Abril 11, 2022
Do Passa Palavra
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Por Isadora de Andrade Guerreiro

Há algum tempo desce um nevoeiro nas lutas cujo adensamento durante a pandemia tem requerido andar de luz baixa, tateando o terreno para continuar avançando. As luzes altas, no desespero de enxergar caminhos possíveis, não raro ofuscam e levam ou à paralisia, ou a desastres. Um grupo de militantes decidiu mapear caminhos experimentados em meio à neblina, percorridos mais atentamente desde que “a coisa virou”, pós-eleição de Jair Bolsonaro. Com neblina densa, a pandemia os fez entrar em terrenos pantanosos, não percorridos pelos mais cautos. Entre call centers, entregadores de aplicativos, caminhoneiros, ambulantes nos trens, mobilizações pelo auxílio emergencial, uma efervescência de lutas pouco tradicionais se descortinava. Fizeram recentemente uma bela síntese das experiências em tom de análise de conjuntura, no texto “Masterclass de fim do mundo” – no qual a esperança de encontrar caminhos se confunde (ou se dispersa) continuamente com o angustiante vislumbre de que não se trata de mau tempo passageiro, mas de um (sentido do) tempo que veio para ficar. Nestes termos, a pergunta que não cala, a cada parágrafo, parece ser “faz sentido a busca de caminhos que levem a uma saída, ou juntemos forças e experiências de sobrevivência em meio ao desconhecido?”.

Convido à leitura do texto, que considero obrigatório àqueles que também começam a duvidar dos caminhos pretensamente luminosos prometidos após o “mau tempo”. Trata-se de uma importante síntese de um invejável compêndio de análises que vão desde textos da mídia tradicional, dos meios populares aos “cult”, de espectro ideológico diverso, até referências a coletivos e análises internacionais pouco conhecidos: esforço monumental de reflexão sobre o momento que vivemos, olhando “a contrapelo”, sem se deter em espetáculos triunfalistas, atuando a partir de relações de trabalho ali onde, acompanhando Dante ao inferno, “abandona-se toda a esperança” – mas, segundo Marx, vislumbram-se possibilidades de ação.

Farei aqui um debate com o texto, procurando ampliar os diálogos sobre ele e suas questões. Minha leitura, para quem ainda não conhece minhas colunas, passa sempre por costurar os nexos entre o mundo do trabalho – a esfera da produção – e o mundo da reprodução social, articulação a partir da qual olho para o urbano, e vice-versa. Neste sentido, o texto em questão faz pensar sobre o significado da contradição entre a falta de esperança no mundo do trabalho – que foi onde a esquerda, desde a revolução industrial, sempre colocou – e a impossibilidade de atuação e reflexão que o descarte. Assim, o texto não recusa a atuação militante no mundo do trabalho – como o fazem grupos identitários – mas, no entanto, também não encontra nele muitas esperanças, configurando-se como uma incógnita, ou, pelo menos, como uma esfinge para aqueles que procuram respostas.

Penso que tais respostas não são encontradas se o leitor de “Masterclass…” permanece fechado dentro do léxico da esfera da produção. Parece-me importante ler o texto, como uma pintura de Picasso, com olhos simultaneamente direcionados para o trabalho e para a reprodução social. Pois se trata da crônica de um tempo de giro histórico quando se dá uma nova fase de grande despossessão de meios de reprodução, necessária para a emergência de um novo sujeito, subsumido às necessidades de um capital em fase de extrema monopolização. Nestas condições, expedientes de sobrevivência, atividades que geram recursos são, mais do que confundidas e misturadas com trabalho produtivo, subsumidas às necessidades de uma forma de capital que se autonomizou da produção. Assim, a dinâmica de subsunção da esfera da reprodução social pelo capital fictício é facilmente confundida com precarização do trabalho que sustentaria uma retomada da acumulação de capital. Nestes termos, o mundo do trabalho fica sem sentido, pois se procura algo que não se encontra mais ali, embora tenha deixado um boneco em seu lugar. Assim, entendo que o que aparece como contradição insolúvel no texto aos olhos daqueles que apenas enxergam o mundo do trabalho, na verdade, se olhada de outro ponto de vista, ganha enorme força: depois do fim, seres humanos continuam precisando sobreviver. Resta disputar os sentidos desta sobrevivência, numa perspectiva de autonomia que pode mudar os rumos da história que, portanto, não acabou, como pode ser lido o citado “fim do mundo” do título do texto em questão.

