Fevereiro 18, 2021
Do Passa Palavra
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Por Notes from below

Este artigo é parte do livro Lutas na pandemia, publicado em inglês pelo coletivo Notes from below e cuja Introdução foi publicada em português aqui. Fizeram parte da publicação os artigos A chamada da morte: pânico no atendimento, Atento: resistindo à chamada da morte e Odisseia da morte: persiste a luta pela vida na Atento. A tradução é de Marco Túlio Vieira.

A medida em que escrevemos esse texto, no meio de abril, o Reino Unido ainda não atingiu o pico da crise de COVID-19, mas está no caminho para ser o país mais afetado na Europa. O governo do Reino Unido se equivocou no início, com uma tentativa abortada de uma estratégia de “imunidade de rebanho”, com o plano de que o coronavírus se disseminasse pela população, matando alguns e deixando outros imunes. Boris Johnson prometeu que “muitas famílias mais vão perder entes queridos”, enquanto seu principal conselheiro político defendia as alegações de que ele” deixaria os idosos morrerem “. Essa estratégia rapidamente se tornou insustentável e, depois de semanas, a estratégia mudou para um “lockdown”.

Acompanhando isso, não é nenhum exagero dizer que o governo do Reino Unido deve ser cobrado pelas dezenas de milhares de mortes. Isso aconteceu depois de anos dizimando o sistema de saúde pública e de uma duradoura política de austeridade. Muitas outras tensões subterrâneas e crises menores também vieram à tona. A tendência em direção ao aumento da insegurança no trabalho, trabalho autônomo enganoso, habitações alugadas de péssima qualidade, falta de seguridade social e tudo mais está agora contribuindo para a crise COVID-19 de diferentes formas. Isto não é um desvio do que estava acontecendo antes da crise, mas um agravamento.

O centro da estratégia do governo tem sido manter as pessoas trabalhando. Apesar de estar em um “suposto” lockdown, aqueles que não podem trabalhar de casa ainda podem ir ao trabalho. Há vários vídeos de vagões lotados do metrô de Londres na hora do rush da manhã. O governo evitou declarar os trabalhadores como “essenciais” ou “não-essenciais”, caracterizando-os na verdade como aqueles que podem trabalhar de casa e aqueles que não podem. De qualquer jeito, ele só quer manter a economia funcionando.

Estas políticas até agora evitaram qualquer escrutínio sério. As taxas de aprovação do Partido Conservador no poder estão crescendo, com poucas críticas abertas sobre as escolhas que foram feitas — apesar de elas já terem levado a mais de 10.000 mortes. Quando Boris Johnson contraiu COVID-19, as críticas se tonaram quase um tabu. Mesmo os chamados pensadores de esquerda tropeçavam em si mesmos para desejar melhoras a ele, e vaquinhas online surgiram para coisas como comprar para Johnson um conjunto de abotoaduras com a palavra “obrigado”. Muitos jornais têm se concentrado em repreender aqueles que tomam banho de sol nos parques, ao mesmo tempo em que tentam invocar o chamado “espírito de blitz” da Segunda Guerra Mundial. Essa linguagem chauvinista pede às pessoas que se unam em torno da bandeira britânica para “combater” o vírus, apesar da recusa contínua do Estado em organizar respostas estruturais eficazes.

Apesar desse tremular do Avental do Açougueiro [um nome alternativo para o Union Jack a bandeira britânica, chamando atenção para a história sangrenta do império britânico], também tem havido uma mudança na opinião pública a respeito do trabalho. Apenas alguns meses atrás, muitos trabalhadores imigrantes estavam sendo condenados como “pouco qualificados” e avisados de que não eram mais bem-vindos no Reino Unido. Este “pouco” tem mais a ver com o pagamento que recebem pelo trabalho do que com a necessidade do que estão fazendo. No entanto, agora esses trabalhadores são proclamados como nossos “heróis”. Essa mudança de posição não veio com aumentos salariais ou mesmo com Equipamento de Proteção Individual (EPI) adequado. No entanto, está jogando uma luz na dinâmica do trabalho no Reino Unido, abrindo conversas que não estavam acontecendo antes.

