Novembro 16, 2020
Do A Inimiga Da Rainha
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No último sábado de agosto, acendi as luzes da varanda e uma nuvem de cupins correu em direção às lâmpadas. Eles se jogaram contra a luminária de vidro nervosamente e cobriram cada centímetro da parede. Uma borboleta voou entre eles, confusa. E uma lagartixa estava lá, verticalmente, ao lado de uma das lâmpadas, empolgada, mas em grande desvantagem numérica. É o início da primavera, hora de sair para procurar novos acasalamentos, com a ajuda da lua na orientação. Então, eu passei um tempo no escuro enquanto eles se reorientavam.

No dia seguinte, apesar da pandemia, as pessoas encheram as praias para aproveitar o sol. O inverno acabou e o isolamento também. Os humanos, em muitos aspectos como um enxame de cupins, têm instintos que não conseguem acompanhar as mudanças drásticas de contexto. A lua não é mais a única fonte de luz nesta terra — que antes era um pedaço de floresta atlântica costeira. Por mais que sejamos adaptáveis, encontramos maneiras de racionalizar comportamentos irracionais para atrasar mudanças.

Certas coisas já mudaram, irreversivelmente, como o modo como nossos corpos existem no mundo e o influenciam. Nossos corpos são importantes, por isso a distância entre eles também importa. Assim como os cupins são importantes para o mundo — um mundo que não circunda os bens humanos. Eles ajudam a decompor os corpos das árvores mortas, devolvendo nutrientes ao solo e abrindo caminho para uma nova geração de árvores. Como nós, eles também adoram cadáveres de árvores, embora pratiquem essa adoração de maneira mais sustentável.

De que maneiras insustentáveis ​​praticamos nossa adoração? Seja a adoração do dinheiro, de outras pessoas ou de nosso próprio corpo, podemos estar praticando rituais que não apenas nos distanciam das coisas que mais valorizamos, mas também podem estar destruindo-as. O instinto de socializar e tomar sol, por exemplo, como homenagem às pessoas que amamos, incluindo nós mesmas, embora válido antes de 2020, pode ser mais uma maldição hoje. Assim como os cupins foram capazes de apreciar o luar, mas se distraem com uma luz bem mais fraca só porque está mais perto, encontrando nada além de vidro, concreto e madeira quimicamente tratada.

O COVD-19 e o isolamento podem ter reformulado como vemos nossos corpos no mundo e, portanto, irão reformular como praticamos nossa adoração, seja ao que for. Isso não é uma coisa ruim, as tradições podem evoluir para se tornarem ainda mais poderosas. De certa forma, é pela mudança que adoramos. Se alguém adora a riqueza, embora a ideia dela possa ser imutável, o desejo é de que mude o quanto se tem dela. Mesmo na adoração de divindades, por mais eternas que sejam, elas são vistas como tendo o poder da Mudança.

Eu fui uma das pessoas que foi à praia naquele domingo, sem saber que fazia parte de um enxame. A multidão me surpreendeu e me deixou hiper-consciente de não ter máscara. A coisa mais surpreendente, porém, foi perceber que agora tenho uma sensação enfraquecida do que o meu corpo é capaz, do que ele pode suportar e de como mais coisas parecem uma ameaça a ele. Eu costumava ser tão destemida, andando de bicicleta entre carros, escalando pedras enormes na praia, explorando trilhas escondidas e olhando para baixo do penhasco. Provavelmente é seguro dizer que 2020 nos fez sentir vulneráveis ​​e muitos de nós simplesmente não queremos aceitar isso. Mas existem maneiras novas e inovadoras de reconstruir a confiança em nossos corpos, só temos que querer procurá-las.

Certas coisas mudam, e voltar às velhas maneiras de lidar com elas pode ser contraproducente. Especialmente para aquelas de nós que querem continuar sendo a resistência, é importante manter nossos objetivos imutáveis ​​em vista, para que conheçamos as táticas mutáveis ​​nas quais podemos confiar para alcançá-los de forma eficaz, sem nos distrairmos com coisas brilhantes no caminho.

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texto: Mirna Wabi-Sabi




Fonte: Ainimiga.noblogs.org