Abril 13, 2021
Do Passa Palavra
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Por Roberto Carlos dos Santos

Inicialmente, designo “almanack” como aquelas publicações periódicas, recheadas de curiosidades e até bizarrices de apelo popularesco, bem como narrativas em tom jocoso, satírico e voltadas ao entretenimento, devido à rasura do raciocínio, à ridicularização da pobreza, às citações descontextualizadas e com objetivos funestos. Dito isso, farei algumas considerações sobre os escritos panfletários de Reinaldo Almanack Azevedo publicados em forma de “livro” com o título “O país dos petralhas”, pela Editora Record, no ano de 2008. Os textículos, cronologicamente costurados em formato de livro, vieram de publicações anteriores no jornal “O Globo” e na “Veja.com”. Esse “lugar de origem” é fonte de recados bastante suspeitos, muitas vezes, contrários à democracia, e que sempre flertou com bases sociais reacionárias, autoritárias e militarizadas.

A recente entrevista concedida por Lula ao autointitulado jornalista e intelectual, Almanack de Azevedo, no último dia 1º de abril, levou-me a debruçar sobre a “obra” referida acima, que pode ser adquirida pela Estante Virtual, a partir de R$ 4,00. Há que se mencionar a existência de outro livro, do mesmo autor, intitulado “O país dos petralhas II”, lançado em 2012.

A primeira impressão que se tem da leitura dos escritos de Almanack de Azevedo é a apropriação despudorada de recortes e fragmentos descontextualizados de obras cujos autores são de estatura intelectual incontestável. E aí vale fragmentos e frases prontas de Ortega y Gasset, Raymond Aron, Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Guimarães Rosa, Maquiavel, George Orwell, Padre Antônio Vieira, Eisenstein, Chico Buarque, Homero, Walt Whitman, Gramsci, Darcy Ribeiro, Inácio de Loyola, Edmund Wilson, Shakespeare, Rousseau, Robert Musil, Kant, Thomas Mann, Lacan, Jung, Dostoievski, Graciliano Ramos, Rimbaud, Goethe, Karl Marx, Raymundo Faoro, Alexis de Tocqueville, “Kafávis” (Tio Rei, o nome correto do poeta grego é Kaváfis, digo, Kontantínos Kaváfis! Pág. 99) etc. Azevedo é um coletor de frases prontas e fragmentos despropositados para legitimar a farsa de uma autoridade intelectual. O seu processo de escrita tem algumas estratégias que irei apontar, na sequência. Com os retalhos pinçados nas obras de grandes pensadores e artistas, Azevedo alinhava com sua índole malévola uma colcha político-panfletária, que vai de encontro a qualquer ideologia de esquerda. Os nomes dos autores surgem apenas para dar um verniz impróprio aos textos e preencher o ego insaciável do articulista, conhecido por esbravejar com a pena ou ao microfone uma suposta cultura ou formação intelectual consistente que, de fato, não possui. Isso não é nenhum demérito, é a realidade. De posse dos nomes de autores consagrados pela intelligentsia ocidental, percebe-se, a posteriori, um reducionismo analítico vexatório, fundado em afirmações curtas e em linguagem que nos remetem a antíteses reducionistas como, por exemplo, céu x inferno, bem x mal, Deus x demônio/diabo etc. No país capaz de dar status de pesquisas científicas às enquetes do “sim” ou “não”, esse tipo de linguagem reducionista, que aproxima conceitos contrários ou ideias opostas, tem potencial de penetração popular bastante elevado. Outra tática suja adotada por Almanack de Azevedo, esse político panfletário fantasiado de jornalista, é dizer em seus textos, aprioristicamente, de forma irônica, que será taxado pelos “comunistas imaginários” de “racista”, “machista”, “reacionário” etc. É um preâmbulo estratégico para se evitar críticas e se passar como alguém de “fina ironia”. Outra variável constituinte do “mecanismo” de divulgação das ideias reacionárias por Almanack de Azevedo é mencionar as citações das obras sem o devido cotejo ou consulta, citando-as “de cabeça” (“Estou sem meus livrinhos aqui…”, pág. 176; “Cito de memória, mas é mais ou menos isso”, pág. 193). Menciona ainda que as leu quando era um jovem prodígio de apenas vinte anos de idade como, por exemplo, aconteceu no caso de “Casa-Grande & Senzala”, segundo ele. Ciente do seu pauperismo na construção da narrativa e da superficialidade teórica própria e de seus leitores, Azevedo elaborou uma série de muletas repetitivas visando compensar e dissimular a falta de harmonia dos seus desgovernados textos. Alguns artigos são escritos em uma linguagem que se distancia da inculta e bela Língua Portuguesa.

