se exacerbando. Alianças e contra-alianças são formadas e rompidas, com uma centralização cada vez mais evidente em alguns superblocos. A Ucrânia está no centro de tudo isso e a guerra por lá ameaça escalar num conflito global, com potencial para acabar com toda a vida neste planeta.

Assim como no Irã, Iraque, Chile, Líbano, Colômbia e recentemente no Cazaquistão, a única alternativa para o proletariado na Rússia e na Ucrânia é intensificar o confronto com o Estado, atacar diretamente suas instituições e expropriar os bens e os meios de produção. Não nos limitemos a protestar nas ruas, vamos difundir e generalizar as greves e desenvolver a luta de classes no front da produção! Vamos fazer da luta dos familiares dos soldados, que no passado demonstraram reiteradamente uma forte postura antiguerra, uma luta revolucionária generalizada e derrotista[2], sem limitações de qualquer ideologia legalista!

O derrotismo revolucionário pressupõe orientar nossas ações com o objetivo de minar o moral das tropas, bem como impedir o envio de proletários para o massacre…

O derrotismo revolucionário pressupõe organizar a deserção e um cessar-fogo massivos entre proletários de uniforme nos dois lados da linha de frente, abandonar fronts distantes e fazer a guerra não entre proletários, mas entre classes, ou seja, uma guerra de classes que chegue às superpotências…

O derrotismo revolucionário pressupõe incentivar a fraternidade, motins, voltar as armas contra os organizadores da carnificina, ou seja, “nossa” burguesia e seus lacaios…

O derrotismo revolucionário pressupõe a ação mais determinada e ofensiva para transformar a guerra imperialista em guerra revolucionária para a abolição desta sociedade de classes baseada na fome e na guerra, uma guerra revolucionária em direção ao comunismo…

Vocês, “soldados russos” e “soldados ucranianos”, proletários dos exércitos da burguesia russa e ucraniana, não têm outra alternativa (se querem viver em vez de continuar sobrevivendo, se não forem abatidos nos próximos campos de horror!) senão recusarem-se a servir uma vez mais como capangas globais de interesses que não são os seus!

Assim como muitos de seus antecessores na guerra da Tchetchênia, vamos quebrar as fileiras e não lutar mais! Assim como os soldados do “Exército Vermelho” no Afeganistão ou os soldados americanos no Vietnã, você pode atirar ou estilhaçar seus próprios oficiais! Assim como os proletários com ou sem uniforme na Primeira Guerra Mundial, vamos amotinar e levantar-nos juntos e transformar a guerra capitalista global em guerra civil para a revolução comunista!

É claro que não queremos nos limitar a nos dirigir apenas aos proletários com uniformes russos ou ucranianos, mas também aos irmãos e irmãs de classe em dificuldades por todo o mundo, incentivando-os a seguir e desenvolver os exemplos de derrotismo revolucionário já existentes, como por exemplo os de soldados no Irã que expressaram sua recusa em serem usados na repressão contra movimentos de classe em 2018, ou de policiais e milicianos no Iraque que fizeram o mesmo por meses durante os motins que envolveram metade do país de Basra até Bagdá, ou da polícia e dos militares no Cazaquistão, no início desse ano, que se recusaram a suprimir a revolta proletária, forçando a guarda russa a intervir para restaurar a ordem capitalista…

Proletários com e sem uniforme, vamos nos organizar contra o sistema capitalista de exploração do trabalho humano, que está na raiz de toda a miséria, de toda opressão do Estado e de todas as guerras!

Proletários, nunca se esqueçam que foram nossos irmãos e irmãs de classe que pararam a 1ª Guerra Mundial, fazendo deserções massivas, rebeliões coletivas e a revolução social!!!

Abaixo os exploradores! De Moscou a Teerã, de Washington a Kiev, para o mundo inteiro!

Contra o nacionalismo, o sectarismo, o militarismo, nos colocamos pela solidariedade proletária internacional e internacionalista!

Transformemos esta guerra numa luta de classes pela revolução comunista global!

[*] Tridni Valka é uma organização comunista libertária da República Tcheca.

Notas da tradução

[1] Derrotismo não é, no caso dessa tradução, o ato de fazer-se sentir derrotado, mas de ativamente provocar a derrota militar de modo que a luta entre países se converta em uma luta entre classes. Optamos por manter o termo por entendermos que o texto faz uso proposital dessa ambiguidade.

Esta é uma tradução do Passa Palavra do original em inglês. Para ver o original e/ou as versões em russo e francês acesse aqui.

As obras reproduzidas no artigo são de Kazimir Malevich (1879 – 1935)




Fonte: Passapalavra.info