Junho 15, 2021
Do Passa Palavra
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Por Leo Vinicius

[Não contém spoilers]

Itamar Vieira Junior, a partir da influência de consagrados nomes da literatura brasileira e da sua experiência de campo como servidor público do INCRA (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária), escreveu Torto Arado, seu primeiro romance. A obra, premiada primeiro em Portugal, está por meses no topo da lista de livros mais vendidos no Brasil, após ganhar os prêmios Jabuti e Oceanos. Em maio de 2020 já haviam sido vendidos 165 mil exemplares no Brasil. Um fenômeno, raro que é um livro de ficção brasileira ficar por semanas consecutivas no topo dos mais vendidos.

Certamente um grande candidato a clássico da literatura brasileira, Torto Arado é provavelmente o principal e melhor romance brasileiro deste século. Por ter sido tão premiado, ter tido esse sucesso de vendas e se tornado popular (dentro das condições que um livro pode ser popular no Brasil), há também uma tendência de críticos amadores ou profissionais procurarem as imperfeições ou defeitos na obra.

É um livro que o coletivo italiano de escritores Wu Ming gostaria de ter escrito. Ao menos é o que imagino. Talvez até mesmo por não ter a preocupação política dos livros de Wu Ming, Torto Arado acaba tendo uma potência política possivelmente maior. Assim como é característica da obra de Wu Ming, Torto Arado reata sujeitos, lutas e situações que a história e/ou a geografia fragmentam. Mais do que isso, reata o leitor a essa unidade sócio-histórica, universal e imaginária mas não menos real, que podemos chamar aqui de luta contra a exploração e os exploradores. Algo que Antonio Negri de alguma forma busca fazer na sua não-ficção O Poder Constituinte. O tempo é fisicamente a quarta dimensão, uma dimensão perpendicular às outras três. Talvez a maior genialidade em Torto Arado seja nos fazer experimentar ou compreender a quarta dimensão, a da vida num tempo que não nos encerra numa coleção de histórias, de minutos, de séculos, num passado, num presente ou num futuro. Isso que em Torto Arado identifico ou interpreto como o tempo enquanto quarta dimensão do nosso mundo, Itamar Vieira Junior em entrevista nomeia como a “consciência social”. Eu preferiria chamá-la, talvez como os zapatistas chamariam, de memória coletiva. A propósito, assim como livro de cabeceira de Lula [1], posso imaginar Torto Arado sendo livro de cabeceira do Subcomandante Marcos, ou até mesmo sendo a autoria atribuída a ele, caso o Sup ainda existisse. O lirismo, a poesia também era característica do Sup, assim como uma história cheia de “encantados” das comunidades também pobres e rurais de Chiapas. Contudo, de fato, o Sup costumava ter um humor ausente em Torto Arado.

As histórias do velho Antônio que o Sup contava não eram regionalistas. Eram universais, assim como Torto Arado é universal mesmo se localizando numa comunidade rural da Chapada Diamantina (porém baseada segundo o autor em uma realidade mais próxima que ele conheceu no Maranhão [2]). A forma poética não deve ser minimizada para o alcance desse universalismo, seja nos comunicados do saudoso Sup, seja em Torto Arado. Favorecendo a identificação, a figura de linguagem deixa o significado mais livre do significante, facilitando a projeção da experiência vivida do leitor. Torto Arado apresenta uma relação de pertencimento à terra, ao território. Mas sua linguagem transcende esse pertencimento específico, e essa identidade específica. Para as irmãs protagonistas Bibiana e Belonísia, a terra, aquela terra, era local do trabalho, da moradia, da vida e “meio de produção” (diríamos nós simplificando e distorcendo a relação daquela comunidade com a terra). Parece que a relação com a terra, ainda mais quando ela é lugar de vida e de trabalho, se torna a imagem por excelência, na literatura e no nosso imaginário, da relação de pertencimento a algo, da construção do eu. Esse pertencimento, essa relação umbilical com a terra e o território é um elemento evidente também na resistência e rebeldia zapatista. Mas para nós, que vivemos na cidade, quem somos afinal? O que nos fez o que somos? O que na sua vida está ligado à sua história, à construção do seu eu, àquilo que você é? O que não pode ser suprimido sem ferir você de algum modo, como se lhes tirassem uma parte da carne, ou uma parte da alma? Qual é a sua “terra”?

