Janeiro 19, 2021
Do Agencia De Noticias Anarquistas
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A irrupção de uma mistura de grupos fascistas, de extrema direita, supremacistas brancos e grupos e indivíduos conspiradores do QAnon no edifício do Capitólio dos EUA mostra a profunda debilidade que reina nos Estados Unidos, agravada por quatro anos de promoção de idéias e políticas reacionárias por Trump em uma ampla gama de questões. Aqueles que participaram da invasão do Capitólio apresentaram uma aliança de interesses que ia além da questão de classe. Então, você pode encontrar um CEO de uma empresa de análise de dados, um proprietário de uma rede de supermercado, um advogado e policiais, ao lado de professores, universitários, corretores de imóveis (agentes imobiliários), bombeiros, bartenders e tatuadores.

A invasão do Capitólio foi descoordenada e não havia um plano geral e conjunto para atingir um golpe, embora alguns dos que vieram a Washington estivessem armados. Um golpe requer um planejamento sério, bem como um certo grau de apoio entre a polícia, os militares e a classe dominante. Embora a débil defesa do edifício do Capitólio possa ser atribuída em parte à simpatia da polícia e da Guarda Nacional pela causa desses supostos insurrecionalistas, ela não estava nem perto do nível necessário para se realizar um golpe de Estado bem-sucedido. Nem tampouco a violência chegou próxima ao nível de uma insurreição duradoura.

Grandes setores da classe dominante, tanto dentro quanto fora das estruturas do Estado, foram incomodados nos últimos quatro anos pelas políticas isolacionistas de Trump e por seus ataques a uma “normalidade” desejada por eles. Ele é muito volátil, instável e irresponsável para seus gostos. A invasão do Capitólio forneceu uma desculpa para atacar Trump e seus apoiadores, conforme observado, ataques esses construídos em uma base de classe abrangente e compostos de bilionários de direita, proprietários de pequenos negócios, elementos marginalizados e alguns trabalhadores e profissionais descontentes.

Agora, esses setores da classe dominante buscam o restabelecimento do status quo em Biden e Harris. Nenhum desses políticos são amigos da classe trabalhadora e isso ficará óbvio nos próximos anos. Esta é mais uma razão para que um movimento independente da classe trabalhadora, que inclua e reconheça as necessidades dos nativos americanos, mulheres, hispânicos e negros, seja  construído para combater tanto o movimento de extrema direita e populista que Trump nutre e promove, quanto o antigo estabelecimento representado pelo Partido Democrata e pela velha guarda republicana.

Será necessário resgatar alguns trabalhadores brancos da influência do Trumpismo. Donald Trump cinicamente manipulou seu exército desorganizado de apoiadores e os traiu quando foi conveniente, como testemunhado primeiro por seu encorajamento ávido às multidões em Washington, seguido logo por sua denúncia às mesmas pessoas. Ele se alimentou da insatisfação e do ressentimento dos trabalhadores nos rust belts (cinturões da ferrugem) e em outros lugares, vítimas de anos de abandono por sucessivos governos, sejam eles republicanos ou democratas. Ele preencheu com sucesso o vazio deixado pela falta de um poderoso movimento independente da classe trabalhadora.

Devemos notar que a alta tolerância para com a multidão de Trump em Washington deve ser contrastada com o tratamento dado às manifestações Black Lives Matter. Na verdade, se eles, ou mesmo qualquer agrupamento revolucionário, tivessem tentado uma invasão ao Capitólio, o resultado teria sido uma resposta instantânea e brutal, e provavelmente um massacre. Também não devemos esquecer que classificar os apoiadores de Trump como “extremistas domésticos” é o mesmo tratamento que qualquer revolucionário receberia em diferentes circunstâncias, assim como seria a perda de empregos que alguns trumpistas estão experimentando agora como resultado do incidente no Capitólio.

O Capitólio é um símbolo do poder e riqueza da classe dominante. Não foi nenhuma surpresa o espanto que foi expresso pelos partidários de Trump, uma vez dentro do Capitólio, com a opulência deste templo para o poder da classe dominante.

