Março 11, 2022
Do Jornal Mapa
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A oposição interna na Rússia, a resistência das pessoas na Ucrânia e a solidariedade mundial com os refugiados desta guerra, que já são mais de 2 milhões de pessoas.

No 16º dia da invasão da Ucrânia por parte da Rússia, interessa-nos divulgar notícias e comunicados vindos de vários partes que dão conta de diferentes exemplos de como as pessoas estão a resistir à guerra e a responder com solidariedade à destruição causada. Estas ações populares, fora da regulação institucional e das habituais lógicas de poder, são uma inspiração que vem de dentro e contra este conflito entre impérios.

Começando pela Rússia, apesar de assistirmos ao endurecer das leis do Kremlin contra manifestantes e contra meios de comunicação independentes, são vários os relatos de resistência e dissidência. Segundo os números mais recentes avançados pela OVD-Info, russas e russos continuam a manifestar-se nas ruas contra esta “operação militar especial” na Ucrânia, tendo a polícia russa detido cerca de 13915 pessoas até agora em protestos contra a guerra. A censura nos meios de comunicação russos e nas redes sociais tem endurecido, causando o fecho de várias sucursais russas dos principais meios de comunicação mundiais, tais como a CNN, o El País ou a Bloomberg.

Estes e outros meios de comunicação internacionais suspenderam as suas atividades no país, um dia após o regime russo ter imposto uma lei que prevê penas de prisão de até 15 anos a quem publicar “fake news”. Segundo o que se pode ler em vários artigos, usar a palavra “guerra” ou transmitir no país imagens das cidades ucranianas bombardeadas são considerados exemplos de notícias falsas.

Naturalmente, os meios de comunicação russos de oposição ao regime também estão a interromper as suas atividades ou a ser bloqueados. Um dos casos mais difundidos tem sido o fecho da TV Rain, que interrompeu as suas transmissões e cujo website já não é possível visitar, sendo possível ver ainda Youtube a sua última transmissão que termina com toda a equipa no ar, um “no pasarán” e um “não à guerra”.

Consultando canais de informação russos, observa-se que o clima identitário está a tomar proporções históricas e vemos como o símbolo “Z”, marca da propaganda militar nos tanques russos, é agora exibido com orgulho ultra-nacionalista por apoiantes do regime, além de aparecer em propaganda do governo. Mas também sobre este assunto se encontra oposição, havendo denúncias e petições contra o símbolo “Z”, acusando-o de ser propaganda de ódio.

É certo que não sabemos que consequências terá o *shock *económico que os países do ocidente estão a impor à Rússia, que já fez com que multinacionais como a Visa, o Youtube ou o Google Play tenham interrompido os seus serviços, dificultando assim a vida às populações. Tudo indica que, como na maioria das guerras, os mais vulneráveis já estão a ser os mais atingidos, mas também são elas e eles quem tem reagido e quem continua desobedecer apesar da dureza da repressão e recessão económica. Por isso mesmo, parece-nos que a esperança está nesta oposição interna vinda do povo russo.

Quanto às redes sociais, no dia 10 de março, a Meta, empresa que detém o Facebook, anuncia em newsletter enviada a utilizadores de alguns países que irá permitir discursos de ódio contra a Rússia nas suas plataformas:

“We are issuing a spirit-of-the-policy allowance to allow T1 violent speech that would otherwise be removed under the Hate Speech policy when: (a) targeting Russian soldiers, EXCEPT prisoners of war, or (b) targeting Russians where it’s clear that the context is the Russian invasion of Ukraine (e.g., content mentions the invasion, self-defense, etc.),” (retirado da Reuters)

Depois de ter fechado as suas sucursais na Rússia, a Meta irá também permitir elogios a paramilitares neonazistas da Ucrânia, desde que estes lutem contra a Rússia, segundo um artigo do The intercept- Brasil.

Entretanto, na Ucrânia, são vários os exemplos de resistência popular, com ou sem armas, que se encontram nas redes sociais e nos media ao longo destes 16 dias: centenas de pessoas saem à rua em protesto contra os
 ocupantes em Kherson, região controlada pelo exército russo; Pelo menos 3 vídeos diferentes mostram agricultores ucranianos a puxarem tanques russos com os seus tratores; multidões desarmadas que tentam impedir o acesso de tropas russas à central nuclear Zaporizhzhia, em Enerhodar; grupos de resistência auto-organizada fora da lógica militar que se defendem do autoritarismo de Putin; Restaurantes em Kiyv abrem para servir comida gratuita a quem precisa… Estes são apenas alguns dos exemplos de organização autónoma que está a marcar o rumo deste conflito.

Não abordaremos aqui as atrocidades em Mariupol ou os cercos criminosos a outras cidades ucranianas, nem os bombardeamentos a todo o tipo de edifícios que o exército russo está a levar a cabo, pois esse não é o intuito desta pequena compilação de notícias. Qualquer pessoa pode aceder aos relatos e imagens e discernir por si o que está a acontecer.