A atividade humana transformada em trabalho tem sido historicamente uma fonte relativamente importante da construção de identidade e do eu. Se isso era mais evidente pela estabilidade dada pelas corporações de ofício pré-capitalistas, no entanto os ofícios ressurgem em alguma medida inevitavelmente, apesar da luta incessante do capital em retirar do trabalhador o poder que o saber-fazer lhe dá. Luta incessante também para sobrepor às regras coletivas instituídas por uma comunidade de trabalhadores, que dão os contornos de um ofício. Mas para além do trabalho, inúmeras possibilidades existem de constituirmos o nosso eu, passando pelas próprias artes, pela cultura de massa, pela família, religião etc. etc. Como fica claro no romance, a relação de identidade e pertencimento com aquela terra não era a mesma sequer para Bibiana e Belonísia, assim como não era a relação delas com as letras. A história de cada um é a história de como a relação que tivemos com cada uma dessas inúmeras instituições sociais nos moldou, se tornou parte do que somos. Isso nos torna específicos, particulares. O grande achado político, o tesouro a ser encontrado, é o universal nessas particularidades e caminhos únicos.

Talvez o próprio Itamar Vieira Junior reconheça algo da realidade do INCRA em meio a um governo ultraneoliberal e neofascista, na fazenda Água Negra de Torto Arado. Como servidor também de um órgão federal, temos vivido na Fundacentro a chegada de um novo “dono da fazenda”. Os órgãos federais estão sendo tomados como se fossem órgãos de governo, e não de Estado. E esse novo “dono da fazenda” chamada Fundacentro literalmente despejou os servidores de quase todas as Unidades dos seus locais de trabalho, os colocando em condições piores, tendo sido várias dessas Unidades extintas. Tem imposto também normas e procedimentos burocráticos estranhos à atividade de pesquisa, a qual é a missão da Fundacentro. Maltratam e destroem o ofício de pesquisa. Desfazem parte do acervo de livros… numa instituição de pesquisa! Já não cabemos, nós, construídos na relação com esse ofício, com os livros inclusive, no projeto daqueles que se apoderaram dessa “terra”. Querem e estão nos eliminando de diversas formas, o que inclui a Reforma Administrativa como instrumento. Mas a Fundacentro é nossa, não deles. Nossa certidão é nosso suor, como diz o trabalhador rural maranhense (vide nota 2).

Mas o universalismo de Torto Arado não opera apenas por esse caminho. Os zapatistas, ao mesmo tempo que se tornaram na década de 1990 uma espécie de vanguarda revolucionária mundial, tinham como base social um modo de vida considerado um resquício do passado, aqueles esquecidos e deixados à margem pelo capitalismo. O mundo rural de Torto Arado, com relações econômicas feudais, remonta também ao resquício de um passado fadado a acabar. Mas em parte ou em certo sentido, esse atraso é nosso futuro. E nesse sentido possuem alguns elementos que antecipam tendências. Em outro artigo abordei já, através principalmente da leitura da realidade de Marcio Pochmann, que, no caso brasileiro, há uma espécie de retorno a características da Velha República, como o fanatismo religioso e um sistema jagunço gerindo uma massa sobrante de trabalhadores, dessa vez majoritariamente urbana [3]. O sistema jagunço está se generalizando, o que traz também uma dimensão universal ao romance lírico e realista de Itamar Vieira Junior.

E por falar em tendências, recentemente o Passa Palavra publicou um chamado para, entre outras coisas, pensar como podemos usar a arte para antecipar as tendências de mudança nos processos de trabalho e as tendências de desenvolvimento do proletariado [4]. Quanto a isso, um trecho de entrevista do nosso autor é bastante rico [5]. Questionado sobre semelhanças com outras obras de arte contemporâneas, especificamente um ou dois filmes premiados do mesmo ano de Torto Arado, Itamar Vieira Junior tenta esclarecer as tendências que na visão dele esses artistas têm captado e expressado através de suas obras. Ele fala do fim da possibilidade de conciliação de classes. E aí o artista, muito bom em captar o espírito do tempo, peca na interpretação política. De fato vivemos o fim da conciliação de classes, mas não pelas exigências do proletariado terem rompido com ela, como ele deixa transparecer. Ao contrário, as classes dominantes que romperam a conciliação. E como dizem os zapatistas, a hidra capitalista está faminta e não permitirá mais os tais governos progressistas. A conciliação foi rompida, para esmagar o proletariado, e que seja eliminado quem tiver que ser. Quando instigado pela jornalista, o autor afirma que essas obras apontam que estamos no limiar de um momento explosivo…

