Junho 1, 2021
Do Passa Palavra
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Por Passa Palavra

O Passa Palavra tem sido, ao longo de mais de uma década, um espaço aberto a reflexões sobre as lutas dos trabalhadores e um dos espaços dedicados a noticiá-las e apoiá-las. Para isso, sempre tivemos de contar com a ajuda de pessoas interessadas em colaborar com esse esforço.

Recentemente fizemos uma chamada pública de artigos que infelizmente não surtiu o efeito desejado, convocando nossos leitores a colaborar com artigos com a temática Pandemia e Trabalho. Mas nem por isso deixaremos de estimular o debate. Colocaremos, pois, algumas questões que poderão suscitar — é o que esperamos — colaborações dos nossos leitores.

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Por força da covid-19, o mundo do trabalho vem passando por transformações aceleradas, imediatamente prejudiciais para os trabalhadores mas que, a nosso ver, contêm brechas que podemos explorar. Em primeiro lugar, os processos de trabalho, nos mais diversos setores, nunca foram tão informatizados e interconectados, e há toda uma série de serviços que operam exclusivamente no âmbito virtual. E mais: os trabalhadores têm de, cada vez mais, desenvolver a habilidade de atuar e comunicar-se virtualmente; estamos todos fragmentados, mas ao mesmo tempo cada vez mais integrados.

O grande problema reside no fato de que as repercussões materiais da nossa atuação virtual têm obedecido, via de regra, aos imperativos do processo de acumulação de capital, por um lado, e à coleta de informações a nosso respeito, de outro, permitindo que a burguesia e os gestores tenham um controle cada vez maior sobre nossas vidas, no sentido de poderem antecipar-se às nossas ações e prevê-las ou, a posteriori, refazer nossos passos e tentar nos enquadrar, para que nossas ações no mundo virtual não coloquem em risco as relações sociais predominantes no mundo real e, em vez disso, potencializem-nas, ou seja, conservem a ordem política, social, econômica e cultural atualmente existente.

O fundamental é, portanto, buscar uma reorientação de nossa existência e nossas relações virtuais — de maneira cada vez mais intensa e abrangente — no sentido oposto: de que formas podemos, em nossas interações virtuais, causar rachaduras no edifício daquela ordem social, para que nossa existência virtual deixe de servir ao controle e à exploração do proletariado? E como nossas interações virtuais podem fortalecer, potencializar relações de outro tipo no mundo que nos cerca, baseadas na contestação às modalidades de poder político admitidas pelo capitalismo, na conformação de um modo de produção de novo tipo, na eliminação das classes sociais e de quaisquer modalidades de estratificação ou diferenciação sociais e, por fim, no combate à indústria cultural de massas, à cultura da barbárie promovida 24 horas por dia em cada canto da internet e nos aplicativos pelos quais interagimos uns com os outros.

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Quanto à arte (sim, a arte), de que maneiras, enquanto exploramos as novas brechas deixadas por aqueles que nos exploram, podemos desenvolver nossas sensibilidades, exprimindo-as através da estética, para que sejamos capazes de antever, de antecipar, de um lado, as repercussões das mudanças em curso sobre os processos de trabalho a que estamos sujeitos e, de outro, suas repercussões sobre nossas vidas e as tendências de desenvolvimento do proletariado? E, de outro lado ainda, como podemos explorar tais brechas para, por meio da arte, antever e antecipar a negação dessas relações de exploração e a sua transformação no seu contrário? Como podemos utilizar os novos instrumentos colocados pelos capitalistas em nossas mãos — para nos explorar e nos embrutecer — para restaurar a dimensão do humano e do popular no âmbito da estética e exprimir o mundo que há de ser nas lutas que virão, já contido em gérmen no mundo atual?

Pode parecer estranho falar em arte num texto suscitado pela ineficácia de uma chamada pública de artigos intitulada Pandemia e Trabalho, mas não seria esse estranhamento justamente um sintoma do embrutecimento generalizado promovido pela indústria cultural? E não seria o contexto que vivemos eminentemente cultural, quer dizer, não estaria o capitalismo sendo capaz de difundir, numa escala e numa intensidade inéditas, junto a remodelações no mundo do trabalho, uma cultura que é, na verdade, a própria negação do popular e do humano? Que veem os trabalhadores, todos os dias, nas telas dos celulares e dos computadores? Que deixam de ver, aí, aqueles que tela alguma têm para olhar, e o que veem no seu lugar? E como tudo isso se expressa no seu jeito de fazer um dia a dia que deles tudo depende? Qual é o lugar da arte nas vidas de pessoas que compõem um tão complexo e multifacetado organismo social, a classe trabalhadora? E como nossa integração virtual, acelerada pela pandemia, pode viabilizar tendências contrárias às da indústria cultural ou pôr em evidência aquelas já existentes?

