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Republicamos aqui o texto de Satish Kumar, editor emérito da revista Resurgence & Ecology, sobre a resistência não violenta, traduzido por José Carlos Costa Marques (editor independente e ecologista sem partido), que saiu no Notícias da Paz (1).

Vamos Conseguir

We shall overcome

Satish Kumar (sobre a resistência não violenta)

A revista Resurgence  (hoje, Resurgence & Ecologist) nasceu em 1966, quando a Campanha para o Desarmamento Nuclear (CND) e o Comité dos 100 estavam profundamente empenhados em protestos não violentos contra a corrida às armas nucleares. Bertrand Russell e centenas de outros ativistas pela paz tinham sido presos por causa da sua resistência à bomba. O editor que fundou a revista Resurgence, John Papworth, era na época uma parte integrante do movimento dessa resistência. A Resistência Internacional à Guerra (War Resisters’ International), juntamente com o seu jornal Peace News, situava-se na frente da ação direta não violenta com vista a parar a guerra fria, simbolizada pela bomba atómica.

Tinha eu então 25 anos quando li que, aos 90 anos, o velho Russell tinha sido lançado na prisão por ter protestado contra a bomba. Foi para mim uma inspiração tão grande que parti da Índia a pé com o meu amigo E. P. Menon, sem um centavo nos nossos  bolsos mas com a coragem da convicção e confiança nos nossos corações. Dirigimo-nos às quatro capitais nucleares do mundo, Moscovo, Paris, Londres e Washington, para protestar e resistir à corrida às armas.

O equivalente nos Estados Unidos ao movimento europeu era a luta contra o racismo, que resultou também na prisão de grande número de ativistas. O próprio Martin Luther King foi preso 29 vezes por se recusar a obedecer ao sistema da discriminação social. O meu amigo e eu tivemos a honra de nos encontrarmos com esse lutador da resistência não violenta. King era a incarnação do amor e da ação radical. Disse-nos: «As pessoas querem que eu me esforce por uma mudança gradual, mas justiça adiada é justiça negada.»

Quando King se empenhou na resistência não violenta, chamaram-lhe criminoso, mas agora ele é um herói nacional e a sua imagem ilustra a Sala Oval da Casa Branca.

Nelson Mandela sofreu na prisão durante 27 anos e acabou por se tornar presidente da África do Sul. Fiquei de tal forma impressionado com a prisão de Mandela que me juntei ao Movimento Anti-Apartheid e me postei em protesto diante da Embaixada da África do Sul com o meu amigo Canon Collins.

Todos esses heróis da resistência não violenta aceitaram de livre vontade as consequências das suas ações. Estavam preparados para sofrer pela causa. Mahatma Gandhi chegou mesmo a dizer: «Entrarei na prisão como o noivo ao entrar no quarto nupcial.»

Emmeline Pankhurst e o movimento das sufragistas faziam parte da nobre tradição de resistência não violenta que afirma que os fins nobres devem ser alcançados por meios nobres. É por isso que os ativistas não violentos estão preparados para assumir o sofrimento para si mesmos em vez de infligir sofrimento aos seus oponentes. Esse ideal continua  a inspirar muita gente no nosso tempo. A luta contra a corrida armamentista, contra o racismo e contra a catástrofe climática  é um contínuo. A Greenpeace pôs em prática exemplos cintilantes de ação direta não violenta. O movimento Rebelião Contra a Extinção atraiu pessoas de todas as idades para se prontificarem voluntariamente a serem presas, já que estão preparadas para sofrer  pela salvação do nosso precioso planeta Terra. Greta Thunberg sentou-se na rua em Estocolmo arrostando com o ridículo e a chacota, de forma a lembrar-nos da estupidez da civilização industrial. Vandana Shiva e Jane Goodall são heroínas ativistas que se entregaram à luta, ao longo de toda a vida, para restaurar uma cultura e uma agricultura regeneradoras.

A história da resistência não violenta  é tão longa quanto inspiradora, entusiasmante e enérgica. Para tornar a vida sagrada, nós, os ativistas não violentos, fazemos sacrifícios, mas fazêmo-lo com prazer e com amor. A revista Resurgence celebrou esse ativismo ao longo dos últimos 56 anos. Possa ela continuar a fazê-lo pelos próximos 56 anos.

Nota: Satish Kumar é autor do livro Pilgrimage for Peace, no qual conta a sua marcha de 8 mil milhas em expressivos pormenores. Ver: shop.resurgence.org/books

Tradução: José Carlos Costa Marques




Fonte: Aideiablog.wordpress.com