Abril 16, 2022
Do Colectivo Libertario Evora
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A professora universitária Maria Rachmaninova, doutorada em Filosofia, fundadora da Akrateia, uma revista dedicada ao estudo do pensamento anarquista, lecionava há dois anos no Departamento de Filosofia e Estudos Culturais da Universidade dos Sindicatos de São Petersburgo (SPbGUP). Agora já não dá aulas. Foi obrigada a demitir-se no seguimento duma denúncia por ter abordado com os alunos o tema da guerra na Ucrânia.

O site Glasnaya publicou recentemente  um artigo de Maria Rachmaninova sobre a sua demissão e a censura no sistema de ensino russo, intitulado “Era um canto de cisne”.

Rachmaninova é uma conhecida autora de livros sobre o anarquismo e o anarco-feminismo e a sua tese de doutoramento foi sobre  “Genealogia e Fundamentos Teóricos das Formas Modernas de Anarquismo (Do Século XIX ao Século XXI)”.

Segundo a própria, “na manhã de 24 de fevereiro, quando a guerra começou, fui trabalhar sem abrir as caixas de mensagens das redes sociais. Um amigo ligou-me e contou-me o que tinha começado na Ucrânia. Caminhei um quilômetro até a universidade em completo estupor. Naquele dia eu deveria dar uma palestra sobre estética. Entrei na sala e percebi que estava a sufocar, e que não conseguiria dar a aula – pela primeira vez em 15 anos.”

“Ficou claro que nenhum dos alunos sabia de nada ainda. A maioria deles, infelizmente, não lê os media independentes. (…) Dirigi-me à assistência: “Caros amigos, infelizmente, hoje é um dia muito terrível, todos nós acordamos num momento de catástrofe mundial”.

Segundo a própria, contou aos alunos, em linhas gerais, o que sabia até aquele momento sobre a guerra, e no final acrescentou os motivos para esta introdução: “… por causa disto, não me sinto capaz de ser a mesma de sempre. Peço-lhes que compreendam”

“Comecei então a dar uma aula sobre a busca estética na arte. Tinha um slide sobre o quadro Guernica de Picasso [Uma pintura cubista em preto e branco de Pablo Picasso sobre o bombardeamento da cidade espanhola de Guernica pela legião alemã durante a Guerra Civil Espanhola em 1937.]. No final, as primeiras quatro filas da  sala de aula estavam a chorar”.

“Era o meu canto do cisne, mas eu não sabia ainda que o era. Durante o intervalo, muitos alunos vieram ter comigo: um abraçou-me, outro expressou preocupação. Soube-se que havia uma rapariga que tinha familiares em Ivano-Frankivsk, estava a haver operações militares lá e eles foram evacuados. Os alunos pediram-me para deixar algum tempo no final da aula para responder às suas perguntas sobre a história das relações russo-ucranianas. (…) Falei de forma bastante sucinta sobre os acontecimentos de 2014 e o que se passou depois; se a Rússia tem motivos objetivos para temer a agressão da NATO e se o mundo ocidental a quer levar para o seu lado.”

Segundo o relato de Maria Rachmaninova, terá sido então que apareceu na sala, atrás dos alunos, “um homem corpulento, parecendo um segurança. Mas não era um segurança – conheço todos os seguranças. Ele ficou com os braços cruzados sobre a barriga e olhou para mim, balançando a cabeça em desaprovação. Eu acabei a aula com a presença desse homem. Nunca mais o vi. Ainda não sei quem era, mas tudo começou com ele.”

“A próxima aula com os mesmos alunos aconteceu uma semana depois. Uma semana que passei sem dormir – em desespero, tristeza, culpa, medo e lágrimas. Comecei a gaguejar, fiquei tonta, sentia-me em péssimo estado, por isso pedi desculpa aos alunos por esse facto. Nesse dia, a aula tinha a ver com o tema da sociedade e da política – era sobre o século XIX. Havia também uma palavra [uma palavra proibida na Federação Russa] –  e eu disse-a em relação ao contexto do passado. Não expressei qualquer julgamento nas passagens em que havia nomes de alguém ou coisas mais radicais.”

Durante o intervalo de cinco minutos, recebi uma chamada da reitoria [Faculdade de Letras] sobre a denúncia de um aluno. Fui ameaçada de que agiriam se eu não parasse imediatamente de “falar sobre política” porque “a universidade está fora da política”. Depois disto, dirigi-me aos alunos: “Acabamos de analisar o conceito de “ambiente de esforço” de Merab Mamardashvili, segundo o qual nada na cultura existe por si só, mas apenas graças ao contributo das pessoas. Isso também se aplica às tradições. Temos uma tradição de longa data de que muitas pessoas ainda hoje gostam – a tradição do Gulag. E, de fato, o Gulag só pode ser reproduzido por meio do contributo das pessoas, isto é, da denúncia. Agora mesmo, alguém nesta plateia ligou para o escritório do reitor e e fez uma denúncia contra mim. Imagina-se?”

Os estudantes agitaram-se, todos ficaram em estado de choque e, lembra a professora, – “um dos alunos pulou para cima duma cadeira e gritou: “Onde está o rato?!”. “Tornou-se alarmante”, observa Rachmaninova, acrescentando que quando saiu da sala de aula estava a ser exibido “um vídeo numa tela enorme no corredor com uma frase do reitor que dizia: “Segundo as minhas estimativas, faltam cerca de dez dias para a derrota completa do estado fascista”. Percebi que em tal ambiente não conseguia e nem queria trabalhar. Escrevi a um meu colega, professor do nosso departamento: “O que acha, fiz o que estava certo?”. Ele respondeu que estava absolutamente certa. E eu disse-lhe que tinha decidido demitir-me.”

“À noite do mesmo dia no chat da universidade [chat de conversa de funcionários do Departamento de Filosofia e Estudos Culturais] apareceu uma mensagem onde se podia ler: “Caros colegas!! <…> Não é permitido discutir a situação política do país!! Já recebemos queixas dos alunos!!! O próximo passo será uma reação da administração. “(…) Depois disso, todos foram bloqueados no chat: apenas o chefe do departamento e o auxiliar de direção podiam participar. O meu colega Vyacheslav Kornev apresentou a sua carta de demissão três dias depois de mim.”

A Universidade quando questionada pelo sítio Glasnaya sobre os motivos da saída da professora, explicou que a demissão de Rakhmaninova teve a ver com uma decisão sua e que estava ligada a “circunstâncias familiares inadiáveis”. Uma funcionária do departamento (que se recusou a identificar) descreveu Rachmaninova como “uma excelente professora, uma professora que gosta muito dos alunos”. Quando solicitado a confirmar ou refutar a proibição de falar sobre política com os alunos, um funcionário do departamento respondeu que “isso é um assunto interno da universidade”.

Relacionado: https://avtonom.org/news/kogda-smotryat-glazami-mayora-chitat-lekcii-ne-hochetsya-mariya-rahmaninova-ob-uvolnenii-iz

https://zona.media/article/2022/04/12/spbgup

sobre Maria Rachmaninova https://discours.io/articles/theory/anarchist-perspective




Fonte: Colectivolibertarioevora.wordpress.com