Agora, a narrativa será centrada em torno da “defesa da democracia” e que todas as pessoas de bem deveriam se unir ao Partido Democrata. Mas é o sistema que os democratas e os republicanos defendem que produziu monstros como Trump. Biden foi rápido em condenar a raiva expressa em tumultos em muitas cidades como resultado dos contínuos assassinatos de indivíduos da classe trabalhadora, muitos deles negros. Ele continuará a fazer isso, a fim de apoiar a polícia e a fim de apoiar políticas pró-negócio que terão um efeito devastador sobre a classe trabalhadora e os americanos pobres.

No momento, é benéfico para a classe dos patrões ter no poder um defensor do status quo como Biden. Trump é visto como um constrangimento que deve ser eliminado do corpo político. Se um forte movimento revolucionário algum dia ressurgisse nos EUA, então criaturas como Trump ou sua laia seriam convocadas para criar movimentos populistas de extrema direita e restabelecer regimes autoritários.

Pode ser visto nas recentes declarações políticas que a administração Biden-Harris procurará seus aliados nas burocracias sindicais, entre os políticos de carreira e burocratas do movimento pelos direitos civis para manter seu controle e conter a agitação nos locais de trabalho e nos bairros. Além disso, o incentivo de Biden à energia verde e o apoio de grandes sucessos da mídia social como Twitter e Facebook a ele apontam para uma reestruturação do capitalismo americano que uma parte da classe dominante deseja, longe do protecionismo e do apoio às indústrias militares que os republicanos patrocinam.

Finalmente, vamos dar uma olhada na hipocrisia de muitos republicanos, ávidos por se dissociarem de Trump após o incidente no Capitólio, mas ávidos facilitadores até então. O mesmo vale para Theresa May, que foi uma entusiástica apoiadora neste país, assim como Boris Johnson, que recomendou Trump para o prêmio Nobel, e também como foi o odioso Michael Gove.

Outros admiradores de Trump no Reino Unido

Nigel Farage, é claro, apoiava Trump por completo, chegando mesmo a apoiá-lo no resultado da eleição presidencial, mas emitiu uma frase muito breve no Twitter alegando acreditar que o ataque ao Capitólio estava errado. Farage afirma ser um homem do povo, mas estava disposto a desperdiçar £ 10.000 (R$ 70.000) em uma aposta no resultado da eleição presidencial enquanto as pessoas perdiam seus empregos e não podiam alimentar seus filhos. Em novembro, Farage também mentiu no Twitter sobre a situação no quartel Napier em Folkestone, Kent (uma instalação que é usada para abrigar requerentes de asilo recém-chegados). Farage mostrou imagens de requerentes de asilo protestando (gritando com a polícia nos portões do quartel) alegando “todos querem hotéis quatro estrelas e uma viagem para Anfield”. De fato, o cara que fez a filmagem em questão teve que apontar que o protesto era sobre o frio, as apertadas condições e o acesso a atendimento médico para pessoas vulneráveis – uma situação que qualquer um protestaria.

Outras figuras pró-Trump bem conhecidas no Reino Unido incluem Jacob Rees Mogg, que escreveu um artigo bajulador sobre Trump no The Times e fez muitas outras declarações pró-Trump. Em dezembro, Mogg afirmou que a UNICEF “deveria ter vergonha de si mesma” por gastar milhares de libras alimentando crianças famintas no Reino Unido, quando “deveria cuidar das pessoas nos países mais pobres e carentes do mundo”. Isso nos diz tudo o que precisamos saber sobre o falso “populismo” de direita que usa a classe trabalhadora como peões em um jogo de dividir para governar em benefício do sistema.

Mudanças reais e significativas em nossas vidas só podem acontecer, não apenas por meio de ataques a um prédio do governo, não por meio de mais vigilância policial e estatal ou por meio de eleições capitalistas, – mas por uma revolução da classe trabalhadora que destrói o Estado, o sistema de classes e abole o capitalismo, por meio do qual compartilhamos poder e recursos em nossas comunidades coletivamente. Só podemos chegar perto desse objetivo com uma classe trabalhadora fortalecida e unida o tanto quanto possível, não dividida em democratas e republicanos, trabalhistas e conservadores – divisões que só beneficiam a classe dominante parasitária.

Fonte: https://www.anarchistcommunism.org/2021/01/10/the-bud-lite-putsch-or-the-storming-of-the-us-capitol/

Tradução > A. Padalecki

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Fonte: Noticiasanarquistas.noblogs.org