O sangue nessas obras é o sangue da morte. O que essas obras trazem do espírito do tempo e das tendências, a meu ver, é a morte como conceito cada vez mais presente ou central da luta de classes. A tendência no proletariado é de morte, em duplo sentido, morte sobre ele e morte como forma de sobreviver. Os zapatistas, como eles próprios dizem, morrem para viver. Como eles, a tendência que se generaliza no proletariado é a de se dispor a morrer para não ser morto. Entenda isso como convier, pois essa morte não necessariamente é literal, embora certamente em cada vez mais casos o será.

Diante da morte como tendência proletária, a questão é qual morte inventaremos para viver? Qual morte poderá ser consequente politicamente, como a que os zapatistas conseguiram a partir do seu contexto? Qual morte poderá dar um sentido emancipatório, alternativo à morte do proletariado das favelas que se lança nela pelo tráfico de drogas, à morte daquele que se faz bomba, à morte do suicídio e outros tipos de morte que aparecerão e se tornarão frequentes?

* * *

Li num determinado livro que um conhecido revolucionário do século XIX dizia que a revolução era um terço realidade e dois terços fantasia [6]. Por isso, talvez, por mais contraditório que possa parecer com um romance lírico, Torto Arado poderia ser visto como um manual revolucionário. Categorizado como uma obra de realismo mágico, ele enlaça realidade e fantasia, realidade e magia, realidade e algo que vai além do racional, que estaria na própria natureza do imaginário e do social-histórico como apontou Castoriadis. Se a esquerda vira e mexe faz autocrítica por estar distante da realidade do proletariado, mais do que os pastores, então nem falemos da distância que ela tomou da fantasia, da imaginação, da magia.

Imaginação e poesia (criação) são as ferramentas disponíveis para unificar na medida do possível um proletariado fragmentado pelo movimento do capital. Esses instrumentos a burguesia utiliza quando pode tirar proveito do que unifica os proletários. Os reality shows como reposição da realidade do mundo do trabalho contemporâneo, chave do seu sucesso pela identificação mesmo inconsciente dos telespectadores, foi brilhantemente exposto por Silvia Viana [7]. Esses dias, num portal de notícias, a eliminação de alguém da casa do Big Brother Brasil era nomeada como “demissão”. A possibilidade de unidade do proletariado, de identificação de uma condição comum é usada pela indústria cultural, nos dando a prova real de que basta um sopro para fazer a casa ruir… um sopro que tem que ser no lugar certo. Onde está o departamento criativo da esquerda? Quando ela irá começar a procurar os encantados esquecidos, colocar novos para caminhar com os proletários? Se os encantados irão ressurgir ou não, não sabemos. Mas a morte vai correr solta.

Notas

[1] ‘Lula é o mais novo fã declarado de Itamar Vieira Junior e seu Torto Arado’.
[2] Esta reportagem mostra a realidade dessas comunidades do Maranhão tal e qual retratado em Torto Arado, escancarando o realismo da obra.
[3] ‘Lula está voltando?’.
[4] ‘Tentar de novo, mais uma vez’.
[5] Entrevista de Itamar Vieira Junior no Roda Viva em 15/02/2021, em 1:14:00.
[6] O revolucionário seria Mikhail Bakunin. Não me recordo o título do livro, que era uma obra que não tratava de Bakunin nem do anarquismo especificamente. Era uma obra em inglês creio, mas talvez em espanhol, que não trazia referência de onde Bakunin havia expressado isso. Não consegui encontrar esse pensamento de Bakunin nas obras completas digitalizadas dele. O sentido de ‘fantasia’ não ficou claro para mim, quanto mais múltiplas traduções dificultem a apreensão que supostamente Bakunin queria dar. Talvez ele quisesse dizer que a razão constitui apenas um terço do que necessita uma revolução, ou talvez que os revolucionários sempre achem que as condições de uma revolução estão dadas, quando na verdade estão fantasiando em grande parte.
[7] Ver o seu livro ou tese de doutorado de título Rituais de Sofrimento.

A fotografia em destaque é de Sebastião Salgado (1944-)




Fonte: Passapalavra.info