Abril 20, 2020
Do Doctora Bruja
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Não me recordo de tantas mudanças em tão pouco tempo, ou melhor, de um período de mudanças constantes e cotidianas, como o que estamos vivenciando neste tempo de pandemia do novo coronavírus. A velocidade de informações, relatos, protocolos, opiniões, apostas, artigos, postagens, lives, podcasts, circulam em nossas mentes e redes de contato digitais. Há quem chame esta avalanche de “infodemia”, mas como poderia ser diferente diante de uma doença recente, batizada em fevereiro de 2020, de alta transmissibilidade, que se comporta como pandemia afetando todos continentes do globo, em alguns cantos de forma desastrosa quando o número de doentes é maior do que os recursos materiais e humanos? Esta velocidade se contrasta com a calmaria externa, comércio fechado, ruas vazias, cada um em suas casas (quem tem casa). Como aquele tempo suspenso no ar que antecede a tempestade, ou o mar calmo remanso prévio à grande onda. E a humanidade focada em uma coisa só, do ângulo que seja. Enquanto isso, a terra descansa.
Na emergência, as práticas, recomendações e fluxos se inventam e reinventam, se modificam e buscam se aprimorar a cada dia, sendo a capacidade de adaptação desafiadora. Através de uma mulher, médica da emergência e dos cuidados paliativos*¹, “humana, demasiado humana” *², um oásis de sensibilidade no dia a dia muitas vezes frio e calculista, recebo uma entrevista com uma psicóloga do Médicos Sem Fronteiras sobre sua atuação no Congo/Ébola*³ e junto a inquietação: “e ai? já se inscreveu no MSF?”. A leitura me emocionou e o que mais me chamou a atenção era a missão humanitária em si, entusiasmada em terminar a residência médica e participar. Aquela frase daquele livro que me estimulou a ser médica segue ecoando na mente: “Meu destino, qualquer que fosse, estava ainda muitos quilômetros adiante, em algum ponto do deserto do sofrimento humano” *4 e ainda pensava que minha missão em medicina de desastre ou catástrofe se daria em algum local longínquo, e não que o mundo todo se tornaria este campo de atuação.
Naquela época (como se fosse tempos atrás, e estou falando de 40 dias) ainda estávamos com o novo coronavírus viajando por aí, ainda não havia batido na nossa porta, ainda não estávamos na assistência aos suspeitos COVID 19 e tudo era observar o dash boards do Johns Hopkins *5 vendo as áreas vermelhas de locais de infecção crescendo em vertigem. Pouco mais de um mês depois, a proposta de leitura e reflexão do que este texto nos trás sobre a nossa realidade atual na emergência em tempos de COVID 19. A releitura foi completamente diferente, pois nós já não somos xs mesmxs.
A comunicação médicx- paciente e a humanização do cuidado estão diante de novos obstáculos a serem ultrapassados. A própria indumentária, a paramentação dxs profissionais de saúde, tão importante e essencial para proteger e minimizar a exposição biológica é também barreira interposta entre uma pessoa e outra.
Popularizada a etiqueta respiratória, lavagem de mãos e medidas de higienização e cuidados em geral, aos profissionais da saúde se adicionam novos equipamentos de proteção individual (doravante EPI), de diferentes modelos, na corrida por padronizar e garantir EPI que seja efetivo, naquele equilíbrio desequilibrado entre o EPI ideal e o EPI possível. Conforme a sala e o tipo de procedimento realizado, vestimos um EPI, que vai de avental de precaução de contato/ gotículas a aventais impermeáveis, de touca cirúrgica e óculos de proteção e/ou protetor facial, estes últimos de diferentes modelos conforme disponibilidade, desde industrializados comprados por nós mesmos em ferragens, até os fabricados em larga escala em impressora 3D e doados à instituição.
