Abril 14, 2022
Do Colectivo Libertario Evora
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Há um mês, no dia 15 de março, o site anarquista em língua castelhana alasbarricadas publicou um editorial sobre as respostas libertárias à guerra na Ucrânia por parte do movimento anarquista, seja na Rússia, na Ucrânia ou no ocidente. Enquadrando as questões e levantando pontos em aberto, é uma análise que nos parece ainda atual, quando passam 50 dias do inicio da invasão russa e em que se anuncia a queda de Mariupol (que estava a ser defendida por, entre outros, o Batalhão Azov, de ideologia nazi) e quando o fim do cerco a Kiev deixou espaço para ações humanitárias:

“A atual guerra na Ucrânia representa um desafio para os movimentos anarquistas contemporâneos. O confronto entre dois blocos imperialistas como a NATO e a Rússia fez uma vítima: a Ucrânia. Neste confronto quem sofre todas as consequências da guerra são as pessoas comuns. Mas vejamos mais em detalhe quais foram as respostas.

Em primeiro lugar, deve-se destacar a resposta do anarquismo na Rússia, Bielorrússia e Cazaquistão. Já vimos durante todos estes anos, desde o início dos anos 2000, que esses grupos e espaços (dizer movimento seria ir longe demais) denunciam os governos de Putin. Aqueles de nós que acompanham, mesmo de longe, a política anarquista na Rússia, recordarão sobretudo duas coisas: prisões e a luta antifascista. A Rússia, e toda a Europa Oriental, experimentou tal involução desde a década de 1990 que se tornou um paraíso para políticas autoritárias, mafiosas e anti-sociais. É nesse cenário complexo que as ideias libertárias se têm estado a desenvolver. E, muitas vezes, elas só conseguiram enraizar na contracultura, nas universidades e pouco mais. Em espaços mais sensíveis às liberdades.

Os nossos companheiros têm lidado com situações repressivas de todos os tipos num processo que se agravou desde a aprovação das leis contra o extremismo. Essas leis, na verdade, iam contra o movimento neonazi,, que quase conseguiu tomar as ruas russas em meados dos anos 2000. O nacional-bolchevismo foi um movimento que levava atrás de si, de facto, milhares de pessoas. Ainda que o fascismo russo tenha recebido um golpe por parte do governo, a repressão também se abateu sobre o anarquismo e o antifascismo, que aos olhos da polícia sempre foram “extremistas radicais” e, portanto, carne para a prisão. As leis repressivas sempre terão como alvo aqueles que querem a revolução.

Nos últimos anos, esse processo foi ainda mais além, com dezenas de anarquistas e antifascistas nas prisões russas. A mesma coisa acontece na Bielorrússia, onde há um movimento mais concentrado e talvez mais numeroso proporcionalmente à população e que, de alguma forma, ficou muito ligado aos protestos contra o governo.

De todos esses movimentos locais, a resposta que surgiu  foi bastante unânime: não à guerra. Aqueles que vão para a guerra são jovens da classe trabalhadora que, em muitos casos, são enviados para a frente sem que lhes digam para onde estão a ir. Infelizmente, a onda nacionalista que varre atualmente a Rússia significa que estamos a remar contra a maré. Nestas semanas (o texto foi escrito a 15 de março ndt.), mais de 8.500 pessoas foram presas (e o número está a crescer) por protestarem contra a guerra. A maioria acaba em multas, mas o medo entra em cena, dada a terrível história russa que todos conhecem. Fala-se já de desaparecimentos.

Portanto, o anarquismo russo está na defensiva, tentando não ser varrido do mapa, embora enviem mensagens claras contra a guerra de Putin (não do povo russo). E entre esses militantes é lógico que encontremos pessoas que detestam tanto o governo russo que se alistam nas milícias ucranianas. Veremos mais à frente porquê.

Em segundo lugar, temos as respostas dos coletivos anarquistas ucranianos. Para dizer a verdade poucos existiam até agora. Talvez 3 coletivos em Kiev e 1 em Kharkhiv, existindo libertários noutras cidades como Lviv. De acordo com alguns textos, o movimento anarquista foi varrido em 2014 pelo clima criado pelo Maidan e pela guerra do Donbass. O anarquismo não soube encontrar o seu lugar, sofreu uma crise e desapareceu por alguns anos. Por volta de 2017-18 reapareceu, gerando alguns coletivos, como RevDia (Ação Revolucionária) em Kiev e Assembleia em Kharkhiv.