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É certo que muitas das transformações em curso, como costuma ocorrer no capitalismo, acabarão levando a uma relativa melhoria no nível de vida da população em geral, mas deverão também — como, aliás, já tem ocorrido — pôr em evidência diferenças e desigualdades ainda mais acentuadas.

Uma pandemia que impõe restrições à aglomeração de pessoas e ao seu deslocamento pelos espaços urbanos implica inevitavelmente no agravamento de dificuldades que já faziam parte da vida de milhões de trabalhadores ao redor do mundo, que para levar a vida precisam se deslocar, seja de casa para o trabalho, de uma cidade a outra ou de um país a outro. Por outro lado, a inserção do proletariado nos espaços virtuais sempre foi cheia de empecilhos, quer pela dificuldade de acesso à infraestrutura requerida por aparelhos como celulares e computadores, quer pela impossibilidade ou dificuldade de adquirir tais aparelhos ou pagar por serviços de comunicação, quer pela falta do conhecimento técnico necessário para explorar todas as suas funcionalidades, etc.

Como o cotidiano desses trabalhadores tem sido transformado, para melhor ou para pior? Como eles têm reagido a tais mudanças, tanto as camadas mais precarizadas quanto as menos precarizadas? E, sobretudo, qual tem sido — e pode vir a ser — o papel desempenhado por aqueles trabalhadores cuja função é estabelecer e manter em funcionamento uma tal infraestrutura e os mais diversos serviços, indispensáveis para que o processo de informatização do trabalho em curso possa ocorrer? Como tudo isso tem impactado nas desigualdades sociais e regionais e, no interior do proletariado, como as camadas sujeitas a relações de exploração onde predomina a mais-valia absoluta se relacionam — e podem vir a se relacionar — com aquelas sujeitas predominantemente à extração de mais-valia relativa? A separação entre trabalho manual e intelectual tem assumido que formas, e que mudanças têm se verificado nesses tipos de trabalho?

Por fim, mas sem esgotar o problema, qual é o impacto da pandemia sobre o poder de compra e os padrões de consumo dos trabalhadores, sobre sua remuneração, etc.? Todas essas questões em aberto dependem de muito debate, não apenas para que sejam colocadas de maneira correta, mas também para que suscitem respostas a serem testadas na luta.

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Outra questão fundamental diz respeito à produção de trabalhadores por trabalhadores, isto é, à educação. De que maneiras podemos explorar as novas tecnologias e as novas técnicas aplicadas aos processos educacionais para promover, de um lado, a instrução geral do proletariado e, de outro, para que ele tenha melhores condições para criticar e resistir aos obscurantismos tão em voga? E como podemos promover, integrado ao ensino remoto, o acesso da juventude àquela cultura popular e humanista que referimos acima? O ensino remoto pode ser apropriado criticamente pelos trabalhadores e potencializar as lutas? E quais são os aspectos dessa modalidade de ensino que precisam ser combatidos, aqueles que representam uma negação da cultura e uma formação que atende exclusivamente aos ditames da acumulação de capital?

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Não poderíamos deixar de mencionar questões envolvendo o setor da saúde, tanto no que diz respeito aos trabalhadores deste setor quanto no tocante ao acesso da classe trabalhadora aos serviços de saúde, públicos ou privados. É impossível falar em Pandemia e Trabalho, pois, sem examinar tais questões e sem buscar, também aí, as brechas que podemos explorar para, num mesmo movimento, defender a saúde física e mental dos produtores e dos consumidores desses serviços e, por outro lado, promover e apoiar as lutas dos trabalhadores da saúde. É preciso, mais do que nunca, que os produtores e os consumidores dos serviços de saúde unam-se, somem forças e integrem suas experiências particulares de resistência contra o capitalismo.

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Finalmente, é preciso pôr em relevo campanhas de solidariedade que têm sido realizadas em muitos lugares, atenuando os efeitos mais perversos da pandemia sobre as vidas dos trabalhadores mais precarizados, lançando as bases de desenvolvimentos que poderão ser muito positivos para as lutas sociais: tais iniciativas precisam ser conhecidas, noticiadas, analisadas e, claro, apoiadas. Seus possíveis efeitos sobre as próximas ondas de contestação social devem ser examinados e debatidos.

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Essas questões urgentes demandam um esforço colossal de toda a esquerda e de todos os trabalhadores e, mesmo que um tão necessário empreendimento coletivo não se dê no Passa Palavra — certamente não se dará apenas no Passa Palavra —, continuaremos insistindo na sua urgência e convocando nossos leitores a dele participar.

A pandemia, como visto, acelerou mudanças que já vínhamos sendo, em grande medida, incapazes de acompanhar, surpreendendo-nos a todos. Quem sabe, num futuro próximo, se formos capazes de compreendê-las objetivamente, tal como se têm apresentado no momento e em suas tendências de desenvolvimento, não sejamos nós, os explorados, a pegar de surpresa os exploradores?

Este artigo foi ilustrado com obras de Cildo Meireles.




Fonte: Passapalavra.info