Reinaldo Almanack de Azevedo

Em inúmeras circunstâncias, no livro, percebe-se a pretensão do autor em aplicar “golpes baixos” em seus adversários da esquerda. Nesse momento, ele se antecipa e alerta-nos a todos sobre suas supostas origens trotskistas, aos quinze anos, mas sem apresentar nenhum lastro confiável do inusitado acontecimento. Nisso, é useiro e vezeiro. Esse malabarismo autobiográfico serve para justificar, segundo sua ótica míope e envenenada, o empreendimento de ataques à esquerda, ou seja, Azevedo libertou-se do pensamento de esquerda e sua “genialidade” contemporânea permite-lhe perpetrar as mais vis considerações àqueles que não se enquadram nas ideias da direita ou da extrema direita. Esse comportamento confirma a condição de Almanack de Azevedo como um serviçal, supostamente voluntário, de ideias reacionárias, tóxicas e antidemocráticas, no Brasil, nos últimos anos.

Almanack de Azevedo é uma pessoa petulante, descarada e insolente. Aventura-se a montar uma fabriqueta caseira, no fundo do seu quintal, onde confecciona neologismos para fins pejorativos, em momentos de pura perversão da lógica e da sensatez. Entre a sátira e a malandragem, o articulista optou-se, no livro, pela seara do ridículo. Os supostos neologismos prometem o gozo final, depois de uma espécie de masturbação guiada por frases desconexas, risos insossos e performances de mau gosto. Além de sua postura pernóstica, o articulista incorpora uma atmosfera de arrogância singular e ilimitada, que perpassa por uma postura sempre messiânica e eivada de fanatismo. Para Almanack de Azevedo, morador da “Cocanha” contemporânea e “supremacista intelectual” do seu Ocidente branco e cristão, todos os mortais que se atrevem fazer oposição às suas opiniões (e não ideias) devem ser combatidos com uma linguagem de botequim, rancorosa e chula. Enquanto isso, o boquirroto e falastrão, que se autodefine como jornalista e age como político panfletário, tece os mais sinceros elogios ao universo das posturas políticas da direita reacionária. O “escritor” desconhece o sentido do livre-arbítrio e os fundamentos da democracia. Ele é incapaz de reconhecer e aceitar que, num Estado Democrático de Direito, cidadãos e cidadãs podem escolher as posições que lhes apetecem. Por isso, comporta-se como servo da ignorância, da ilegalidade e da insensatez, operando um patrulhamento ultrajante entre políticos, pensadores e ativistas de esquerda. Almanack de Azevedo é incapaz de aceitar que a democracia contempla o direito de uma parcela da sociedade posicionar-se à esquerda, por exemplo, e isso não a torna indigna ou motivo para receber ataques torpes e reacionários. O reacionarismo do escrevinhador em questão, em seus arroubos proto-fascistas, só admite a presença de ética, moral, inteligência, dignidade, legalidade etc à direita. E esse reducionismo trambiqueiro pontua grande parte de seus textículos, coletados no livro-lixo em análise. A cafajestice de Azevedo não tem limites, e na página 136 eis que surge a seguinte afirmação sobre a sociedade brasileira: “Negros são 6%”.

Almanack Azevedo não consegue dissimular o próprio cio, quando está próximo de seu acasalamento com pessoas reacionárias ou da extrema direita. Não é à toa que, recentemente, o arregão Almanack de Azevedo sentiu-se envaidecido e arrepiou-se todo ao cumprimentar o presidente Jair Bolsonaro e ouvir do decrépito generaleco Heleno, o famigerado chefe da operação “Punho de Ferro” no bairro de Cité Soleil, em Porto Príncipe, a confissão de que assistia cotidianamente ao programa “O É da Coisa”. Neste programa, percebe-se a perversão ética e legal de Azevedo porque há uma reprodução, desavergonhada e sem nenhuma menção autoral, de conteúdos de outros veículos de imprensa cujos jornalistas foram às ruas fazer reportagens, por exemplo. O programa é um verdadeiro “chupa-cabra” do sangue e suor alheios, comandado por um sanguessuga que se apropria ilegalmente do trabalho de outros jornalistas, não lhes reservando nenhum crédito ou referência autoral. Ultimamente, tem se apropriado sem nenhum pudor de obras de artistas assumidamente de esquerda como, por exemplo, Chico César. Nesse livro, que ora analiso, Almanack de Azevedo empreende uma cruzada contra os artistas brasileiros, atacando principalmente Caetano, Chico e Gil. O cidadão Azevedo adota um parasitismo cínico e de reiterado desrespeito aos direitos autorais no jornalismo brasileiro que pode, caso melhor estudado, descambar para o plágio e assemelhados.

