Setembro 24, 2021
Do Passa Palavra
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Por Thiago Canettieri

Terminou a maior paralisação de entregadores de aplicativo no país. Os trabalhadores precarizados de plataformas como a iFood na cidade de São José dos Campos interromperam as suas entregas. O movimento teve início num sábado, dia 11 de setembro, sob a chamada de uma “greve nacional contra a exploração dos apps”. A data não foi escolhida de maneira aleatória.

A principal reivindicação dos grevistas é o aumento das taxas que recebem os trabalhadores de logística. Os parcos recursos que recebem pelas entregas acabaram defasados pelos sucessivos reajustes no preço dos combustíveis e de todo o custo de reprodução material das pessoas, com a inflação galopante. Em São José dos Campos a mobilização se disseminou rapidamente e afetou toda a rede de entregas. Muitos estabelecimentos tiveram que interromper as entregas por aplicativos e passaram a pressionar as plataformas. Essa iniciativa conseguiu, provavelmente pela generalização do perrengue, unificar os dois regimes de trabalho dentro desses aplicativos[a saber, os regimes “OL” e “nuvem”]. Em geral, há uma tremenda disputa entre os trabalhadores que integram um ou outro regime.

Na sexta, dia 17, através da página de twitter @tretanotrampo que informa sobre essa luta, foi anunciada a suspensão da greve com a promessa pela iFood de uma reunião para discutir as demandas da categoria para o dia 28. Há o indicativo de iniciar novamente a paralisação caso as negociações não avancem.

O ritmo da luta dessa fração do precariado uberizado das entregas é intenso. Os trabalhadores de São José dos Campos elaboraram uma tremenda organização, que sustentou a “mais extensa greve da categoria já feita no país”.

No entanto, apesar dessa conquista, segue-se um tremendo isolamento do movimento entre as organizações de esquerda mais “tradicionais”. Isolamento esse que resulta numa asfixia da luta desses trabalhadores e pode pôr em xeque a luta da categoria.

Esse não é um texto sobre a greve dos entregadores de aplicativo, mas sobre seus efeitos. Talvez essa situação possa servir para pensar os significados e as consequências de uma organização de esquerda hoje.

Dito isso, cabe esclarecer três pontos fundamentais para o breve desenvolvimento desse comentário. São três pontos para começar a traçar um diagnóstico sobre os significados de uma organização de esquerda.

i. Competição potencializada pela precarização: resultado das sucessivas reestruturações produtivas, a força-de-trabalho foi sendo expulsa das tramas produtivas do capital. Isso significa a desubstancialização do capital que entra num regime crítico sem volta. Mas também implica na eliminação da forma historicamente determinada de reprodução dos seres humanos que foram convertidos em sujeitos monetários, mas agora sem dinheiro. Isso significa que, para acessar as mercadorias, as pessoas estão mais dispostas, porque necessitadas, a se submeterem aos regimes de superexploração mais intensos. Isso intensifica a competição interna aos “precarizados”.

ii. Distorção política resultado da forma-política: há a produção de uma certa maneira de enquadrar a prática de dar respostas coletivas e comensuráveis aos problemas que surgem –– na boa definição de Negt e Kluge para política. Essa produção, por suposto, é histórica e não algo inato e ontológico. Existe, assim, uma formação da “forma-política”, e essa forma “deforma” tudo o que não cabe em sua métrica. Se nossa forma-política se desenvolveu e consolidou a concepção de que a política é limitada ao processo institucional e seu entorno imediato, é natural que o que exista fora não seja reconhecido enquanto tal.

iii. Solidariedade limitada pela identidade: A razão política tradicional de esquerda parte, antes, daquilo que reconhece compartilhar uma mesma identidade. Há chaves e chavões que permitem identificação –– o partido, o sindicato, o movimento, a foice e o martelo, a liderança carismática de esquerda. O que não é reconhecido dentro dos estreitos limites dessas identidades não é merecedor da solidariedade.

