Novembro 23, 2020
Do Passa Palavra
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Por Isadora de Andrade Guerreiro

O expressivo desempenho eleitoral de Guilherme Boulos em São Paulo no primeiro turno tem gerado uma avalanche de comentários, em muitos meios, para além da bolha dos movimentos sociais, onde ele atua há muitos anos. Chamou-me a atenção, por um lado, a surpresa de alguns grupos com sua ascensão e, por outro, a dificuldade das análises do significado dela – que por muitas vezes recorrem a ferramentas de leitura inadequadas, tendo como consequência um quadro simplificado do fenômeno. Não pretendo aqui fazer uma análise melhor, pois primeiramente acho que ela é complexa e deveria ser feita com tempo e coletivamente, não apenas porque merece, mas porque precisa; em segundo lugar, não a iniciarei agora e neste espaço, pois acredito que a conjuntura não é adequada – a disputa eleitoral a torna passível, justamente, de simplificações perigosas e falta de abertura para o diálogo, tornando fácil a incompreensão e inversão de qualquer elemento em jogo.

Sendo assim, vou apenas compartilhar um pouco do meu olhar atual sobre a experiência política que vivi nos anos 2000 que, assim como a de muitas outras pessoas e grupos, não apenas cruzou com a trajetória de Guilherme, mas fez parte da origem da conjuntura que o formou. Ao fazer isso, entendo, portanto, que não se trata de falar de sua pessoa, mas do que ela representa como movimento histórico condensado. É um olhar dentre os muitos possíveis, mas que gostaria que fosse entendido como um convite ao debate e ao compartilhamento de outras experiências e olhares.

A geração que se formou politicamente nos anos 2000 de certa forma viveu a ascensão, o auge e a crise do projeto democrático popular, apagando suas luzes e precisando construir alternativas com “o bonde andando”. Somos diferentes de uma geração pouco mais velha, que viveu a sua implantação sem necessariamente ter passado pelos piores anos da ditadura, ou ainda a anterior, que os viveu, ambas as gerações de raízes – e críticas – mais consolidadas; mas também somos diferentes de outra pouco mais nova, que viveu tal projeto já como “situação”, ou ainda outra muito mais nova, que a viveu apenas como crise ou página virada; nós, ao invés disso, não apenas vivemos a passagem, mas fomos instados a construí-la, com as especificidades de cada tendência e prática que existiam. Não era possível se manter incólume a sua influência, estando dentro, fora, contra ou a favor.

Esta tarefa de construir passagens tinha a dificuldade particular – nem maior nem menor do que as de outras gerações, mas que a marca – de ajustar permanentemente as lentes para a experiência concreta (pois elas nunca focavam), de não ter nunca ferramentas adequadas, mas ao mesmo tempo carregar ainda um horizonte de expectativas um pouco mais alargado do que aquele das gerações mais novas, onde ainda estavam presentes conceitos hoje estranhos como “esfera pública”, “sociedade”, “direito” ou ainda podia-se referir à “classe trabalhadora” e à construção de outras formas de vida e de produção. Tais conceitos abstratos, que a geração imediatamente mais velha tentou dar concretude, no entanto, em nossas mãos, desmanchavam no ato mesmo de serem acionadas, durante os anos 2000. Autogestão se transformava em empreendedorismo, trabalho coletivo destruía laços de solidariedade, ocupações de terra se mercantilizavam, políticas públicas expropriavam a população organizada, tentativas de regulação comunitária se transformavam em punitivismo e por aí vai.

Mas nós tentávamos salvar esses ideais, tentando fazer a realidade caber naquelas formas rígidas e pouco adaptáveis com as quais sabíamos ler o mundo. Achávamos que estávamos permanentemente errando, pois não só não tínhamos resposta para nossos esforços monumentais, como o que fazíamos rapidamente se virava contra nós mesmos sem nenhuma justificativa aparente (as lentes não focavam…).

Essa sensação de incompreensão em conjunto com a prática que não podia parar e que pressupunha uma luz no fim do túnel que, no entanto, se tornava cada vez mais fantasmática, fugindo das mãos, foi cantada por Chico Buarque e Edu Lobo no início daqueles anos para a peça de teatro Cambaio. A temática da obra é a do sonho que escapa e que não encontra eco na realidade, da neblina espessa, da desconstrução, da marginalidade fetichizada, entre outros elementos que, sem sobra de dúvida, eram centrais naquele período [1]. Eu, no entanto, só pude entender seu significado atualmente, olhando em retrospectiva e sendo lembrada pela regravação da música “A moça do sonho” em 2017 – que certamente não foi fortuita, considerando-se a conjuntura daquele ano.