Reinaldo Almanack de Azevedo

Almanack de Azevedo, apesar das décadas debruçado sobre mesas de redações de periódicos conservadores e reacionários, tem dificuldade em lidar com conceitos fundamentais, que são pressupostos para quem se propõe a falar sobre política, em qualquer parte do mundo. Conceitos de direita, esquerda, liberalismo, socialismo, comunismo, reacionarismo, conservadorismo e, principalmente, democracia não são bem compreendidos pelo articulista, que criou uma hermenêutica própria para discutir a política brasileira. À medida que se distancia dos conceitos, Azevedo aproxima-se de sua missão de divulgador de ideias reacionárias, fundamentadas na vulgaridade das opiniões, que sempre vão de encontro à justiça social, aos direitos humanos e à democracia. É possível que essas táticas de Azevedo sejam a má-fé combinada com uma dose cavalar da ausência de maturidade intelectual e de leituras referenciais na esfera acadêmica. Mas, há também a sandice inveterada numa mente hipocondríaca, cuja miopia cerebral permite-lhe associar, por exemplo, o PT ao stalinismo, reiteradamente.

O referido articulista tem uma compulsão em trazer Hitler, Stalin e Mussolini para debates de temas contemporâneos, totalmente alheios e desvinculados do nazi-fascismo ou do stalinismo. Quando menciona Guevara, Chávez ou Fidel, obrigatoriamente, surgem as analogias desonestas com os regimes totalitários do fascismo, do nazismo e do stalinismo. Com essa mesma desonestidade que lhe é peculiar, o troglodita associa de forma obsessiva Lula e o PT a Hugo Chávez e à possível quebra da ordem democrática brasileira, mais cedo ou mais tarde. Azevedo não tem a sensibilidade para perceber que as forças internas dos países, em suas dimensões políticas, econômicas ou culturais, são dispositivos reais na interlocução com valores hegemônicos em outras partes do mundo. Além disso, não observa a consistência das nossas instituições garantidoras dos direitos fundamentais do indivíduo e coletivos.

Reinaldo Almanack de Azevedo sofre de aporofobia crônica, ou seja, possui medo, repulsa e hostilidade às pessoas pobres e à pobreza, segundo uma visão geral dos artigos que compõem os conteúdos do livro em análise. Faltam-lhe a compaixão e a empatia com os deserdados sociais como, por exemplo, sem-terra, sem-teto, partidos de esquerda, sindicalistas etc. Sabemos que os aporófobos representam uma patologia social diagnosticada em elevados percentuais na mídia e na sociedade brasileiras, em geral, reveladores de uma realidade nefasta, sórdida e ignóbil. A demência intelectual do articulista ataca a pobreza com a mesma insensatez das pessoas que culpam as vítimas pelos crimes sofridos. E como um oráculo da desgraça, distante do jornalismo, atreve-se nas adivinhações dos acordos políticos futuros, encastelado em seu gabinete. Para Azevedo, a democracia somente é aceitável quando elege candidatos de direita, visto que ele enxerga desajustes em uma democracia capaz de eleger, pela soberania popular, candidatos de esquerda ou oriundos de quaisquer minorias. Isso fica claro às páginas 83 quando ele escreve: “Por mim, Lula já teria sido deposto pela Constituição há muito em nome da legalidade…”. Outro aspecto emergente em alguns artigos do livro é o desdém com o qual a América Latina é tratada pelo articulista, que não revela nenhum reconhecimento pelo pedaço de terra que deu ao mundo Portinari, Octavio Paz, Glauber Rocha, Vargas Llosa, Gabo, Mistral, Tom Jobim, Neruda, Cortazar, Mario Benedetti, Ángel Astúrias, Villa-Lobos, Carpentier, Guimarães Rosa, Roberto Bolaño etc. Azevedo não passa de um lunático cujas astúcias engambelam parcela das mentes brasileiras mais limitadas. Lamentável!

Reinaldo Almanack de Azevedo

Almanack de Azevedo apresenta-se sempre paramentado com a sua imaginária fantasia de liberal a regurgitar, insistentemente, posições políticas reacionárias, retrógradas e desfavoráveis a qualquer possibilidade de inclusão social no país. Paralelamente aos ataques à pobreza, há uma idolatria descomunal e uma subserviência lacaia aos republicanos dos Estados Unidos, onde Ronald Reagan e George W. Bush são vistos pelo articulista como os salvadores da “América” e do restante do mundo. A pena infecta do sabujo rabisca uma verborragia sórdida e infantilizada, como um moleque de estilingue nas mãos a quebrar vidraças dos inimigos imaginários, depois, correr, esconder, ficar em silêncio ou mudar de assunto.

