Maio 11, 2021
Do Uniao Popular Anarquista
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A resistência frente a miséria econômica e política é um ato de bravura e esperança. Quando a vida parecer arruinar sob os escombros dos trabalhos precários, da repressão estatal, do higienismo habitacional racista e xenófobo, da mercantilização dos serviços públicos, construir o anarquismo revolucionário abre uma nova porta dos caminhos da libertação. E é das lutas mais enérgicas que nascem os melhores filhos da revolução!

Por isso, desde o campo bakuninista saudamos com muito entusiasmo a fundação do Comitê Pró-Organização Anarquista em Portugal – COPOAP! A iniciativa dos camaradas aponta para aquilo que o anarquismo precisa voltar a ser: uma organização com responsabilidade coletiva, com unidade teórica, tática e estratégica capaz de influenciar decisivamente o movimento revolucionário da classe trabalhadora.

Nosso tempo é precioso demais para cairmos nos desvios liberais e ecletistas do anarquismo. “Anarquismo não é uma utopia bonita, nem uma ideia filosófica abstrata”, como ensina o grupo Dielo Trouda. Já conhecemos o atoleiro culturalista, individualista e educacionista em que isso leva. “Para não ter protestos em vão, para sair deste antro estreito”, devemos ter paciência e empenho para ir ao povo e trilhar um sério trabalho militante, enfrentando todas as contradições com uma organização consistente, coerente, duradoura e eficaz.

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Porém, não basta a mera organização dos anarquistas. Afinal, nos organizamos com qual objetivo finalista? Percorreremos quais caminhos até este destino? Com base em qual teoria? Com qual disposição de luta? Para a Unipa, faz sentido existir uma organização anarquista quando ela pensa e age para unir o povo, para resolver os problemas fundamentais do poder, para romper a colaboração de classes, para combater sem vacilo os reformistas e, finalmente, para esmagar os pilares do Estado, do capitalismo e sua repressão.

Mas não nos enganamos: são as massas que fazem a revolução e estas que devem tomar o poder, seja qual for as ideologias presentes. Por isso a pluralidade é pré-condição para existência dos movimentos de massa, um princípio fundamental do sindicalismo revolucionário. Aos anarquistas, cabe o papel de amigos do povo, atuando enérgica e cirurgicamente para agitar, propagandear e organizar as condições de vida ou morte para a ruptura revolucionária socialista. Ou como vocês dizem: devemos ser as mãos das massas!

Desde o Brasil, enviamos um caloroso abraço aos irmãos internacionais do Copoap! Vocês não estão sozinhos, contem conosco. Reforçamos o chamado para construirmos uma rede anarquista internacional. Em cada território do globo onde houver exploração e opressão, lá devemos estar para quebrar estes grilhões!

Viva o COPOAP!

Liberdade ou Morte!

Bakunin Vive e Vencerá!

Avante o anarquismo revolucionário!


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Leia o manifesto de fundação do COPOAP:

Mãos das Massas:

Construir o Anarquismo Revolucionário em Portugal

21 de dezembro de 2020

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Estamos no final de 2020 e a luta de classes intensifica-se, em Portugal e no mundo. Os interesses da classe capitalista continuam, cada vez mais, a fazer-se sentir e a dominar as nossas vidas, a explorar-nos, a limitar-nos, continuam a condenar-nos à miséria e à morte, com ou sem pandemia, com ou sem crise económica. Uma classe continua a ter de vender a sua força de trabalho para sobreviver, em condições cada vez mais precárias. Essa classe somos nós, trabalhadores e trabalhadoras assalariados, desempregados, precarizados por este mundo fora.

O Estado continua a ser o aparato violento e dissociante que defende o patronato e a propriedade e para fazê-lo não olha a meios nem se preocupa em manter o seu teatro benevolente quando o povo enfrenta o seu domínio. Os partidos que almejam disputar os aparelhos estatais e representativos para supostamente os transformar ou beneficiar de apenas algumas vantagens da política eleitoral continuam a ser assimilados e a contribuir para o prolongamento de um jogo que não queremos jogar. Os partidos que ambicionam controlar e utilizar os movimentos sociais como câmaras de eco para as suas percentagens, filiações, e interesses, continuam a minar o potencial dos espaços da nossa classe quando não encontram uma oposição organizada, autónoma e suficientemente forte. É necessário quebrar a hegemonia destes orquestradores de derrotas, e devolver ao povo o protagonismo de sua libertação.

O anarquismo, movimento das vidas e interesses de classe trabalhadora nesta luta, continua pertinente e a sua necessidade mais que atual, urgente. É nosso dever e papel assegurar a presença, iniciativa, disputa e direção alternativa rumo a um acréscimo revolucionário, socialista e de base dos movimentos sociais. A revolução será das massas, feita e pensada pelas massas criativamente através das suas organizações e estruturas pelo que devemos assumir o que somos: mãos das massas prontas a agir e refletir estrategicamente pela nossa autonomia e libertação. No momento, em Portugal, o movimento anarquista é pouco estruturado e não apresenta qualquer direcionamento programático perspectivando a construção revolucionária, ao contrário, limita-se a algumas “bolhas de autonomia” e espaços libertários, que apesar de importantes, não sustentam as necessidades do trabalho político e organizativo que permita delinear uma estratégia para a revolução portuguesa e internacional, bem como um programa e teoria anarquistas que suportem a nossa luta dentro das várias frentes dos movimentos sociais, analisando e reanalisando a conjuntura com cada acúmulo, propagando as nossas posições e métodos de forma democrática ao resto da classe e onde elas mais são necessárias.