Entre os dois grupos existe uma grande diferença na maneira de fazer as coisas. O grupo de Kharkhiv administrava um centro social e pretendia chegar à população por meio da cultura, da ajuda mútua e de atividades autogestionadas. O grupo de Kiev, por outro lado, estava envolvido numa luta contra o fascismo de rua, que era muito poderoso localmente.

A atuação do grupo de Kharkhiv nesta guerra tem sido a participação em  grupos de apoio mútuo na cidade. A sua função é retirar as pessoas de lá, alimentá-las, procurá-las e conseguir abrigo para elas. Neste momento, não há notícias concretas sobre o que o grupo faz, e no seu site aparecem notícias sobre pessoas conhecidas que morreram em Kharkhiv . Nunca apelaram para que se juntassem às milícias e são claramente contra a invasão e o bombardeamento da sua cidade.

Ao contrário, os grupos de Kiev constituíram-se numa milícia. Essa milícia não deve ter muitas pessoas, talvez 50 ou 70 indivíduos. Na verdade, talvez não seja uma única milícia, mas duas milícias diferentes. A primeira formada pelo RevDia e os seus associados e a segunda pelos grupos Bandeira Negra e Quartel Negro, embora pareçam colaborar entre si.

Como a Revdia diz no seu site:

A questão é que agora a guerra não é entre a Ucrânia e a Rússia, mas uma guerra pelo futuro de todos os países da ex-URSS. As autoridades russas foram muito tempo o garante dos regimes ditatoriais em toda a URSS. Ela apoiou-os nos momentos difíceis, como aconteceu na Bielorrússia e no Cazaquistão.

Na própria Rússia estava a ser estabelecido o modelo de um regime ditatorial. A liberdade de expressão foi completamente proibida e condenou-se a um manifestante a 15 anos de prisão por participar numa manifestação pacífica. Se a ditadura de Putin ganhar a guerra na Ucrânia, ela  tornar-se-á uma realidade não só para os ucranianos, mas também irá prevalecer na Rússia e noutros países. Por muito tempo não haverá hipótese de alterar esta ordem. Além disso, dará a Putin a ambição de expandir a sua ditadura a novos países. Para não dizer que todos os ativistas, de qualquer tipo de movimento, serão aniquilados, inclusive os anarquistas, independente da posição sobre a guerra que tenham apoiado.

A guerra na Ucrânia pode ser a última hipótese de derrubar e abolir a ditadura. É por isso que é tão importante usar todos os métodos possíveis para acabar com a horda ditatorial.

Quando o governo distribuiu armas, os anarquistas também as pediram e obtiveram-nas. Juntaram-se às unidades de defesa territorial e fizeram um apelo à solidariedade internacional. Este apelo atraiu especialmente militantes anarquistas do território bielorrusso e russo que querem lutar contra o exército do governo russo. É o que dizem aqui:

Se a guerra russo-ucraniana fez algo de bom, é o facto de ter forçado as autoridades ucranianas a entregar algumas armas à população. Mais uma vez, isso não garante nada, mas aumenta as hipóteses de libertação das pessoas. Não só dos opressores estrangeiros, mas também dos seus próprios opressores.

O seu ponto de vista é simples: “atacam-nos, estão a matar os nossos e temos que nos defender, independentemente da ideologia que se defenda. Vamos pegar em armas”. E, para isso, eles colaboram com os adeptos antifascistas do Arsenal de Kiev, aparentemente a única claque antifascista na Ucrânia – o resto são nazis. Nesta amálgama para atrair voluntários a todo o custo, não tem havido vontade de politizar a luta. O anarquismo é mais uma etiqueta que usam, uma identidade, mas não fizeram quaisquer apelos à participação da população civil. Atualmente existem companheiros a tentarem perceber se eles têm uma seção humanitária como tem o coletivo de Kharkhiv.