Trabalho?

A escolha da análise de conjuntura pela atuação no mundo do trabalho em transformação em “Masterclass…” é pautada claramente pelas lutas nas quais o coletivo se envolve e descreve. Como um balé, vão sendo descortinadas lutas nos locais de trabalho nos quais a métrica da rotina opressiva está em compasso com a aceleração própria ao mundo virtual e financeiro – como os call centers e os entregadores de aplicativo. Com a pandemia, ronda o medo de algo desconhecido acompanhado da sombra de destruição que a gestão federal exerce cotidianamente, prometendo que não vai cuidar ou proteger ninguém.

Nesta conjuntura, os elementos que vão sendo levantados no texto constroem a imagem de caminhar na neblina, em terreno instável: entre o medo da demissão em meio à crise sanitária e a sensação de vitória com a demissão sem justa causa – movimento mundial de fuga de “trabalhos de merda” que, durante a pandemia, também passaram a significar o medo real de morrer trabalhando. Não se trata de lutas por direitos, algo que vai perdendo o sentido devido ao alto grau de desagregação social que a pandemia acelera. Trata-se de sobrevivência e desespero pelas contas a pagar no final do mês, numa cidadania de sujeitos endividados correndo contra o tempo. Em fuga inclusive da CLT, que aparece como mais uma das formas de prisão e opressão para quem percebe que ser o trabalhador que ela conforma vai, na prática, também morrer trabalhando. Lembrou-me de uma música do Mundo Livre S.A. (A Maldição (das páginas que não viram)): “Acham mesmo aceitável a vida se consumir numa deprimente corrida? (…) Funesta maratona sem linha de chegada”.

A pauta do progressismo ligado às lutas trabalhistas, portando, perde o sentido, “re-formista” buscando retomar uma forma que é recusada pelos próprios trabalhadores – sem que a necessidade de sobrevivência tenha solução para fora de um mundo do trabalho colapsado. O empreendedorismo aparece como possibilidade entre a busca por autonomia e a impossibilidade de sair do ciclo opressivo. Há uma espécie de reengajamento no mundo do trabalho, no qual a morte anunciada por todos os lados apenas faz acelerar a rotação da rotina, numa fuga para lugar nenhum – o novo normal.

O texto vai construindo esta dimensão que não é de beco sem saída (pois neste há uma barreira, um fim), mas de queda infinita, ou “maratona sem linha de chegada”, como na música. Um fim que não acaba. O termo usado no texto é tomado dos chineses: Nèijuăn, ou “involução”, que em uma tradução mais literal seria “rolar para dentro”. Outra imagem que recordei foi a do filme francês de Mathieu Kassovitz “La Haine” (“O ódio”), clássico de 1995 passado na periferia sublevada de Paris, que abre com a imagem de um coquetel Molotov caindo sobre o mundo, acompanhada da fala em off que descreve uma pessoa caindo do 50º andar e dizendo “até aqui tudo bem, até aqui tudo bem… o importante não é a queda, e sim a aterrissagem” (e o coquetel explode). Quase trinta anos depois, a angústia que o texto “Masterclass…” traz é que não houve a aterrissagem. E não está mais tudo bem! As atitudes desesperadas tomadas pelos trabalhadores – de suicídio espetacular ao voto em Bolsonaro – são lidas como uma tentativa de dar um ponto final numa tortura infinita, de achar o beco sem saída – de explodir, às vezes literalmente. São lembradas frases das estações de metrô em Hong Kong “prefiro virar cinzas do que pó” ou “se queimarmos, vocês queimam conosco”.