O que as consequências do breque dos apps indicam é uma situação muito parecida com aquela descrita por Torino e Wohlleben num texto sobre os coletes amarelos, na França. A dupla percebe que “a racionalidade política contemporânea não consegue compreender ações radicais, somente atores radicais”. Dentro desse esquema de interpretação política, o que importa é apenas a relação entre atores: a chave para compreender as ações passa, portanto, necessariamente no reconhecimento dos atores envolvidos. As primeiras perguntas que emergem na tentativa de compreender uma ação radical são: Quem está fazendo isso? Por que está fazendo isso? Essas questões servem para enquadrar as ações num catálogo, antes mesmo de olhar para a ação em si. Ou seja, para essa racionalidade, uma ação vale somente o quanto é informado pelo ator que a pratica.

O resultado é uma cegueira estrutural. Não se vê a ação concreta. Em seu lugar se tem uma imagem construída pelo repertório político institucionalizado que pressupõe o sentido da ação sem, no entanto, ser afetado pela ação. A unidade é dada, portanto, no nível estatutário — do reconhecimento dos agentes — e não no nível da prática — do reconhecimento das ações. Isso implica que o índice de unidade está baseado na ideologia e não no compartilhamento das práticas e ações.

No caso da greve dos entregadores de aplicativo esse choque ocorre porque o movimento organizado escapa das “formas de identidade” com que normalmente se identifica um movimento de esquerda. Sendo um “ator não identificado”, por consequência, a racionalidade política corrente os joga para o lado de lá: afinal, quando os entregadores dizem que não querem Bolsonaro, mas também não querem Lula, ou quando levantam uma faixa “Motoboys sem Sindicatos”, esse ator político que emerge de uma situação concreta já é rotulado como estando necessariamente fora de um certo espectro político.

Como notaram os editores deste site, essa “esquerda parece mais presa aos seus símbolos que à luta dos trabalhadores”. E talvez esse seja parte considerável dos nossos problemas.

Sendo assim, essa racionalidade diagnóstica da esquerda, que busca antes a identidade dos atores, poderia facilmente atribuir-lhes que se não são regressivos estão abrindo caminho para o fascismo. Isso muito antes de agir juntos e colaborar. Seja como for, essa situação revela muito sobre as formas de organização da esquerda contemporânea: acossada pela competição (tanto no mundo do trabalho como na busca da melhor cotação eleitoral); deformada pela forma-política (na qual está completamente impregnada); limitada pela identidade (que se sustenta antes nos seus próprios símbolos como critério de solidariedade e engajamento).

Talvez parte do abismo da prática política contemporânea tenha a ver com o rotulacionismo das ações radicais por nomes já estabelecidos. Essa racionalidade diagnóstica atribui ao outro (sempre evanescente) a pecha de “esquerdismo”, “basismo”, “fundamentalismo”, “academicismo”, “centralismo”, “autonomismo”, “stalinismo”, “trotskismo”, “anarquismo”, etc. (na atual conjuntura política, poder-se-ia dizer “bolsonarismo”, “lulismo”, “cirismo”, and so on). Assim, não é possível compreender as vicissitudes e singularidades dos processos, pois já partem de conceitos caducos.

Uma unidade que é dada só na esfera do semblante é uma unidade frágil. Na primeira oportunidade as fraturas explodem em milhares de cacos. A diferença desses fragmentos não é algo ruim, a ser evitado a priori; tudo o que é preciso é que elas não sejam assumidas como o critério definidor do compartilhamento de práticas.

Não é o caso de dizer que a ideologia não importa, mas de reconhecer que ela ser o único definidor da prática política de esquerda é deixar escapar muita coisa –– entre elas a condição de compartilhar um espaço de engajamento, que permita desenvolver relações de confiança de afetação mútua. Se assumirmos que a tarefa de uma organização de esquerda é transformar o mundo, pode ser uma boa ideia estar nesses lugares. Porque compartilhar esses lugares é condição para desenvolver a sensibilidade necessária para compreendê-los.

Uma esquerda que não tem o que falar da maior mobilização grevista em curso no país da categoria que está na ponta dos processos de precarização, e só reage quando certos marcadores de identidade são lançados, é algo que revela muito sobre nossa situação política contemporânea.

Há momentos que o silêncio soa mais alto.

Toda solidariedade aos lutadores do breque dos apps.




Fonte: Passapalavra.info