A paranoia anticomunista de Almanack de Azevedo beira a bestialidade e sua miopia cerebral lhe permite enxergar comunismo no PT. Ele se ancora sempre no senso comum, nas historietas exóticas e nas bizarrices de almanaques. Tudo com um apelo histriônico de indignação, revelador da própria idiotia bem como da vulgaridade reflexiva de seus leitores aficionados. Almanack de Azevedo não tem noção nenhuma de processo histórico e muito menos sabe as diferenças entre história e memória. Suas exposições enviesadas baseiam-se no conhecimento vulgar, nas opiniões, e nunca em análises fundamentadas em conceitos ou na ideia de história processual. Ele incorpora o que denominamos como anacronismo histórico, nem mais nem menos.

No livreto em análise, Almanack de Azevedo, no texto “Rompendo o cerco 1- É a democracia, estúpido!” (Pág. 258-259), faz uma referência laudatória e submissa a Olavo de Carvalho e diz o seguinte: “Olavo não precisa de desagravo; tem é de ser lido. Ninguém precisa concordar integralmente com ele, comigo ou, sei lá, com santo Tomás de Aquino… (Pág. 259)”. A neurastenia de Azevedo chega ao ponto de acusar o Itamaraty e ex-ministro Celso Amorim de discursos “filoterroristas” (Pág. 265-266). Seguindo o seu guia, Olavo de Carvalho, Almanack de Azevedo não poupa adjetivos blasfematórios a Marx, produzindo uma mitologia própria de situações bizarras a respeito do pensador e de seus seguidores. Entre as alucinações e os absurdos dos seus delírios “anticomunistas”, chega-se ao ponto de citar Gramsci como o “pai do totalitarismo perfeito (Pág. 144)” e de escrever equívocos grotescos sobre questões ambientais, por exemplo. Tanto Olavo de Carvalho quanto Reinaldo Almanack de Azevedo fazem ataques sistêmicos ao Iluminismo e à “razão do Estado”. Ambos concebem a ideia de comunismo como o “homem do saco”, num trabalho de Sísifo, perpetuamente, capturando desavisados que se embrenham nos campos políticos que existem para além da direita ou da extrema direita. A insanidade de Azevedo vai ao ponto de afirmar que “A morte como ideologia é uma cria genuína da esquerda (Pág. 133)” ou que “O melhor remédio contra a esquerda é a alfabetização (Pág. 135)”. É esse o sujeito de ideias repugnantes que se diz liberal, humanista e de direita.

Reinaldo Almanack de Azevedo

Almanack de Azevedo, esse pseudointelectual sem nenhum reconhecimento acadêmico ou em qualquer área da cultura, embriaga-se no espelho da própria ignorância como um Narciso às avessas, e aventura-se em supostas análises políticas, econômicas ou jurídicas, realizando ginásticas teóricas e analíticas inconcebíveis no campo da racionalidade, na defesa de seus apaniguados na política reacionária da direita e da extrema-direita, lugar onde chafurda com toda energia e desenvoltura. Azevedo apresenta-se no livro em tela como um sectário recalcado e um insensato anti-minorias cujo desbunde é extremamente nocivo à sociedade brasileira, flertando para além da desonestidade intelectual. O menosprezo de Almanack de Azevedo pelos artistas e pelas artes, em geral, flerta na direção das ideologias autoritárias.

A torpeza e a vilania de Almanack de Azevedo emergem cristalinas dos seus escritos sobre a ditadura civil-militar, revelando todo o seu escárnio em relação às vítimas do referido regime político (Pág. 156-161). Nesse sentido, conclui-se que a abjeta realidade por onde o articulista transita com intimidade é a seguinte: sente-se engrandecido ao lado dos reacionários; ataca a inclusão, a justiça social e os direitos humanos; ataca organizações da sociedade civil como a Cufa – Central Única das Favelas (Pág. 166); manifesta-se contrário ao Estatuto da Igualdade Racial; trapaceia com os direitos autorais de jornalistas sobre as respectivas reportagens; sataniza os adversários políticos com desinformações e raciocínios mal-intencionados; considera que adoção de crianças deve ter a preferência dos casais heterossexuais em relação aos casais homossexuais; posiciona-se contrário às cotas para negros em instituições de ensino (“A aplicação de cotas raciais só existe porque o mundo jurídico brasileiro se acovardou, com medo da militância estridente. Pág. 137”).

Esse é o Almanack de Azevedo que as esquerdas não podem perdoar porque exala um chorume de alta toxicidade à democracia!

As imagens que ilustram o texto são da autoria de Dan Meyers




Fonte: Passapalavra.info