Minha leitura é que fica no ar se é possível ainda lermos isso como mundo do trabalho – nos termos de um capital variável, com custos planejados, produzindo estavelmente mais-valia. Tenho dificuldade de enxergar isso. Tenho dificuldade de ver alguma racionalidade do capital por trás disso que passe por uma simples planilha de custos. Só vejo fluxo de caixa de movimentação constante, tragando força de trabalho para o matadouro. Os autores trazem a imagem de que, depois do fim, alguém tem que ficar para varrer – ou seja, o trabalho continua. Fico na dúvida se a imagem é bem essa. Tendo a achar que ninguém varre mais, e ficamos no meio dos escombros buscando formas de sobrevivência. Temos que comer, não varrer. Mas o grupo de militantes que escreve o texto parece realmente acreditar que o trabalho permanece depois do fim, mas agora “sem forma”, assim como se transformaram as lutas. Pergunto-me se tal trabalho sem forma ainda é trabalho, ou se não é apenas expediente de sobrevivência – agora subsumido, ou seja, do ponto de vista do capital, mais uma forma de rentabilidade, não de acumulação (falei sobre isso no comentário ao texto de Daniel Giavarotti na coluna passada).

Vale, portanto, um maior aprofundamento no significado da chamada “viração”, que o texto retoma, fazendo o paralelo com a uberização – que seria, segundo Ludmila Abílio, a “subsunção real da viração”. Se nos atentarmos à descrição da viração no próprio texto (que retoma Vera Telles), nos deparamos com as formulações de “atividade que gera renda”, “atividades contingentes”, “expedientes legais e ilegais”, “percursos descontínuos no mercado de trabalho”. Ou seja: são dinâmicas de sobrevivência que atravessam (ou não) o mundo do trabalho, mas não se detém nele, não se con-formam (pois, afinal, ficam “sem forma”) por suas determinações internas.

Ao olhar para a uberização por meio das lutas dos entregadores, o texto abre uma chave importante neste aspecto: sem lutar por CLT (direitos), os trabalhadores se opõem àqueles que os empregam requisitando que sejam encarados como força de trabalho, ou seja, como capital variável, que tem custos. Não se conformam juridicamente, portanto, no campo dos direitos e dos contratos. Mas querem ser força de trabalho e, portanto, requisitam uma relação que não está dada. Pois está conformada por eles como expediente de sobrevivência, como viração e, pelo capital, como rentabilidade pelo uso de uma propriedade sua – o aplicativo. Renda de propriedade de um lado, reprodução da força de trabalho do outro. Mas a força de resistência, exercida na luta, é a reivindicação por trabalho! É necessário pensar, do ponto de vista da militância, o significado disso. Pois se foge do trabalhismo de um lado, e o encontra do outro… onde fica a luta por autonomia aí? Não se acha, no chão das lutas, a procurada “recusa ao trabalho”, ainda que haja recusa aos seus aspectos jurídicos-contratuais, não se recusam os seus rendimentos subordinados. Qual o significado, portanto, desta reivindicação difusa por “autonomia”? Que autonomia é esta, desencarnada politicamente?

Pois os mecanismos de controle sobre o “trabalho”, na uberização, não se diferenciam dos mecanismos de controle sobre a existência de corpos rentáveis – como a terra, no rentismo. Seu controle é via bancarização, endividamento – aprisionamento de energia futura, para que tais corpos não fujam da queda infinita, ou da corrida sem fim. A organização dos entregadores via whatsapp que o texto descreve parece uma boa imagem disso: trabalho e vida se misturam, se entrelaçam e se dispersam juntos, não acumulam nada.

No território: violência, fé e autogerenciamento subordinado

O controle de corpos rentáveis é a origem do país, nos marcos da escravidão. José de Souza Martins (“O cativeiro da terra”, 1978) analisa bem este processo, ao descrever a passagem da riqueza em forma de propriedade de escravos, para a riqueza na forma de terra – historicamente, lastros de empréstimos que se alternaram para permitir a implantação de um sistema produtivo no Brasil. Nada mais próximo ao que o texto “Masterclass…” relembra, no que concerne ao controle dos corpos dos entregadores na uberização: o “sistema jagunço”, longe da relação jurídica contratual, o léxico da violência aberta sobre corpos-mercadorias. O texto não entra na dimensão do crime organizado, das milícias, mas chama atenção para a necessidade de controle territorial destes corpos que, teoricamente, estão “livres”, são “autônomos”.