Uma intervenção central do Estado britânico foi o Plano de Retenção de Emprego durante o Coronavírus, que se aplica a trabalhadores cujos locais de trabalho foram forçados a fechar. Estes trabalhadores então de “licença” (ou são mandados para casa) enquanto tem 80% do seu salário pago pelo governo. Isto surgiu como uma tentativa desesperada de conter o rápido aumento do desemprego massivo. No entanto, ele não foi automático e muitos trabalhadores tiveram que lutar duramente para recebê-lo. Por exemplo, trabalhadores na Wetherspoons, a maior rede de pubs no país, foram avisados por uma mensagem de vídeo do proprietário de que eles não seriam mais pagos e que deveriam procurar emprego na Tesco, a maior rede de supermercados do país. Através de uma campanha online com seu sindicato, eles conseguiram forçar o dono a lhes colocarem no plano de licença.

Ao passo que o uso de contratos intermitentes vinha atraindo cobertura negativa da mídia nos últimos anos, muitos patrões usam contratos de poucas horas. Assim como nos de zero horas, isso envolve regularmente fornecer aos trabalhadores horas-extras sem reconhecê-las como tal. Isso tem o mesmo efeito disciplinar que um contrato intermitente, forçando os trabalhadores a dependerem da boa vontade dos gestores a cada semana. No entanto, para trabalhadores “dispensados”, isso significa que eles não estão recebendo 80% do seu salário total, mas 80% dos seus contratos de poucas horas. Isso pode significar que os trabalhadores estão recebendo somente 50% dos seus salários normais ou menos. Os trabalhadores na Wetherspoons continuam lutando para serem pagos 100% dos seus salários.

Uma segunda intervenção feita pelo governo é o Plano de Suporte a Renda do Trabalhador Autônomo. Isto envolve o pedido dos trabalhadores autônomos para receber do governo 80% dos seus lucros. Embora esse plano possa ajudar alguns dos autônomos, ele depende dos lucros relatados nas declarações de impostos, algo que muitos trabalhadores autônomos terão dificuldade em declarar ou que terá pouca relação com sua renda. Por exemplo, aqueles em contratos de trabalho autônomo enganosos — como Uber e motoristas particulares, ou entrega de comida — tiram apenas um lucro mínimo depois de deduzir os altos custos do aluguel do carro, seguro, custos com telefone celular e outros. Estes custos continuam, apesar do trabalho ter sido quase todo reduzido. Isso significa que todo “lucro” na declaração de impostos será mínimo, assim como o subsidio do governo. Na prática, isso serve como um mecanismo para forçar muitos desses trabalhadores a continuarem trabalhando apesar do lockdown. Por exemplo, construções (uma das industrias mais sistematicamente afetadas pelo trabalho autônomo enganoso) continuaram a funcionar mesmo com muitos trabalhadores denunciando nas mídias sociais os perigos de se trabalhar junto com muitas pessoas.

Muitos destes trabalhadores terão que recorrer ao seguro desemprego e aos bancos de alimentos para poder pagar as contas. Um milhão de pessoas até agora se cadastrou no Universal Credit, o novo sistema de seguro desemprego, desde o início da crise. Para colocar esse número em perspectiva, há 30 milhões de pessoas economicamente ativas no Reino Unido. Nós acreditamos que isso só vai crescer à medida em que entramos em uma enorme e duradoura crise econômica.

Tensões da pandemia

Desde 2018 os entregadores de material médico na empresa The Doctors Laboratory (TDL), um laboratório privatizado que trabalha com o NHS [National Health Service], vem se organizando. Eles lutaram pelo reconhecimento de seu real status de emprego (como trabalhadores limb “b”) e os direitos que acompanham, incluindo salário mínimo e alguma proteção social. Eles agora se organizam lado a lado com trabalhadores na Deliveroo e outras empresas no ramo de Entregas e Logística da IWGB [Independent Workers’ Union of Great Britain]. Ainda que eles tenham tido mutas vitòrias, uma coisa que ainda não conquistaram é o auxílio-doença.

Entregadores em Londres arriscam suas vidas todo dia entrando e saindo do trânsito para entregar itens pela cidade. A falta de auxílio-doença sempre foi um problema quando os entregadores estavam desempregados, às vezes por meses, devido a acidentes. Eles estabeleceram o Fundo de Emergência dos Entregadores de Londres [London Courier Emergency Fund], uma tentativa de criar uma rede de segurança pela base para entregadores fora do trabalho devido a acidentes. No entanto, desta vez, a falta de auxílio-doença significou algo completamente diferente para os entregadores na TDL.