Não sabemos se o regime russo esperava inicialmente ser mais bem recebido nesta ofensiva, tal como afirmam alguns artigos de análise, mas entendemos que os exemplos de determinação e resiliência das pessoas na Ucrânia têm marcado alguma da informação que é difundida nos media e nas redes sociais, deixando bem clara ao mundo a sua vontade.

Residentes tentam bloquear acesso de tropas russas à central
nuclear de Enerhodar a 2 de março.

Por último, a auto-organização de base para acolher os refugiados ucranianos é a única anestesia possível para a dor das imagens dos deslocamentos forçados que vemos. Ainda que sintamos a disparidade de tratamento que a Europa mostra a refugiados de outras nações, não esquecemos como no passado as populações no norte da europa se auto-organizaram para apoiar a crise humanitária na Síria. Agora, uma vez mais, as pessoas não esperam que organizações públicas ou privadas façam a gestão desta gigante crise- juntamente com ong’s, apoios governamentais e iniciativas privadas, são os milhares de voluntários civis quem está a garantir bens essenciais às pessoas que chegam a países como a Polónia, Roménia ou Moldávia, mostrando que a solidariedade entre povos é possível.

Mesmo quem está longe tem encontrado soluções para apoiar: o caso da Air b’n’b na Ucrânia é um dos melhores exemplos. Além de a empresa multinacional ter oferecido alojamento gratuito a 100.000 refugiados (não sabemos por quanto tempo), várias pessoas começaram a marcar e pagar
alojamentos locais na Ucrânia, não porque vão de férias, mas sim como forma de apoiar
financeiramente e mostrar solidariedade aos ucranianos donos daquelas casas.

Outras ações espontâneas semelhantes ocorreram com lojas online de pequenos produtores, como a Etsy, além dos inúmeros eventos de angariação de fundos e grupos informais de recolhas de bens para os centros de refugiados.

E ainda que muita da solidariedade a que assistimos seja só mediática, como os inúmeros *posts* de personalidades ou de empresas poderosas, os exemplos que aqui deixamos são talvez pequenos-grandes atos de coragem de quem se manifesta contra esta guerra, mostrando que este não vai ser um caso de um conflito longínquo num país de leste entregue à sua sorte. Ainda que o discurso mediático generalizado não o demonstre, vemos que a solidariedade entre povos é a resposta possível aos discursos e guerras que nos pretendem dividir. E quando este conflito afetar a segurança alimentar no Sul Global com a escassez na distribuição de alimentos já prevista, esperemos que a solidariedade popular se continue a estender e que também ninguém possa esquecer.

Quem andamos a seguir:

No_borders_team: equipas de voluntári@s auto-organizados nas fronteiras. *Inclui listas de recursos para pessoas LGBTQ+ e estrangeiros que tenham sido alvo de discriminação e racismo.*

The Kyiv Independent: um dos jornais ucranianos mais seguido nestes momentos, publica no Twitter atualizações regulares sobre o que se está a passar nas principais cidades ucranianas.

Максим Кац: canal de Youtube de blogger russo com legendas em inglês cujos vídeos mostram, por exemplo, a destruição causada pelos bombardeamentos na Ucrânia, episódios de protestos em programas de televisão russos e análises sobre os “mitos russos” que a propaganda do regime difunde.

@VagrantJourno: Ativista e jornalista na Ucrânia que publica regularmente informação sobre ações de resistência popular em inglês

O que andamos a ler:

“Grappling with environmental risks in the fog of war”, artigo no site Bulletin of the Atomic Scientists sobre os desastres ambientais que os conflitos nestas regiões estão a causar desde 2014 e preocupações com a atual situação nas centrais nucleares ucranianas.

“The War That Russians Do Not See”, artigo de análise do The New Yorker sobre os media e a repressão na Rússia.

O Coletivo Libertário de Évora reuniu várias análises e comunicados que interessam não só a anarquistas, como aquele que fala dos protestos contra a guerra, chamado Rússia: a primavera está a chegar

A Crimethinc compila e traduz para várias línguas textos de grupos de apoio a presos na Rússia, comunicados de grupos de resistência na Ucrânia e informação sobre como ajudar refugiados. Acabam de lançar um podcast com testemunhos das manifestações contra a guerra na Rússia.

(Os recursos aqui partilhados não refletem necessariamente a opinião de quem assina este artigo. Usa a tua discriminação quanto aos conteúdos. Usamos muitas vezes tradutores automáticos para aceder a informação específica, alguma dela citada nas fontes deste artigo. Tendo em conta a importância de boas traduções, fica aqui uma menção ao coletivo Translators Without Borders, cujo trabalho voluntário, tão necessário neste momento, pode ser apoiado de várias maneiras)




Fonte: Jornalmapa.pt