Observamos duas atitudes prevalecentes ao que toca à acção no que se pode considerar movimento anarquista em Portugal. Por um lado, um sector culturalista, onde reina uma atitude de manutenção de um estado de arte desconectado do terreno de batalha, seja perdido em nostalgia seja perdido em liricismos individualistas e desprovidos de praxis, construído de si para si mesmo. Nesta pespectiva o anarquismo é compreendido como uma utopia cultural capaz de ser construída de forma isolada e  distante das necessidades concretas do povo trabalhador e marginalizado, exclusivamente através da pedagogia e propaganda sem estratégia. Por outro lado, há um sector investido em estar no campo cuja aproximação aos movimentos sociais se faz ainda de forma desarticulada e desorganizada, que por essa razão vamos denominar de ativista. Sem disputa tática e permeado por tabus sobre os papéis que podemos desempenhar e a preparação que devemos ter, deixa-se assim à mercê de forças oportunistas, já referidas acima. Acreditamos que a prática sem a teoria é um mal tão grande quanto a teoria sem a prática. É necessário planejar a acção, realizar uma construção estratégica de orientação revolucionária, e para tal é necessário um embasamento teórico também revolucionário. A falta destes elementos leva a um inferno da prática, onde acções desconectadas de resultados concretos tem como único efeito a criação de nichos identitários, ou, na pior das hipóteses, o esgotamento moral de possíveis militantes.

Mas tudo não é só deserto. Nos últimos quatro anos, camaradas vêm desenvolvendo um importante trabalho tentando retomar os métodos do sindicalismo revolucionário no meio estudantil, onde abraçaram a criação de um projeto organizado e estruturado, ideologicamente plural, autónomo, combativo e de classe que ousa construir e disputar espaços do movimento estudantil promovendo formas de luta e pautas que fortaleçam as e os estudantes, que desafiam o modus operandi das instituições capitalistas e estatistas, ao invés de as deixarem reféns de aparelhamentos formais ou informais por parte de partidos e interesses alheios à realidade imediata das de baixo;  e que conseguiram dinamizar relações nacional e internacionalmente. Também, no último ano, surge iniciativa similar dentro do campo de luta dos trabalhadores precarizados. Tomámos parte destas iniciativas, que foram imprenscindíveis para a nossa construção militante. Também foram necessárias para percebermos que elas, por si só, não bastam. É necessário ir além, em direção à construção de uma Organização Política que dê conta das exigências da luta revolucionária, que se detenha no papel da construção teórica e estratégica para o momento de ruptura.

Dito isto, há ainda um terceiro problema a nível teórico que aflige aqueles que se identificam com os ideais libertários em Portugal. Permeia em parte do anarquismo português uma visão idealista de que os movimentos sociais devem autoproclamar-se anarquistas para serem combativos. Na falta de organização política através da qual conspirar e aprofundar os seus postulados teóricos, buscam transformar os próprios movimentos nas suas organizações. Assim, ao invés dos movimentos e espaços sociais concentrarem-se nas suas lutas materiais objetivas, perdem tempo e energia discutindo assuntos completamente alheios ao que aquele espaço se propõe, dispostos inclusive a implodi-los em caso de discordância. Como defensores do sindicalismo revolucionário, observamos e compreendemos que os movimentos e os seus sujeitos tornam-se combativos e revolucionários através de uma prática libertadora, solidária e que incentiva a acção directa sem representantes e intermediários na defesa dos interesses da classe pela própria classe.

Refletindo sobre a mesma problemática, Bakunin escreve que

… os fundadores da Associação Internacional agiram com grande sabedoria ao eliminar inicialmente do programa dessa Associação todas as questões políticas e religiosas. Sem dúvida, não lhes faltaram em absoluto nem opiniões políticas, nem opiniões antirreligiosas bem definidas; mas eles abstiveram-se de emiti-las nesse programa porque seu objetivo principal era unir acima de tudo as massas operárias do mundo civilizado numa ação comum.

– A Política da Internacional, por Mikhail Bakunin

Falta uma organização que se proponha a um trabalho teórico, ideológico e programático da revolução que defendemos, que na tradição anarquista venha agrupar, capacitar e direcionar, a partir das análises e decisões comuns num campo conceptual coerente, a ação e a militância que sabe que quer uma sociedade sem Estado, organizada por quem trabalha, onde a liberdade do outro nos estende até ao infinito. Propomo-nos a começar a construir tal espaço. O tempo agora é de agir e começar a delinear as tarefas a realizar neste primeiro esforço organizativo e de luta.

Da mesma forma que um anarquismo que não enxerga classes ou sem projeto da classe trabalhadora não é anarquismo, um anarquismo que se abstém do campo, imobilizado, também não o é. Precisamos de um anarquismo que se faz presente e que reconhece na proposta da sua presença um anarquismo em movimento, um anarquismo de embate estrutural e ideológico. Uma parte desse anarquismo já existe e vem agora a público através desta publicação e coletivo.

Viva a luta dos povos contra o capital e a burguesia!
Viva a memória e prática do Socialismo Libertário!
Avante a construção do Anarquismo Revolucionário!

Coletivo Pró-Organização Anarquista em Portugal

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Fonte: Uniaoanarquista.wordpress.com