Agosto 13, 2021
Do Passa Palavra
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Por Movimento Transparência

O Movimento Transparência é formado por musicistas residentes no estado de São Paulo.

A história de nossa profissão não está alheia ao processo histórico da precarização do trabalho. Pelo contrário, o modelo instável de relação trabalhista dos músicos (gigs) serviu como inspiração para dar nome ao que hoje é conhecido como gig economy. Segundo essa lógica, trabalhadores são autônomos, não possuem qualquer respaldo contratual e, consequentemente, nenhuma segurança jurídica.

Todavia, como artistas, cidadãos, cidadãs e contribuintes, nós temos o direito a condições e acordos de trabalho dignos. E, para além dos desafios comuns às outras profissões, temos nossos agravantes específicos, tais como: curadorias obscuras; graves e diversos problemas de representatividade; falta de órgãos fiscalizadores que realmente nos represente; imposições e mudanças de regras cada vez mais prejudiciais à nossa classe por parte de proprietários/cargos de direção de casas de música ao vivo, instituições de ensino, de eventos, de festivais e do Sistema S.

Não é novidade que o setor de cultura foi, se não o mais afetado, um dos que mais sofreu com a pandemia no Brasil. Enquanto algumas profissões puderam rapidamente se adaptar em outros formatos e continuar seus trabalho em meio ao confinamento coletivo, a atividade de música ao vivo foi completamente interrompida. A maioria dos músicos, sobretudo aqueles que se sustentavam economicamente apenas com o dinheiro dessas apresentações, ficou em situação muito vulnerável.

Para piorar o cenário, em alguns casos, o dinheiro que os músicos ainda teriam a receber das últimas apresentações e vendas de CDs que ocorreram antes da pandemia, não foi devidamente pago. A justificativa para a não quitação dessas dívidas recaía sobre a pandemia.

Fato é que, hoje, em agosto de 2021, essas dívidas ainda estão pendentes. O que o incomoda profundamente é saber que algumas dessas casas de show, bares e restaurantes, conseguiram se reestruturar financeiramente com o apoio ora de financiamentos coletivos, ora de editais públicos, e já voltaram às suas atividades. Cabe a pergunta:

Onde foi parar o dinheiro dos músicos?

Já vem de algum tempo, uma prática pouco republicana e nada transparente parece ter se tornado regra operacional entre algumas casas de show. Ao que tudo indica, o couvert artístico que, em tese, deveria ser repassado aos músicos integral ou parcialmente (dependendo do acordo entre as partes), vem sendo integrado ao fluxo de caixa desses negócios. Seguindo essa lógica operacional, o dinheiro pago pelo público entraria nas contas dos bares que só nos repassariam um mês depois da data de nossas apresentações, isto quando o prazo era cumprido.

Essa pode ser a razão pela qual o dinheiro que foi pago como couvert artístico, em algumas apresentações que aconteceram até março de 2020, não chegou às mãos dos musicistas, e possivelmente foi destinado a outros fins. Os trabalhadores que se apresentaram nas referidas datas, os verdadeiros proprietários desse dinheiro, não têm qualquer recurso para descobrir seu real paradeiro.

Mesmo em situações nas quais, ao invés de couvert artístico, um cachê foi previamente acordado, algumas dessas casas não honraram com seus compromissos. Como efeito, no momento em que ficamos mais vulneráveis, momento de pandemia em que nosso setor foi dos mais atingidos, o valor de nosso trabalho foi ainda mais rebaixado. As casas que frequentemente se auto intitulam nossas parceiras, quebraram nossa confiança.

Diante desse quadro, não nos resta outra atitude se não a de vir a público e externar a situação constrangedora à qual nossa classe vem sendo submetida. Por isso, nós, do Movimento Transparência, queremos por meio desta deixar registrado a postura das seguintes casas em relação ao pagamento de apresentações que ocorreram até março de 2020, isto é, antes da crise causada pela pandemia.

  • JAZZ NOS FUNDOS: ainda com pagamentos pendentes até a presente data, se comprometeram a quitar todas as dívidas até setembro;
  • CAFÉ SOCIETY: fecharam a casa e alegam não terem condições financeiras para quitar as dívidas nem perspectiva para data de pagamento;
  • POBRE JUAN, BAR FERRA (Jóquei Clube) e BLUE NOTE São Paulo: terminaram de quitar as dívidas em agosto de 2021;
  • NOSSA CASA: ainda com pagamentos pendentes, alegam não terem condições financeiras e nenhuma perspectiva de data para quitar a dívida.