No início de março se espalhou lentamente o boato de que os entregadores na TDL estavam transportando amostras de COVID-19. Em geral, isso foi descartado como uma das piadas cruéis que os controladores pregavam nos entregadores. Afinal, muitas dessas amostras não eram devidamente embaladas de acordo com as diretrizes da Public Health England. No entanto, em poucas semanas, ficou claro que não era uma piada, pois os entregadores estavam correndo entre os hospitais e o laboratório entregando amostras de COVID-19. A empresa aumentou o auxílio-doença de £0 por semana para £95 por semana, de acordo com o mínimo previsto para empregados. Neste exemplo, podemos ver uma tensão que vem crescendo desde muito antes da pandemia se manifestar sob a pressão da crise.

Esses entregadores tem que fazer uma escolha difícil. Se eles desenvolvem os sintomas e seguem a diretriz do governo para se auto isolarem, eles não conseguem dinheiro para viver. Se continuam a trabalhar, correm o risco de infectar aqueles que estão nos hospitais, no laboratório ou em outros lugares. Ainda que este seja apenas um caso, situação similar se apresenta para trabalhadores que são incapazes de parar de trabalhar devido a não terem um auxílio-doença adequado. Os entregadores, assim como muitos outros, sejam trabalhadores autônomos ou com contratos, tem poucas redes de segurança. O auxílio-doença oficial não dá nem para cobrir os custos de vida básicos desses trabalhadores. Muitos não têm outra opção a não ser continuar trabalhando. O Reino Unido vai ser duramente atingido pela COVID-19 porque muitas pessoas simplesmente não têm como ficar em casa.

Outro grupo de trabalhadores que foi duramente atingido são os trabalhadores da saúde, nas linhas de frente do NHS. Ao mesmo tempo em que os elogia como heróis, e se junta às manifestações populares de apoio, como os aplausos toda noite, o governo falhou em fornecer-lhes mesmo o equipamento de proteção básica. O número de trabalhadores no NHS mortos está aumentando rapidamente, já tendo ultrapassado 30, enquanto médicos, enfermeiras e outros trabalhadores da saúde ou relacionados estão atualmente trabalhando longas horas e tendo suas férias anuais canceladas. Meio milhão de voluntários, a maioria ex-trabalhadores da saúde ou aposentados foram convocados para ajudar a tapar os buracos de um sistema de saúde cronicamente subfinanciado, fornecendo efetivamente milhões de horas de trabalho não-pago.

Para aqueles que podem ficar em casa e ainda trabalhar (ou pelo menos fingir trabalhar), a situação apresenta outros riscos. Muitos comentaristas no Reino Unido têm dito que agora entramos em uma nova era de trabalhar em casa. Esse novo argumento (que parece bem velho) diz que alguns de nós agora estão livres da tirania do escritório. No entanto, ao invés de ver isso como algum tipo de férias prolongadas do trabalho de escritório, é crucial entender como isso pode remodelar o trabalho. A COVID-19 fornece um campo de testes para o capital, no qual novos métodos de vigilância e controle podem ser testados.

Para muitos trabalhadores de escritório, trabalhar em casa na verdade envolve uma intensificação do trabalho. Muitos estão sendo obrigados a trabalhar mais e mais rápido pelos chefes, com medo de que eles possam estar enrolando em casa. A ameaça de demissões ou dispensas significa que a pressão não diminuiu. Facilitadas pelas novas e reluzentes tecnologias do Vale do Silício, velhas formas de vigilância estão sendo reanimadas. Um trabalhador de escritório que conversou conosco contou sobre o monday.com, um software de trabalho remoto usado no seu local de trabalho, que permite que gerentes “centralizem toda a comunicação dentro do contexto de fluxos de trabalho e projetos.” O aplicativo registra o tempo gasto trabalhando até os segundos, assim como monitora outros indicadores de performance [key performance indicators – KPI]. Com a revelação de que o Zoom permite que a sua empresa rastreie quando você clica fora da chamada, ficou claro que gerentes estão usando essa crise para implementar mais vigilância no trabalho. Quando novos e mais lucrativos meio de organizar o trabalho são criados em uma crise, eles não são abandonados quando a crise acaba. A não ser que os trabalhadores resistam ativamente, haverá pouco para se celebrar deste tempo trabalhando em casa. Na verdade, para alguns trabalhadores, como os das universidades, a crise foi usada para forçar o fim de uma ação de enfrentamento em andamento, com os trabalhadores sendo forçados a trabalhar horas extras para transformar as aulas em aulas online, enquanto suas demandas por melhores salários e condições foram postergadas com pouca ou nenhuma resposta do sindicato.