Nesta seara do controle territorial e do sistema jagunço – que substituem a aparente limpeza da relação contratual jurídica do trabalho (e a luta por direitos) – o texto entra no significado do lockdown durante a pandemia: “A sobreposição amapaense de colapsos completa a distopia brasileira, em que o Estado a um só tempo sabota medidas de isolamento social em nome da disciplina do trabalho, mas aciona um lockdown para conter a revolta popular”. Está bem posto o entrelaçamento necessário, nesta conjuntura, da esfera do trabalho com a dimensão urbana territorial: parar a cidade como mecanismo de controle de corpos que se revoltam, mas que precisam trabalhar. O controle algorítmico dos corpos pelos aplicativos promete, pelo que nos conta o texto, tensionar esta contradição. A rua permanece sendo difícil de controlar, mas elemento necessário nesta conjuntura de entrelaçamentos entre as esferas da produção e da reprodução social.

O texto vai relembrando manifestações de rua do período, que estiveram diretamente relacionadas ao mundo do trabalho “sem forma”: contra o lockdown, o “direito” de se virar. Diferentemente da década de 1990, de enorme desemprego, a população sobrante não é mais “reserva”, pois a viração está subsumida e as atividades que geram renda ocupam continuamente o tempo. Daí, continua o texto, as estratégias de convivência com o vírus e a emergência dos “kits covid”. Parece-me que essas dinâmicas de luta pelo trabalho são diferentes daquelas dos entregadores, pois são a parte da economia “desconectada” do controle do trabalho, mas ligada ao comércio, que por sua vez está ligado ao crédito. Essa população precisa da rua de outra forma, não como transporte, mas como local de trocas.

Abre-se então toda uma camada social ainda subsumida de maneira formal (e não real) aos desígnios do capital financeiro [1]. O “kit covid” se assemelha muito às soluções milagrosas, no campo da fé, como resposta desesperada à falta de opções. Uma dinâmica diferente do cotidiano dos entregadores, que andam na neblina de novas formas laborais que se confundem e se misturam com a viração: se sentem trabalhadores, lutam contra um “patrão” virtual, embora não tenham relações contratuais de trabalho. Nesta neblina de “viradores” em escalas diversas de subsunção, misturam-se, no território, formas também diversas de regulação e controle: da fé ao algoritmo, atravessados pelo sistema jagunço.

O texto não se desenvolve no campo da fé, o que acho que vale como reflexão futura, pois ele abre caminhos para se olhar para o fenômeno do ponto de vista desta conjuntura desesperadora da corrida sem linha de chegada. Pois a fé como forma popular de encarar o desespero se opõe à prática política, e isso marca parte do caráter da neblina. Enquanto a forma política se baseia no conflito, a fé se baseia na resiliência. Faz sentido que sejam as igrejas evangélicas aquelas que vão dar os instrumentos para o giro do mundo do trabalho em direção ao empreendedorismo: subsumem a autonomia dentro do campo da resiliência da fé.

Embora não embarque nesta seara da fé, o texto vai olhar para as redes de solidariedade que dão são base de sustentação de certa resiliência, mais materialista do que a fé. O texto vai fazer uma leitura destes processos (também via Ludmila Abílio) como formas de

autogerenciamento subordinado: característico do trabalho por aplicativos se mostra, aqui, uma tendência para a sobrevivência em geral na catástrofe. Das máscaras de pano feitas em casa e vendidas na rua – fonte de renda para quem sempre inventa um jeito de se virar – às barreiras sanitárias nas quais se revezavam moradores voluntários nas entradas de pequenos municípios e zonas turísticas, a quarentena só pôde existir na base da gambiarra, numa somatória de esforços descoordenados (e, não raro, conflitantes entre si) que resultou, no fim das contas, num gigantesco trabalho sujo. Enquanto se enterravam os mortos, todos colaboramos – em isolamento ou na correria – para manter a máquina urbana em funcionamento”.

Desta máquina urbana, dentro da neblina dos diversos graus de subsunção da viração, acredito que os militantes que escrevem “Masterclass…” fazem uma escolha de atuar dentro das esferas de maior nível. Eu diria a eles que, se a escolha é atuar nesta neblina, é importante, ao menos, entender o campo como um todo: pois as esferas da viração de menor grau de subsunção ao capital, ocupadas pela população sobrante – entre a rua e o sistema penal, o trabalho doméstico, variadas formas de trabalho feminino precário etc. – na verdade apenas passam por outros mecanismos, mais dependentes da intervenção estatal, mas estão também no mesmo terreno pantanoso. Também na pandemia administraram corpos nas ocupações de terra de despejados da pandemia, nas ruas, na cracolândia, na cadeia, e todos estes estão sendo preparados pelo Estado para renderem fluxos financeiros através do Impacto Social, das Parcerias Público-Privadas (PPP) e da economia compartilhada e plataformizada. São faces do mesmo processo – mas talvez as formas de luta associadas não apontem para a autonomia desejada, já que passam pelas lutas por dentro do Estado. Ainda acho que vale entendê-las como parte do processo, pois é ali que se movimentam dinâmicas de reestruturação do capital que também se espalham pelas formas de luta de segmentos de maior grau de subsunção.