O pior ainda é quando lemos as mensagens que eles postam no seu canal de telegram. A confusão aumenta ao ver os  seus vídeos e, principalmente, os seus relatos. Num deles chegam a dizer que deram parte da ajuda internacional que receberam a soldados do exército, unidades de tanques e até a membros da Guarda Nacional. Isto faz tocar os alarmes. Há quem tenha gasto 9.000 euros nuns óculos de visão noturna, que acabam por ser usados pelo exército em vez de por quem os pediu. E, ainda mais, quando sabemos que os países da NATO estão a enviar equipamentos e armas avaliados em bilhões de euros. Não podemos entender essa subordinação ao exército, muito menos sem uma explicação política.

No desejo de entrar em combate há mesmo aqueles que se juntaram ao exército ou às milícias fascistas, já que têm armas. Mas não será a parte mais politizado do movimento. Falando com clareza, já devíamos saber que em todos os grupos há aqueles que têm a teoria e os princípios muito claros e há os que não se interessam muito com isso e que estão com o nosso movimento mais por amizade, simpatia ou vizinhança do que pelas ideias. Nos ambientes antifascistas isto sempre foi muito comum.

De acordo com um mini-relatório actual, milhares de pessoas estão a entrar no batalhão nazista Azov, de modo que não é mais um batalhão, mas um regimento – que também está trancado em Mariupol presumivelmente vivendo os seus últimos dias. Agora é como um mini-exército. Já existem dois batalhões Azov em Kharkhiv e um em Kiev. Existem centros de recrutamento em toda a Ucrânia. E é apenas parte das milícias fascistas. Há também o batalhão Aydar ou o batalhão Pravy Sektor, entre outros. No exército, os soldados são bombardeados há 8 anos por propaganda fascista de todos os tipos, sem nenhum tipo de filtro das autoridades, por isso, em geral, há muito ultranacionalismo no exército, embora não esteja tão desenvolvido como nas milícias explicitamente fascistas e nazistas.

Ainda que sem muita informação e com mensagens confusas, a situação em Kiev está a deixar-nos bastante surpreendidos e faz um fraco serviço ao anarquismo. Não podemos apoiar uma luta que não seja clara sobre o que se quer, para além de se matarem inimigos. Pelo menos até que se estabeleça um plano de controlo territorial, que algum apoio à população civil seja conhecido – e pensamos que o estão a fazer – e que as relações com os nazis sejam publica e claramente cortadas. Não sabemos se neste momento será possível ou se apenas tentam sobreviver. Será algo mais ou menos assim. Da mesma forma, dias atrás, os media antifascistas alertaram para o facto de que quem se inscreve numa embaixada pode acabar por ser integrado nas unidades Azov.

Em terceiro lugar, devemos receber o fluxo de refugiados. Já são 2,8 milhões de pessoas (neste momento, mais de 4,5 milhões ndt.) e o número continua a crescer. Mais de metade da população de Kiev fugiu e, como sempre, apenas os bairros onde moram trabalhadores permanecem habitados. Há companheiros na fronteira com a Polónia e com a Roménia. Neste caso, os grupos polacos [outro link] e alemães são bastante ativos no seu apoio solidário. São iniciativas que estão muito mais próximas de nós tanto geograficamente como a nível psicológico. Além disso, os refugiados começam a chegar a todos os cantos da Europa.

Finalmente, não podemos deixar de mencionar o jornalista Pablo González, preso na Polônia como suspeito de espionagem russa. Achamos vergonhoso neste momento ver esse tipo de injustiça como se estivéssemos no meio da guerra fria. Pablo foi abandonado pelo governo espanhol, que além de encobrir os nazis, trata o caso como se fosse um prisioneiro comum e não político. Que os seus próprios colegas tenham ido além das acusações polacas delirantes diz muito sobre a saúde dos nossos meios de “comunicação”.

Tudo isso nos alerta para o facto de estarmos a entrar em força noutra fase histórica em que, se Putin vencer, o eixo geopolítico poderá deslocar-se para o bloco autocrático Rússia-China. Ao passo que, se perder (e pode perder mesmo vencendo a guerra), a NATO ou os EUA não ficarão de braços cruzados e continuarão a destruir e a fragmentar o espaço russo. Autocracia vs. guerra permanente são duas alternativas distópicas num mundo marcado pelo fim dos combustíveis baratos e pelas mudanças climáticas. É evidente que todos os movimentos libertários devem-se preparar – ainda que seja apenas psicologicamente – para cenários negativos como aqueles que, sem dúvida, estão para vir. A responsabilidade é nossa.”




Fonte: Colectivolibertarioevora.wordpress.com