Janeiro 25, 2021
Do Passa Palavra
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Por Jan Cenek

Algumas perguntas e uma definição provisória

Primeiramente, um esclarecimento: pixo vai com x porque lembra lixo, e o ato de pixar não respeita as leis, muito menos as ortográficas.

São Paulo é outra coisa, não é exatamente amor, é identificação absoluta – cantou Itamar Assunção[1]. Mas o que é São Paulo? Identificação absoluta? Será?

Ninguém anda um quarteirão em São Paulo sem avistar muros, portões, pontos de ônibus e outros logradouros logomarcados com símbolos e palavras de difícil compreensão. São os pixos. Já disseram que em São Paulo há edifícios que parecem cadernos de caligrafia gigantes. Dizem até que há quem visite a cidade exclusivamente para ver prédios pixados. Os pixos são uma espécie de anticartão do postal de São Paulo[2], que também expõe frases políticas e até versos em suas fachadas, mas em menor quantidade.

As pixações não são exclusividade paulistana. Muito pelo contrário. Mas, parece-me que, quanto maior a cidade, mais pixos. Não é comum observar símbolos e palavras praticamente indecifráveis nos muros de cidadezinhas do interior. Talvez o fenômeno tenha a ver com a solidão aglomerada[3] das megalópoles. Se for isso, é possível que minha impressão esteja correta e a maior cidade do hemisfério sul – São Paulo – realmente seja a capital do pixo, que é a estética da barbárie.

Se as pixações estão em todos os cantos, talvez tenham algo a dizer sobre a cidade. O que dizem os pixos?

Hipótese 1

Havia centenas de nascentes e cursos de água em São Paulo. Com o crescimento desordenado, nascentes foram fechadas e cursos de água viraram escoadouros de esgoto canalizados debaixo do asfalto. Várzeas e lagoas foram aterradas pela especulação imobiliária. Para esconder vergonhas e aumentar lucros, foram construídos edifícios sobre várzeas e lagoas aterradas.

Nas últimas décadas do século XX, quando a cidade havia escondido suas vergonhas, os cidadãos desenvolveram o estranho hábito de logomarcar os muros com símbolos e palavras de difícil compreensão. Quanto mais punição, pintura e limpeza, mais registros praticamente indecifráveis. São as vergonhas da cidade reexpostas.

Hipótese 2

Gilles Lipovetsky enxerga um movimento de sedução superestetizada na arquitetura contemporânea, que empenha-se em surpreender, encantar e tocar as sensações visuais e táteis do público: a utopia foi suplantada pelo fetichismo da personificação da construção, o culto dos objetos singulares, a sedução das formas fluidas e as curvas livres, em sintonia com a cultura hedonista do consumismo triunfante[4]. O filósofo define o fenômeno como a arquitetura do espetáculo.

O pixo é um rechaço contra a sedução superestetizada da sociedade do espetáculo, incluindo a arquitetura. É um grito dos que não se sentem contemplados pelo capital, porque não têm dinheiro para consumir e/ou porque rechaçam a sociedade de consumo, ainda que não saibam como substituí-la.

Existe amor por SP

Um amigo me contou que, tendo que trabalhar na Amazônia, começou a sentir saudade de São Paulo. Para matar a saudade, sintonizava programas policiais, que odiava, mas que às vezes mostravam as marginais, as ruas e as avenidas paulistanas, de forma que podia rever a cidade.

O exemplo do meu amigo mostra que existe amor por São Paulo. Mas é um amor estranho que se manifesta pelo avesso. São Paulo agride seus habitantes, que agridem a cidade. Como nos pixos?

Seja como for, uma coisa certa, o amor por São Paulo não tem nada a ver com o ufanismo bocó a la nosso céu tem mais estrelas, nossas várzeas têm mais flores, nossos bosques têm mais vida, nossa vida mais amores[5]. É exatamente o contrário. Só não sei se chega a ser identificação absoluta, como cantou Itamar Assunção.

Algumas imagens e uma possibilidade

Gosto de andar por São Paulo. Com alguma atenção, é possível observar os caminhos percorridos pelos cursos de água que correm por baixo de escadões, vielas e canteiros. Todos canalizados e pixados. Como devia ser bonita a cidade antes do concreto e das canalizações, com centenas de cursos de água que corriam para interior…

Como é desagradável a cidade atual, com milhares de edifícios censurando o horizonte[6], muitos logomarcados com símbolos e palavras de difícil compreensão, o que indica, pelo menos, que alguém veio de longe, provavelmente da periferia, e se arriscou para esfregar na cara da sociedade que não concorda com as coisas como são e estão.

Há no pixo um quê de esporte radical, mas com uma diferença importante, a descarga de adrenalina não tem a ver apenas com a superação de limites físicos, é também um tapa na cara do Estado, das leis, da propriedade privada, da polícia, dos “cidadãos de bem”. Não é pouco. Dias Gomes afirmou que quem não veio ao mundo para incomodar não deveria ter vindo. Se é assim, o pixo está ontologicamente justificado.

Vejo o pixo como o vapor que sai pela válvula da panela de pressão. Se o pixo é o vapor, São Paulo é a panela de pressão, que pode explodir a qualquer momento, como em junho de 2013.

Notas

[1] Versos da canção Persigo São Paulo.

[2] Ver os documentários Pixo, Pixadores em ação, Um grito em meio ao silêncio: pixo.

[3] “Aglomerada solidão” é um verso da canção São, São Paulo, de Tom Zé.

[4] Lipovetsky, G., Da leveza. Barueri: Amaralys, 2016.

[5] Versos do poema Canção do Exílio, de Gonçalves Dias.

[6] Prédios: censuradores de horizontes. Sacada da camarada Danimar.




Fonte: Passapalavra.info