A moça do sonho (Edu Lobo e Chico Buarque, 2001)

Súbito me encantou
A moça em contraluz
Arrisquei perguntar: quem és?
Mas fraquejou a voz
Sem jeito eu lhe pegava as mãos
Como quem desatasse um nó
Soprei seu rosto sem pensar
E o rosto se desfez em pó

Por encanto voltou
Cantando a meia voz
Súbito perguntei: quem és?
Mas oscilou a luz
Fugia devagar de mim
E quando a segurei, gemeu
O seu vestido se partiu
E o rosto já não era o seu

Há de haver algum lugar
Um confuso casarão
Onde os sonhos serão reais
E a vida não
Por ali reinaria meu bem
Com seus risos, seus ais, sua tez
E uma cama onde à noite
Sonhasse comigo
Talvez

Um lugar deve existir
Uma espécie de bazar
Onde os sonhos extraviados
Vão parar
Entre escadas que fogem dos pés
E relógios que rodam pra trás
Se eu pudesse encontrar meu amor
Não voltava
Jamais

Muitos grupos políticos participaram desta conjuntura de formas diversas. Eu, assim como muitos universitários naquele momento, estava engajada junto aos movimentos populares. As pessoas faziam isso de diversas formas, seja na base, seja como assessores técnicos (meu caso) e também como lideranças – e essas foram muitas as que vinham do nosso meio. O envolvimento partidário, para este grupo (bastante heterogêneo, diga-se de passagem) era um tabu, algo que incomodava, escolhendo-se ou não esta via. Mesmo depois da criação do PSOL esse sentimento permaneceu – pois a forma da constituição desse partido só reafirmava nossa aversão, por não estar presente no cotidiano das periferias. Era algo bem diferente do “basismo” ou da “ida ao povo” das décadas de 1950 e 1960, dinâmicas vinculadas ao partidão e sua perspectiva do “atraso” como barreira à organização dos trabalhadores. Também diferente das Comunidades Eclesiais de Base ou ainda da própria atuação do PT nas periferias na década de 1980 – ainda que essa influência fosse forte e muitos de nós estivéssemos diretamente implicados nelas. Existia ali, porém, uma busca maior de autonomia organizativa que bebia do repertório de práticas do campo democrático popular, mas que criticava seus limites, criando uma dinâmica sempre provisória e conflituosa de vários militantes e assessores nas organizações onde estavam ou se relacionavam.

A impressão que tenho hoje é de que as tantas experiências vividas nos anos 2000 só começaram a ser compreendidas em 2010, 2011[2] e 2012, para explodirem em 2013. Nestes anos foram feitas não apenas avaliações coletivas de militantes, mas também foram lançados vários livros que buscavam compreender o chamado lulismo. Para quem quiser se aprofundar no tema, hipóteses relevantes foram discutidas naqueles anos, entre outras, por Rudá Ricci (2010[3]), Ruy Braga (2012[4]), André Singer (2012[5]), Luiz Werneck Vianna (2011[6]), Tales Ab’Saber (2011[7]), Jessé Souza (2010[8]), Francisco de Oliveira (2010[9]), coletânea com vários autores) e Mauro Iasi (2012[10]), e continuaram sendo feitas depois por tantos outros, porém já depois de 2013, o que ajudou as obras posteriores a ajustar as lentes. Esses autores citados têm análises bastante diversas, de matrizes políticas distintas, às vezes mais, às vezes menos críticos ao fenômeno, mas de qualquer maneira ajudaram a compreender o que passávamos naqueles anos, no momento em que os vivíamos. Lê-los agora já é outra experiência. Ali, as pistas levantadas (o que já era bastante coisa) confluíam de alguma maneira para o alerta de que algo se movia nas classes populares. De que o trabalho como categoria central de compreensão, que utilizávamos sem titubear, estava em franca transformação. Porém, feito o diagnóstico, as ferramentas não davam conta das contradições latentes.

Pois então os grupos políticos em que eu transitava viveram o tal lulismo em contato direto com as classes populares que, em particular nos grandes centros urbanos e sua área de influência, se transformavam radicalmente. A antiga periferia autoconstruída em etapas, como acúmulo geracional de reprodução de uma classe trabalhadora espoliada – cuja integração política passava pela construção do direito social –, estava atravessada então por forte monetização e disputa territorial. Os mercados transnacionais de drogas e cargas roubadas mudavam a dinâmica de crise do trabalho – de gestão da miséria para gestão de ilegalismos e alteração das relações com as forças da ordem, do confronto à instrumentalização. O empreendedorismo periférico se erigia sob a égide da moral evangélica. Outro livro importante do período foi o de Gabriel Feltran (2011[11]), que buscava compreender esta nova periferia nas transformações das relações entre “bandidos” e “trabalhadores” durante a ascensão do PCC em São Paulo – que surpreendeu em 2006, quando tomou a cidade de assalto. Muito antes de esses temas virarem pauta do dia, lidávamos com eles cotidianamente, ainda que sem conseguir dar significado coeso a este processo.

