Abril 7, 2022
Do Colectivo Libertario Evora
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Ação de protesto de um ativista desconhecido com o título “Bucha-Moscovo” contra os crimes de guerra do exército russo na Ucrânia

Ivan Astashin *

Não estou surpreendido com a violência. Não estou surpreendido porque sei da violência que acontece na Rússia todos os dias. A crueldade sem sentido é, aparentemente, a norma para alguns russos. Não tenho uma resposta pronta para o porquê de assim ser. Vale a pena pedir uma explicação a sociólogos, antropólogos e psicólogos.

Aqueles de vocês que nasceram no início dos anos 90 ou antes, provavelmente sabem das execuções brutais, torturas e violações da população chechena por soldados russos. Alguns dirão que os militantes chechenos também foram cruéis. Sim, foram. Mas vale sempre a pena recordar que foram as tropas russas que invadiram a Chechénia, e não o contrário. Outra grande questão é saber quem foi o primeiro a empregar a tortura e a executar o alegado inimigo utilizando formas elaboradas. Para refrescar a memória destes acontecimentos, gostaria de lembrar vários casos bem conhecidos. O bombardeamento de Katyr-Yurt. O assassinato de seis dúzias de civis em Novy Aldy pela polícia de Petersburgo. O rapto, violação e assassinato da menina chechena Elza Kungayeva, de 18 anos, pelo Coronel Yuri Budanov. Além disso, defensores dos direitos humanos, jornalistas e o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem verificaram de forma fiável um grande número de raptos e as torturas mais cruéis dos chechenos pelas forças russas.

Lembro-me da primeira vez que tomei conhecimento destas torturas na escola. Um colega de turma disse-me que o seu irmão tinha “lutado” na Chechénia e regressou com uma cassete de vídeo mostrando a tortura dos habitantes locais. Eu não vi a cassete: o que o meu colega de turma me contou foi suficiente. Alguns anos mais tarde, no nono ano, conheci um rapaz checheno da minha idade, que me falou de torturas semelhantes e a que os seus familiares tinham sido sujeitos. Foi-me dito o mesmo por homens, que conheci na prisão, que tinham estado envolvidos na campanha chechena. Só os próprios chechenos não gostam de falar sobre as torturas e violações; por conseguinte, a informação encontrada em fontes abertas detalha apenas uma pequena parte dos crimes cometidos pelas forças de segurança russas na Chechénia.

Para além da guerra, há também uma crueldade assinalável (sadismo, diria mesmo) tanto no exército como fora dele. Por isso, é bastante lógico que, se  os soldados russos intimidam e torturam de facto outros soldados como eles, não tenham quaisquer barreiras morais em relação ao inimigo e à população civil “inimiga”. A infame história do soldado Andrei Sychev, que foi torturado pelos seus companheiros por ocasião do Ano Novo, é uma ilustração eloquente das relações no seio do exército.

Como provavelmente todos agora sabem, existem “tapetes rolantes” de tortura no sistema penitenciário russo. Nesses locais, os prisioneiros são torturados com extrema crueldade. E, ao que parece, com um prazer particular. São torturados tanto por funcionários do Serviço Penitenciário Federal como por outros prisioneiros que tenham feito acordos com os guardas. Eles torturam e violam prisioneiros, e por vezes matam-nos. Além disso, isto acontece tanto nas penitenciárias de adultos como nas de menores.

E a polícia? Eles também gostam de torturar, espancar e, por vezes, violar detidos nos departamentos de polícia.

No entanto, a crueldade não se encontra apenas entre as forças de segurança. Devido ao facto de eu ter a fama de ser um “advogado” quando estava na colónia penal, muitos prisioneiros traziam-me as suas sentenças para “dar uma vista de olhos”. Quem me dera não as ter visto. Por ganância, pelo estupor da bebedeira ou por medo, estas pessoas aparentemente vulgares tinham feito coisas terríveis. Lembro-me também das histórias de alguns dos meus amigos presos sobre como os seus pais os tinham “educado”. “O meu pai bateu-me com um pau”. “O meu espancou-me com uma mangueira”.

Quanto a estes últimos argumentos, poderiam contrapor-me dizendo que são criminosos de oriundos de meios difíceis. Talvez. E quanto à violência doméstica? Segundo a Organização das Associações Não Governamentais de Mulheres pelo menos cinco mil mulheres foram mortas em consequência da violência doméstica [na Rússia] só em 2018.

Uma vez no poder (tenha sido obtido através de divisas ou enquanto “chefe da família”) e acreditando na impunidade, muitas, muitas pessoas na Rússia tornam-se carrascos, sádicos e violadores. E se isto também for reforçado pela propaganda xenófoba e pelo álcool forte, os monstros começam a fazer o inimaginável. Uma vez que o regime na Rússia dá a algumas pessoas a autoridade para infligir o que quiserem aos que se encontram sob as suas ordens, e obriga outros a obedecer e a não se revoltarem, a violência torna-se um lugar comum.

Agora alastrou para fora da Rússia. O mundo inteiro percebeu agora o que estava a acontecer, secretamente, durante as “operações antiterroristas”, nos departamentos da polícia, nas prisões secretas e nas instituições não classificadas do Serviço Penitenciário Federal, e no exército, bem como nas ruas e nos domicílios. [Bucha] é sem dúvida uma terrível tragédia e uma enorme dor para as vítimas e para todas as pessoas decentes. Mas espero que, com o tempo, isso leve a sociedade a reexaminar a política de conceder a alguns  um poder incontrolado. Livrar o mundo da violência parece ser uma tarefa quase impossível, mas penso que quando a Rússia não tiver polícias a quem “Putin diga para espancar” alguém, quando não houver militares cujos crimes sejam “limpos pela guerra”, quando já não houver agentes de segurança que “defendam a mãe-pátria”, e quando não houver apoio da sociedade ao patriarcado, ao racismo e à xenofobia, haverá muito menos violência.

*Activista russo, foi preso quando tinha 17 anos, condenado a 13 anos de prisão, esteve detido numa colónia penal durante perto de 10 anos, após o que foi libertado. O texto foi publicado no site https://therussianreader.com/ a 5 de Abril de 2022 e no site anarquista russo  autonomous a 6 de Abril.




Fonte: Colectivolibertarioevora.wordpress.com