Esperamos que os gestores dessas casas venham a público no sentido de esclarecer essas questões.

Considerações finais:

Se a pandemia nos mostrou o quanto nossa profissão é vulnerável, ela nos mostrou também quão resilientes somos, quão capazes de criar outros meios de nos relacionarmos com nosso público e continuarmos vivendo e tocando mesmo sem as casas de show. Mostrou também que, sem nós músicos, nenhuma casa de show sobrevive e isso precisa ser valorizado.

Sabemos da importância e da potência do encontro ao vivo. Estamos todos sedentos por voltarmos a tocar em público e reiteramos, somos os maiores interessados em que as casas de show se reergam o quanto antes ! Nós almejamos muito essa parceria, no entanto, essa relação não pode se pautar apenas em interesses econômicos.
Nós, do Movimento Transparência, estamos abertos a parcerias com casas que queiram construir um circuito cultural forte e autossuficiente. Um circuito em que a relação entre músicos e público seja mediada por pessoas (gestores) que efetivamente compreendam a relevância da transparência nessa mediação.

Esse desejo se estende às casas que atualmente devem aos músicos e, no intuito de restaurar uma relação de trabalho que seja sustentável, saudável e longeva, nós do Movimento Transparência estamos nos organizando para apresentarmos uma série de reivindicações que julgamos indispensáveis para o reposicionamento de nossas relações trabalhistas e consequentemente reestruturação do nosso setor.

Queremos deixar, também, o convite aos músicos que se identificarem com nossa causa. Juntem-se a nós!

São Paulo, 9 de agosto de 2021.

Assinam a carta:

Alex Buck, Arismar do Espírito Santo, Rubinho Antunes, Glauco Solter, Josué dos Santos, Joabe Reis, Everton Barba, Samuel Pompeo, Salomão Soares, Fellipi Sodré, Rafael Abissamra, Edu Nali, Anderson Quevedo, Thiago Alves, Rob Ashtoffen, Ricardo Telles, Paulinho Vicente, Fábio Faustino, Diego Garbin, Michel Santos, Marcos Paiva, Noa Stroeter, Taís Cavalcanti, Caio Pamplona, Lucy Brand, Vinicius Corilow, Gustavo Carvalho, Igor Bollos, Dô de Carvalho, Fi Maróstica, Michel Leme, Henrique Khede, Rodrigo Digão Braz, Tomaz Lambert, Tiago Daiello, Tatiana Parra, Richard Metairon, Lucille Berce, Victor Barreto, Paulo Almeida, Rodrigo Nascimento, Jota P Barbosa, Edson Sant’anna, Fábio Peron, Nicolle Paes, Fábio Oliva, Mariana Marchi, Maiara Moraes, Felipe Silveira, Vanessa Ferreira, Cesar Aranguibel, Cassio Ferreira, Sofia Barion, Daniel Pezim, Jônatas Sansão, Davi Sansão, Filó Machado, Camila Machado, Felipe Machado, Sérgio Machado, Sérgio Coelho, Danilo Silva, Carlos Ezequiel, Daniel Grajew, Marina Bastos, André Marques, Paulo Malheiros, Bruno Migotto, João Nepomuceno, Rocío Romero, Abdnald Santiago, Ewerton Silva, Breno Ferrari, Thomaz Souza, Igor Pimenta, Viviane Pinheiro Roque, Gustavo Villas Boas, Vanessa Moreno, Michael Pipoquinha, Fábio Leal, Louise Woolley, Vinícius Núñes, César Roversi, Caetano Ribeiro, Fábio Marrone, Liliana Bollos, Jefferson Rodrigues, Muari Vieira, Felipe Gianei, Fábio Leandro, Fúlvio Moraes, Guilherme Camargo, Fernando Correa, Marília Tardelli, Cleber Almeida, Graziela Medori, Gabi Gonzales, Geraldine Ruiz, Anete Ruiz, Felipe Brisola, Marcus Teixeira, Maira Rodrigues, Felipe Fidelis, Osmário Marinho, Rogério Cruz.

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Fonte: Passapalavra.info