Maio 16, 2021
Do Reporter Popular
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Apesar do movimento negro marcar como principal data de luta, o dia 20 de novembro (Dia da Consciência Negra), no dia 13 de maio deste ano, data da abolição da escravidão, inúmeros protestos antirracistas ocorreram no país, principalmente pela ocasião da chacina ocorrida na favela do Jacarezinho.

A educação também é parte dessa trincheira de luta antirracista e movimentos, sindicatos e entidades sintonizados com essa perspectiva vem reafirmando a necessidade de atenção para este tema.

No mês passado, a Secretaria Municipal de Educação da cidade de Armação de Búzios realizou uma live de 1 hora e 47 minutos, intitulada, “Educação em tempos de pandemia. Organizada pelo Instituto Conhecer, a live foi marcada por gestos racistas e a individualização de problemas estruturais da educação.

No evento on-line, o palestrante Dalmir Sant’anna vestiu uma máscara caricaturando o fenótipo negro e uma peruca. O palestrante ainda associou esta imagem a uma suposta preguiça de alguns trabalhadores da educação. O gesto causou revolta aos professores e entidades organizadas, que lançaram uma nota.

Repercussão negativa foi grande

Depois da grande repercussão, a Secretaria Municipal de Educação de Armação dos Búzios e as entidades envolvidas na atividade “Educação em tempos de Pandemia” se posicionaram oficialmente sobre o gesto racista ocorrido numa de suas lives.

Mais de trinta sindicatos e entidades organizadas se manifestaram em repúdio a ação de Dalmir e a atividade mediada pela Secretaria Municipal de Educação e o Instituto Conhecer. Entre as entidades que se posicionaram, destacam-se organizações históricas da luta da população negra e quilombola, como o Movimento Negro Unificado e o Quilombo de Baía Formosa, Associação dos Remanescentes do Quilombo de Baía Formosa.

Nota da SME de Búzios e do Instituto Conhecer preocupa

A Secretaria de Educação, Ciência e Tecnologia de Armação dos Búzios afirmou que “vem a público repudiar veementemente todo e qualquer ato de discriminação racial e de intolerância que por ventura tenha ocorrido durante o Encontro dos Profissionais de Educação” e afirma que tal “prática seria inaceitável e sempre será firmemente combatida por esta instituição”.

A secretaria também afirma que “jamais deixará de se pronunciar diante situações deste gênero”. Já o Instituto Conhecer disse que “repudia veementemente qualquer tipo de preconceito, seja de raça, credo, gênero, orientação sexual”.

Na nota, o Instituto afirma que “Nos desculpamos com todos profissionais da educação da rede municipal de Armação dos Búzios, que se sentiram ofendidos com o conteúdo da live da manhã do dia 22/04/2020”

Especialistas e militantes analisam o caso

Marcelo Cortes. Fotografia: Leonardo Santos

Para Marcelo Cortes, pesquisador e militante do movimento negro “o ocorrido é uma declaração aberta de racismo institucional e um projeto de sociedade que está sendo executado.” O pesquisador aponta que “Precisamos urgentemente estabelecer outros pactos sociais e culturais para descontruir essas posições.

E não deixar de apontar as evidências que este cenário atual tem demostrado – que este tipo de sociedade que vivemos fracassou como lugar de emancipação social e racial.”

Cortes também ressaltou que esses tipos de “brincadeiras” podem ser enquadradas como racismo recreativo, onde “reforçam o racismo de maneira sutil e cínica, ao tom de brincadeiras”.

Fotografia: acervo do autor. Douglas R. Barros também comentou o caso.

Douglas Barros, pesquisador, militante e autor do livro “Lugar de negro, lugar de branco? Esboço para uma crítica à metafísica racial” analisou o caso a convite do Repórter Popular – Baixada Litorânea (RJ). Este afirma que os participantes da live parecem “estar longe do debate efetivo sobre a educação” e “ignoram a pauta racial”. Douglas Barros, que é doutor em Filosofia pela Unifesp, ressalta que o gesto insultuoso de Dalmir é “uma demonstração que é explícita e mais conscientemente racista, o que significa que o racismo está arraigado na estrutura de um ambiente que deveria ser aberto ao diálogo e combate ao preconceito”.

Ambos os consultados pela reportagem afirmam que esse tipo de postura é inaceitável. Douglas também aponta que a live “mais mistifica os problemas da educação, ao dizer que o culpado dos problemas, é aquele que sofre todo o peso da estrutura escolar, que no Brasil sabemos que é precária”.

Fotografia: acervo da internet. Livro de autoria de Douglas R. Barros.

Marcelo Cortes, doutor em História pela Ufrgs vai pelo mesmo caminho ao afirmar que “se o racismo encontrou no século XIX e XX a eugenia e um lugar que trabalha e reproduz, vários coeficientes, complexos de “capitão do mato” (onde o sistema cria esta tocaia inteligentemente sobre todos e todas da sociedade envolvida), para se desenvolver e se sofisticar, no século XXI ele tem encontrado no neoliberalismo enquanto cultura seu maior aliado para continuar esse processo de atualização e normalização do racismo.

Douglas conclui a análise, afirmando que “o ambiente escolar não é o lugar para brincar com uma pauta tão séria que condena milhares de brasileiros ao ocaso” e “devemos repudiar tal ação”.

Repórter Popular – Baixada Litorânea (RJ).




Fonte: Reporterpopular.com.br