Março 5, 2022
Do Colectivo Libertario Evora
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Um apelo da Rússia para manifestações contra a invasão da Ucrânia

Este apelo à ação apareceu originalmente em russo no avtonom.org, a plataforma que surgiu da rede anarquista russa Acção Autónoma.

Os nossos companheiros russos informam que, com uma nova lei introduzida esta semana, quem for acusado de difundir  desinformação sobre a invasão da Ucrânia pode ser condenado a vários anos de prisão. Aparentemente estão incluídos aqueles que simplesmente se referem à invasão como uma “guerra”, em vez de uma “operação especial”, como a ela se refere insistentemente o governo de Putin. Neste contexto, os manifestantes mostram uma tremenda coragem ao sair às ruas.

O próximo dia de protestos massivos está previsto  para este domingo, 6 de março. Esperamos que os seus esforços sejam replicados por manifestantes em todo o mundo, pressionando de todos os lados o governo russo, a classe capitalista global, aqueles que especulam e enriquecem com os exércitos e todas as outras forças cúmplices dessa invasão.

Para apoiar os presos políticos na Rússia, pode doar para a Cruz Negra Anarquista em Moscovo aqui. Para apoiar os anarquistas na Ucrânia, doe aqui ou aqui. Existe também uma estrutura de solidariedade para apoiar os refugiados que fogem da Ucrânia.

Os principais sustentáculos da ordem atual na Rússia hoje.
Manifestantes anti-guerra na Rússia.

Manifesto:

A primavera está a chegar: Sai à rua contra a guerra

O exército russo invadiu a Ucrânia. Putin perdeu a razão e o seu exército está bombardear cidades, a disparar contra civis e a matar crianças. Mais de um milhão de pessoas fugiu do país tentando escapar aos “libertadores” de Putin.

Recusamo-nos a submetermo-nos à censura militar russa. Dizemos aberta e claramente: isto é a guerra. É uma guerra de conquista e o exército russo é que a está  fazer. De armas nas mãos, os ucranianos estão a defender-se com sucesso contra os invasores, mas nós, que estamos na Rússia, não podemos ficar de fora face a estes acontecimentos. Devemos mostrar a nós próprios e ao mundo que somos contra essa guerra, que apenas Putin e o seu gangue a querem. Estar contra a guerra é, neste momento, ser genuinamente antifascista.

6 de março, no próximo domingo, é o dia geral das ações anti-guerra na Rússia. Ocupa a praça central da tua cidade! Um dos pontos de encontro em Moscou é a Praça das estações de comboio às 15h. Há também comícios às 19h e outros horários. Decidam-se e organizem-se, juntem-se aos vossos companheiros. O importante é sair às ruas.

As autoridades russas estão agora em pânico. Perceberam que estão a perder esta guerra. É por isso que eles ameaçam histericamente os manifestantes anti-guerra. com expulsão ou demissão, com recrutamento imediato para o exército, ou com prisão. Não tenham medo deles. Os ucranianos nas suas cidades saem às ruas apenas com as mãos para protestarem contra os invasores. Estão a enfrentar soldados e tanques com espingardas. Como ter medo da maquinaria enferrujada da polícia russa?

Exigimos o fim imediato da guerra. Exigimos a retirada imediata e incondicional das tropas russas da Ucrânia. Esta é a principal condição para qualquer ação futura: a agressão da Federação Russa deve parar. Devemos parar a matança de pessoas. Sim, Putin não nos perguntou quando planeou a invasão… mas não o parámos a tempo. Portanto, é importante fazê-lo pelo menos agora.

Claro que o nosso principal objetivo agora é parar a guerra na Ucrânia. Mas devemos lutar também pelo futuro da Rússia. Não resta muito tempo para este ditador enlouquecido. A sua pequena guerra vitoriosa não correu  conforme tinha sido planeado e agora a sua queda é apenas uma questão de tempo e do modo como vai acontecer. Mas o que acontece a seguir, depois de Putin?

Os territórios da Federação Russa estão agora numa encruzilhada histórica. O colapso do regime de Putin pode desencadear um processo de libertação. Claro que isso não nos levará ao ideal anarquista imediatamente… mas pelo menos a Rússia não estará mais em guerra com o resto do mundo e com sua própria população. Nesta onda de mudanças, haverá oportunidades para mudanças sérias no sistema político em direção a uma maior descentralização; por exemplo, a abolição total da presidência e a transição para uma república parlamentar, de que falamos há algum tempo (em russo).

Contudo, há outra possibilidade para “o que vem depois, depois de Putin”: o regime pode transformar-se num estádio larval num regime ainda mais autoritário. O encerramento completo de todas as fronteiras e a eliminação dos contactos internacionais. O bloqueio de  metade da internet na Rússia esta noite é apenas o primeiro sinal. Não haverá mais forças para guerras agressivas, mas isso não vai tornar mais fácil para os habitantes: eles vão estar numa situação semelhante às da Coreia do Norte. E na Coreia do Norte não há absolutamente nenhum movimento anarquista. Nada.

A face do futuro da Rússia a partir de seu presente? Veremos.

Agora, nos próximos dias e semanas, todos teremos uma janela de oportunidade incomparável. O regime autoritário de Putin cometeu um erro fatal e está a recuar. Se o psicopata do Kremlin não apertar o botão nuclear, não durará muito. E agora tudo depende de nós, os habitantes da Rússia. Se permanecermos em silêncio, a agenda será rapidamente tomada pelos isolacionistas e conservadores, que são a maioria nos altos escalões do poder. Mas se formos ativos, venceremos. Um leviatã enferrujado só tem que ser empurrado para se transformar em pó.

Saiam à rua em 6 de março. Se não puderem fazê-lo no dia 6, saiam nos outros dias. Se não puder mesmo  sair, proteste contra a guerra de outras maneiras: distribua panfletos e posteres, cole auto-colantes, escreva “não à guerra” na sua máscara, pendure cartazes nas varandas. Por fim, fale com as pessoas.  Isso importa agora mais do que os estudos, o trabalho, ou qualquer coisa no mundo. Agora o destino, não só da Ucrânia, mas também da Rússia está a ser decidido. O nosso futuro está a ser definido … e somente nós seremos os responsáveis ​​pelo que ele vier a ser.

O inverno acabou. A primavera está  a chegar.

Acção Autónoma

Um autocolante que diz “Não à guerra” na Rússia.
Um autocolante que diz “Não à guerra” num mapa urbano na Rússia.
Um desenho numa mochila pertencente a um manifestante antiguerra russo.

Traduzido para português pelo Portal Anarquista daqui.




Fonte: Colectivolibertarioevora.wordpress.com