Abril 21, 2021
Do Jornal Mapa
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Em tempos de pós-pandemia auguram-se novos riscos para o meio rural. Se o nosso corpo não é mais do que uma parte de um corpo coletivo – o território -, sobre este corpo, quem toma as decisōes?

Antes da pandemia (a.P.) vivíamos ao pé de uma fogueira que a todas, em maior ou menor medida, nos provocava algum grau de queimaduras. Contudo, as classes governantes, inconscientes ou protegidas pelos seus privilégios – ou as duas coisas – nem sequer o fumo detetavam. Passaram pouco mais de três meses da explosão da COVID-19 e embora o incêndio ecossocial não possa ser mais evidente, estas classes não só não propõem nenhuma medida para o travar como ainda o alimentam, qual pirómanos, com as suas políticas e fundos de investimento. Isto sim, gera um verdadeiro estado de emergência.

Preocupa-me também o salto mortal que demos das décadas a.P. de predomínio de sentimentos de fobia rural e de desprezo pela Natureza para o oposto, o «boom rural». Nos últimos meses abundam os anúncios publicitários onde a estratégia de marketing passa por enaltecer as aldeias e as suas gentes; a imprensa convencional vai deixando espaço para a cultura rural, que agora está na moda; e, como seria de esperar, as grandes superfícies de supermercados já não só enchem prateleiras com produtos biológicos como também divulgam aos quatro ventos o seu compromisso de salvar a pequena agricultura e «o seu trabalho essencial». Será o rural um novo nicho de negócio? Que planos têm em mente os governos para «reativar a economia» dos espaços rurais?

Como advertiam algumas vozes, a construção do discurso da «Espanha vazia» 1gerou um bom pretexto para justificar qualquer tipo de negócio, por mais prejudicial que seja. O argumento de repovoar os espaços rurais tem por exemplo permitido a expansão das grandes explorações intensivas de animais, ou a expansão desproporcionada de parques eólicos. O renovado interesse pela procura de espaços naturais, longe dos riscos epidémicos das grandes cidades, é um segundo fator que já começa a acentuar uma espécie de retorno ao rural que, sem o compromisso de fazer parte da sustentabilidade coletiva das aldeias, potencializa a especulação da terra cultivável e a especulação imobiliária nas aldeias. E isto torna ainda mais difícil a instalação de pessoas que de facto olham para o rural como lugar onde situar vidas sustentáveis a partir da relação com a terra e a sua fertilidade.

A construção do discurso da ‘Espanha vazia’ gerou um bom pretexto para justificar qualquer tipo de negócio, por mais prejudicial que seja.

Com este cenário, o rural e o natural estão cada vez melhor cotados nas bolsas de valores. Aos abutres que procuram onde investir não lhes escapa que nesta época d.P. o mundo rural é muito atrativo em qualquer vitrine. «Vendemos aldeias abandonadas. Bom investimento para oferecer lugares onde viver e teletrabalhar com menos riscos de acabar doente», dirão os anúncios. «Incrível moradia à venda, protegida com segurança privada 24 horas e duas hortas delimitadas por cercas eletrificadas». «Terrenos por edificar numa rua alcatroada, sem cheiro a estrume». «Vendo 20 hectares de paisagens imaculadas. Muitas possibilidades»…

De facto, prestando um pouco de atenção, já detetámos esta nova tendência dos «refugiados pandémicos classe top». Nas mesas de algumas administrações está a ser discutido o projeto chamado «Maestrazgo-Els Ports» − promovido por um conjunto de entidades filantrópicas e fundos de investimento − que pretende reduzir 550.000 hectares dos conselhos do norte da Comunidade Valenciana, das Terres de l’Ebre e do Maestrazgo aragonês a um postal, a um parque temático do selvagem. Tal como explica uma série de reportagens 2 publicada por “La Directa”, aos promotores não lhes treme a voz quando afirmam que com a reintrodução de espécies selvagens ou a renaturalização do território (leia-se expulsão do campesinato) se facilitará o transvase de capital das cidades para o campo, e surgirão oportunidades económicas nas comunidades rurais.

Dá gosto ver como a sociedade em geral tem valorizado a liberdade não confinada e o poder viver ou ter acesso quotidiano aos espaços naturais. É também uma boa notícia observar como se tem dignificado o papel das pessoas produtoras de alimentos… mas não percamos de vista que os ingredientes para uma invasão neoliberal do rural estão servidos. É agora mais importante do que nunca apelar à soberania rural. Quem vive e mantém estes territórios é quem deve decidir sobre os mesmos. O Colectivo Arterra expressa-o bem com uma fanzine cujo título é suficientemente explícito: «Tira As Tuas Mãos Sujas Da Minha Terra» 3. Como dizem elas, «em pé pela defesa da comunidade, tal como fazem os campanários das nossas aldeias».


Texto de Gustavo Duch
Tradução de Aurora Santos 4
Ilustração de fanzine «Saca tus sucias manos de mi pueblo», Colectivo Arterra


Artigo publicado no JornalMapa, edição #29, Dezembro 2020|Fevereiro 2021.




Fonte: Jornalmapa.pt