Lidar com as contradições não era coisa fácil, principalmente para quem vinha “de fora”, como os universitários. Nos estágios finais de uma obra autogerida que participei, uma moradora (bastante participativa) me perguntou, numa conversa de rua: “qual vai ser sua casa?”. “Nenhuma, eu não vou morar aqui”. A resposta foi inequívoca: “mas então por que está aqui esses anos todos?”. Já não fazia o menor sentido a relação entre trabalho, formação, ação política, quiçá intervenção na esfera pública que não tivesse objetivos pragmáticos envolvidos. Éramos instados a sermos eficientes – afinal não tínhamos nenhuma outra função aparentemente justificável. A lógica era de culpabilização generalizada, onde o trabalho era lido na chave meramente moral – inclusive por nós mesmos, que nos culpávamos pela situação por “não termos feito formação suficiente”. Achávamos que eram eles que não estavam entendendo, quando na verdade éramos nós que estávamos deslocados. A separação aqui entre “nós” e “eles” tem significados importantes, seja para o que acontecia naqueles anos, seja para o que aconteceu depois. Eu ouvia constantemente naquela época de maior crise, mais uma vez, Chico Buarque (sim, é uma questão de classe, espero que esteja ficando claro):

(Trecho de) Tema de “Os Inconfidentes” – Chico Buarque (1970)

(…)

Por aqui passava um homem

(E como o povo se ria!)

Que reformava este mundo

De cima da montaria

Por aqui passava um homem

(E como o povo se ria!)

Ele na frente falava

E atrás a sorte corria

Por aqui passava um homem

(E como o povo se ria!)

Liberdade ainda que tarde

Nos prometia

Por aqui passava um homem

(E como o povo se ria!)

No entanto à sua passagem

Tudo era como alegria

Parece fácil achar que o problema era a montaria, mas essa análise se esquece de que, independente de se estar em cima do cavalo, sempre se saberia – e poderia – montar. Outros preferiram investir na alegria que, “no entanto”, sua passagem provocava. Ri por último quem ri melhor… Neste cenário, portanto, passou a ser fundamental saber ler a conjuntura e se mover dentro dela, pois o que era deslocamento passou cada vez mais a ter significados disruptivos. Um passo em falso, e as consequências eram de grande porte (o cavalo foi ficando rápido demais). Hoje parece fácil identificar as forças políticas que frutificaram após 2013, mas difícil é analisar seu surgimento em meio ao espetáculo de crescimento lulista e, mais ainda, como atravessaram os desafios representados pelos acontecimentos daquele ano. Precisamos estar atentos para observar que as principais forças políticas do país hoje não nasceram ali, apenas apareceram, e seu maior ou menor sucesso atual tem muito a ver com a sua capacidade de dar resposta, ou canalizar, os anseios daqueles que, no chão, corriam – ainda que sem a liberdade prometida.

Notas

[1] Uma boa análise da peça Cambaio foi feita por José Peixoto de Azevedo, da Cia. de Narradores, e pode ser vista aqui.

[2] Uma boa discussão que foi feita em 2011, num momento posterior de avaliação crítica de vários processos dispersos, foi feita aqui no Passa Palavra, a partir das questões levantadas no documento que ficou conhecido como Carta dos 51. Eu não participei deste grupo, mas trabalhava diretamente com vários signatários naquele momento, absorvendo e compartilhando sua crítica.

[3] “Lulismo: da era dos movimentos sociais à ascensão da nova classe média brasileira”.

[4] “A política do precariado: do populismo à hegemonia lulista”.

[5] “Os sentidos do Lulismo: reforma gradual e pacto conservador”.

[6] “A modernização sem o moderno: análises de conjuntura na era Lula”.

[7] “Lulismo, carisma pop e cultura anticrítca”.

[8] “Os Batalhadores Brasileiros: nova classe média ou nova classe trabalhadora?”.

[9] “Hegemonia às avessas”.

[10] “As metamorfoses da consciência de classe: o PT entre a negação e o consentimento”.

[11] “Fronteiras de tensão: um estudo sobre política e violência nas periferias de São Paulo”.




Fonte: Passapalavra.info