A rotina na Sala Vermelha, hoje em dia Sala COVID 19 de hospital de referência, tem seus detalhes. Cabelo bem preso, quem era barbudo não é mais, veste a máscara N95, coloca a touca, veste o avental, calça uma luva e afixa o punho, coloca o protetor facial. Chega o paciente, veste o avental de precaução de gotículas por cima do impermeável, veste outra luva. Conversa e examina o paciente, retira as luvas e o avental de cima. E assim sucessivamente. E ao terminar o turno: desparamentar. Para mim, que tenho a cabeça agitada e dificuldade em focar, despir-me é um momento que me exige atenção plena no que antes era banal. Estudos observacionais recentes apontam grande incidência de contaminação dos profissionais de saúde na hora de retirar o EPI, assim como através de “brechas” na proteção em punhos, pescoço e cabelos, e não tanto através da via respiratória.
O fato de estarmos de rosto coberto e todo o EPI trás o desafio: como ser cálida sem contato físico? Apostando no olhar. Olhos expressivos. “Os olhos são as janelas da alma e o espelho do mundo” *6. Ás vezes o tempo aperta. Ocorre um “boom” e chegam muitos pacientes ao mesmo tempo, de diferentes gravidades. Não dá para se deter muito. Mas ainda assim é só colocar empatia no atendimento que poucas palavras e ausculta podem ser acolhedoras e transmitir cuidado. Pensando bem, o EPI não é mais que barreira visual. Há barreiras bem maiores e intransponíveis, há quem prefira um distanciamento cientifico e há quem nunca se conecte de fato com os pacientes. E está tudo bem, também. Cada qual tem seu papel neste cenário.
Entre a equipe também mantemos certa distância física, bem observada na entrevista. Não nos cumprimentamos mais como antes. Como todxs no mundo. Recentemente testaram a todos nós da emergência (esta medida foi adotada após o falecimento de uma colega) e neste dia, após resultados negativos, saiu espontaneamente alguns abraços e beijos saudosos.
Estes dias li o relato de um médico cubano em missão na Itália que ao perceber que o paciente com COVID 19 era cubano também, o abraçou, deixando de lado o cuidado de infectar-se, pois o cuidado afetivo aqui falou mais alto. Foi impulsivo e se colocou em risco. Mas teve sorte, ele soube depois que o paciente já não estava mais em tempo de transmitir o vírus. “Mais sorte que juízo”. Na entrevista, a psicóloga foi interrogada sobre o medo de contrair o vírus e responde que não teve esse medo. Coincido com ela, sinceramente. É de minha natureza correr riscos e ser voluntariosa, minha mãe que o diga! E ser um ser de sorte. Logo a psicóloga fala sobre o medo de morrer sem dignidade. Quem não deseja uma boa morte, um “happy end”?
Falando sobre a morte, chega um paciente fazendo sua travessia e digo: “Senhor, você não está sozinho, nós estamos aqui por você”. Estar, simplesmente estar e esperar. Peço morfina ao paciente. “Vamos coletar uma gasometria, já solicitei radiografia de tórax” diz o dr. Repito e adiciono: “Ele está falecendo, me deixe dar morfina”. E não saio dali. Se ele era COVID 19? “ COVID or No COVID?” Nunca saberemos. Não faz diferença. Era um ser humano acometido de câncer de pulmão terminal em insuficiência respiratória, eis sua etapa final da vida e ele teve uma mão dada e a outra mão no rosto. Eram mãos de luvas, mas ainda assim era companhia. Às vezes sinto vergonha em ser carinhosa com os pacientes, aí disfarço. Sempre tem como verificar um pulso e segurar uma mão, ajeitar uma máscara de O2 e tocar uma fronte, checar a expansibilidade torácica e acalentar um coração na hora da partida.
Mas, e depois que morre? Não poder ser visto por seus familiares, não haverá despedida do corpo físico. É um dilema. A isso se soma o temor da população em ter seu familiar em uma sala isolada por uma doença contagiosa e sem cura. Na entrevista, lá no Congo, a desconfiança era tanta e os que entravam não saiam vivos que chegaram a ver o Centro de Tratamento como um local de extermínio. Muito emocionante o relato da alta do primeiro sobrevivente.
Descreve-se uma estrutura que permite que xs visitantes possam visualizar os pacientes de um ponto seguro, ainda assim poucas pessoas vão, o medo predomina. Aqui também temos visto isto, familiares assustadxs que pedem logo para ir embora por terem medo de se infectar. Mas há xs que se desesperam ao saber que seus parentes vão ficar internados em uma área isolada sem poder receber visita, e nestes casos o que conseguem é que a gente abra a porta para permitir dar uma saudação rápida de longe. Existem iniciativas de encontros virtuais, caso isto se viabilize será uma maneira de tentar mitigar este isolamento.