Trabalhar de casa, ou pelo menos gastar tanto tempo em casa, tem destacado a mudança na composição social de muitos trabalhadores no Reino Unido. No Notes from Below, nós consideramos a composição social como um importante aspecto da análise da composição de classe, tentando entender os trabalhadores além do trabalho. O isolamento chamou a atenção para a falta de uma comunidade em muitas partes do Reino Unido, com um grande número de pessoas sem acesso a ela durante a pandemia. Apesar disso, em todo o Reino Unido tem havido o estabelecimento de milhares de grupos de “ajuda mútua”. O movimento começou com grupos no Facebook para grandes áreas, que então foram sendo divididas em áreas cada vez menores. Por exemplo, isso começou para dois de nossos editores no bairro de Londres em que eles moram (que abriga mais de 300.000 pessoas). O grupo no Facebook ficou tão grande que foi divido em grupos do Whatsapp (nosso grupo cobria uma área onde mais de 30.000 pessoas moram). De novo, esse grupo foi dividido em 18 grupos locais diferentes. Nós agora estamos em um grupo com mais de 50 membros que cobre as três ruas em volta do bloco de prédios em que moramos. O surgimento desses grupos de apoio hiperlocal é estimulante e necessário, dado o colapso econômico que se aproxima. Embora ainda não tenhamos visto os grupos fazerem mais do que facilitar a coleta e entrega de alimentos aos vizinhos, eles são redes em formação. É claro que será uma luta difícil mantê-los vivos como locais de resistência e solidariedade e não como grupos de vigilância de bairro, mas eles criam uma oportunidade para construir algo que raramente existiu antes no Reino Unido.

Para onde?

As primeiras semanas de COVID-19 foram uma confusão para o movimento sindical no Reino Unido. No IWGB, o pequeno sindicato em que alguns dos editores de Notes from Below estão envolvidos, isso envolveu apagar uma serie de incêndios: tentar garantir os empregos e equipamentos de proteção para os membros. Um ramo inteiro do IWGB, os instrutores de ciclismo, foi informado de que teriam apenas mais um pagamento. Os faxineiros das universidades e de outros locais de trabalho em Londres receberam diretrizes confusas e pouco claras, e muitos foram solicitados a continuar trabalhando normalmente. Em uma universidade, eles foram solicitados a limpar uma sala de aula usada por um aluno que testou positivo para COVID-19, sem equipamento de proteção e sem serem informados. Também houveram boas notícias: a filial da Universidade de Londres garantiu aumentos salariais para trabalhadores terceirizados na UCL em meio à crise.

Apesar dos sindicatos menores como o IWGB e o UVW entrarem em lutas contra os patrões, os principais sindicatos do Reino Unido mais uma vez foram incapazes ou não quiseram responder adequadamente a nível nacional. Poucas campanhas tem acontecido — com o sindicato de professores UCU encurtando sua greve em muitos campis e outro sindicato cancelando a greve por inteiro. Os chefes sindicais caíram na história de que esta crise requer unidade nacional, acompanhando a nova liderança de direita do Partido Trabalhista. Em todo o Reino Unido, muitos trabalhadores ficaram sem apoio. Isso não impediu que a raiva borbulhasse nos locais de trabalho — tanto aqueles que são conhecidos por serem mais militantes quanto aqueles sem qualquer histórico de luta. A resposta do IWGB a isso foi lançar um ramo a que qualquer trabalhador pode aderir, fornecendo suporte aos trabalhadores não organizados anteriormente.

Além disso, resta saber se haverá um acerto de contas quando tudo isso acabar. O governo escapou de um escrutínio sério até agora e ainda pode escapar depois. Muitos estão pedindo algum tipo de ajuste de contas quando “voltarmos ao normal”. Esta ameaça, que pode ser útil em alguns contextos, visa vingar-se de quem não apoiou os trabalhadores durante este período de crise. No entanto, também destaca como muitos se sentem impotentes no momento. Assim que a fase COVID-19 da crise terminar, é claro que as coisas não “voltarão ao normal”. Uma crise econômica sem precedentes foi deflagrada e haverá uma tentativa de reformular seriamente o trabalho.

A composição de classe está mudando e agora, como sempre, é o momento de organizar.

Mais informações:

As fotografias que ilustram esse artigo são de Martin Parr.




Fonte: Passapalavra.info