Deste ponto de vista, eu discordo em parte com a frase final do texto, de que o “proletariado” não tem “nada a esperar e também nada a perder”. Pois me parece que o que está em jogo é a perda completa de sua autonomia mais profunda, disputada a ser subsumida de forma real pelo capital financeiro. Desconfio que o coletivo também suspeita disso pois, do contrário, não estaria “militando” por algo. Senão, do que se trataria tal militância?

Militância na neblina

A parte final do texto faz um esforço autoreflexivo sobre a própria militância: a “luta de classes sem forma”. As lutas são rotativas como o trabalho, com enorme dificuldade de acúmulo organizativo, se dispersando na nuvem. O que antigamente era chamado de “base” só existe no momento do enfrentamento e some em seguida. O conceito utilizado é o de “não-movimentos” (Endnotes), no qual há uma espécie de “luta de classes sem organização de classe”. É traçada uma linha entre as jornadas de 2013 e o Bolsonarismo, onde se percebe uma “insatisfação latente, que pode se reverter no avesso do impulso original”. Coloca-se em questão o futuro da própria atuação no mundo do trabalho, numa conjuntura de recusa às suas formas conhecidas, nas quais só há experiência negativa. Parece-me que é a própria noção de “militância” que precisa ser pensada, algo que o coletivo não faz, e nos deixa com “gostinho de quero mais”.

A raiz etimológica da palavra militância está na guerra: o soldado defende algo. Dentro de uma perspectiva mais fechada do que se entendeu por militância na fase industrial do capitalismo, muitos leitores de “Masterclass…” terminarão o texto perguntando “mas o que o grupo está defendendo?”. Seriam militantes em meio à “guerra híbrida”? É difícil catalogar tais lutas quando elas não trazem consigo nem alguma esperança de transformação, dentro da perspectiva de busca por algo que não está dado, de futuro; nem de resistência, no sentido de que antes, em algum passado identificável, a situação fosse melhor. Não são revolucionárias nem reformistas. Seria uma atuação “resiliente”, inercial, preocupada em fazer crônicas da “involução”?

Contraponho-me a este tipo de leitura. Como expus no início deste texto, acho que “Masterclass…” precisa ser lido com outro olhar, para fora das caixinhas puras do “mundo do trabalho” ou da “reprodução social” ou da “esfera da circulação”. O que ele nos propõe é a explosão destes limites, na medida em que a neblina embaralha elementos conhecidos e nos coloca frente a uma nova forma social. Penso que ela está ligada a uma fase de ultramonopolização do capital, na qual suas formas fictícias subsumem todas estas caixinhas. O coletivo fala pouco disso, parece ainda tatear buscando encontrar elementos reconhecíveis, familiares ao que se entendeu um dia por “militância”, em um mundo que não existe mais – algo que sabem, mas não o fazem (para parafrasear Marx) – ao menos ainda, considerando a tática da luz baixa em meio ao nevoeiro.

Vejo o grupo como parte de uma espécie de “novíssimos personagens” (lembrando Eder Sader) preocupados com a possibilidade de formas organizativas autônomas em meio à “involução”. Qual o significado das lutas quando o trabalho se confunde com a reprodução social em meio à viração? Como pensar as lutas por autonomia, separadas das lutas por direitos e por melhores condições de trabalho? Este tipo de luta se depara com elementos que também se afastaram destes dois polos: empreendedorismo e revolta, que dialogam com o léxico de extrema direita [2]. Daí o perigo da neblina, quando não se sabe onde pisa. Há que se estar com os pés firmes ao chão histórico que se desagrega, luz baixa para mapear o desconhecido e coragem para seguir. Isso, o grupo parece ter de sobra.

Notas:




Fonte: Passapalavra.info