Lembro do primeiro suspeito COVID 19 que atendemos, a equipe estava tensa e não sabíamos bem o que fazer. Ele estava sendo transportado em cadeira de rodas para realizar radiografia e abrimos um espaço no corredor. Ele teve senso de humor e quebrou o gelo, abriu os braços e disse: “Quem quer me dar um abraço?”. Todos riram, sorrimos com os olhos.
Um pacientes pergunta se estamos com medo dele, respondo sem pensar que não temos medo de doenças senão não seriamos da área da saúde, mas no fundo temos receio inclusive de levar algo do hospital para casa. Este temor é dos pacientes também. Enquanto alguns querem resultados de exames e alta breve, outros pedem para internar, pois preferem testar para coronavirus a regressar a casa sem saber se tem o vírus ou correr o risco de contagiar quem amam. E há o que não tem casa para ir e se isolar (esta questão socioeconômica é também abordada na entrevista, e nós aqui em um hospital 100% SUS sabemos o que é lidar com isso e pesar esta questão na hora das tomadas das decisões). Estamos em uma crise humanitária.
E os cheiros, os odores, esta sensibilidade olfativa. Na entrevista ela fala sobre o predomínio do cheiro de Cloro 0,5%, desinfetando contra o Ébola, que virou o perfume de todxs. Conosco tem sido o Álcool 70%, efetivo contra o coronavirus. Álcool 70% nas mãos, diversas vezes por dia, nos objetos, nas superfícies. O álcool 70% evapora, não tem cheiro marcante como o cloro, mas ressaca a pele. A pele? Bom, terminamos o turno com a cara amassada após tirar a máscara, parece que acabamos de despertar depois de ter dormido no sofá e mal posicionadxs.
Esta questão dos cuidados de desinfecção e limpeza fica sistemática. Foi bem descrito na entrevista. No começo foi mais difícil. Até instaurar a rotina em casa, o local do hall de entrada para deixar as coisas mochila, sapato, tirar a roupa e direto pro chuveiro. Nunca lavei tanto os cabelos! Lavar as mãos sempre e diversas vezes. E o mais marcante emocionalmente: não poder receber o abraço envolvente de meu filho ao chegar a casa. Mas o que se repete no cotidiano vira hábito e já é comum o abraço materno só vir depois do “ritual de limpeza”.
Há gente metódica que detesta quando tudo fica incerto. Eu sou bagunçada e sinto que funciono assim, gosto de bailar em meio ao caos. Adorei a dança da equipe descrita pela psicóloga. As crises sempre foram oportunidade de inventarmos coisas. Estou entusiasmada no trabalho. Sinto-me útil. Tomo decisões próprias. Pergunto menos e faço mais.
Ter formado em Cuba ajuda na hora de lidar com escassez de recursos. Inventar soluções práticas com o material disponível. Na ilha participei como estudante de medicina de epidemias de Cólera, Dengue e em resposta a desastres provocados por furacão e ondas gigantes. E agora esta pandemia. A gente vai amadurecendo.
Agradeço todos os dias por estar inteira e meus seres queridos saudáveis. A emergência nos brinda esse sentimento: gratidão.

Porto Alegre, 19 de abril de 2020

Referências
*¹ Furini, Ana Flávia Monteiro
*²Nietzsche, Friedriche; Humano, demasiado Humano; 1878
*³Missão Ebola: “Me reinventei a marretadas”, entrevista concedida por Débora Noal à Eliane Brum em 19/11/2012. Disponível em https://saudeglobal.org/2014/08/10/missao-ebola-me-reinventei-a-marretadas-entrevista-concedida-por-debora-noal-a-eliane-brum-em-19112012/
*4 Kübler- Ross, Elisabeth; A Roda da Vida, 1998.
*5 Disponível em: https://coronavirus.jhu.edu/map.html
*6 da Vinci, Leonardo.

OBS: O símbolo x foi usado para designar feminino e masculino.




Fonte: Bibisturi.noblogs.org