Novembro 16, 2020
Do Territorio Livre
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Crianças aguardam por doação de comida em uma favela em Mumbai, Índia. (por Rajanish Kakade, 18-04-20).

No final do mês passado, quando o coronavírus continuou a se espalhar pelo mundo, o Programa Mundial de Alimentos (WPF, na sigla em inglês) alertou para uma “pandemia de fome”. Com os isolamentos e bloqueios restringindo a renda dos pobres e interrupções na cadeia de suprimentos impedindo que os alimentos cheguem aos consumidores, a fome e a desnutrição relacionadas à pandemia podem eventualmente levar mais vidas do que a própria doença. Compreender a geografia da pandemia e a vulnerabilidade de diferentes sistemas alimentares é fundamental para uma resposta bem informada.

Segundo o Programa Mundial de Alimentos, existem agora 821 milhões de pessoas no mundo que dormem famintas todas as noites, e mais 135 milhões enfrentam níveis críticos de fome ou inanição. Esse último número pode dobrar para quase 265 milhões no final do ano por causa do COVID-19.

Embora a fome global tenha diminuído nas últimas décadas, a tendência se reverteu alguns anos atrás, quando os níveis de insegurança alimentar começaram a subir novamente, com conflitos militares em muitas regiões e recentes infestações de gafanhotos na África Oriental sendo alguns dos principais fatores. Como tal, os problemas de segurança alimentar relacionados ao coronavírus estão no topo das tendências mundiais já preocupantes.

Ao avaliar os impactos do COVID-19 na segurança alimentar global, é importante considerar como a pandemia está afetando a produção e distribuição de alimentos, bem como a capacidade das pessoas de comprar ou adquirir alimentos. Além disso, líderes e políticos precisam entender o padrão espacial da pandemia e a vulnerabilidade de diferentes sistemas alimentares.

A pandemia de COVID-19 não tem se propagado pelo planeta de maneira uniforme, como tinta fresca envolvendo uma bola. Em vez disso, se espalhou desde suas origens em Wuhan, na China, para outros grandes centros urbanos bem conectados do mundo, e daí para cidades menores e finalmente para áreas rurais — um padrão conhecido como difusão hierárquica. O que isso significa é que o mundo não está enfrentando uma grande e uniforme pandemia, mas uma série contínua de surtos interconectados e espacialmente diferenciados, com diferentes inícios e dinâmicas.

Isso também significa que os moradores das cidades atingidas primeiro, geralmente conectadas globalmente e relativamente ricas, podem enfrentar as dificuldades econômicas e os problemas alimentares associados à doença de maneiras diferentes das afetadas posteriormente. Essas diferenças persistem porque as conseqüências para a segurança alimentar provocadas pela doença são condicionadas pelos sistemas sociais, econômicos e alimentares nas quais estão operando. Isso não significa necessariamente que as regiões mais ricas ou mais industrializadas estão em melhor situação, apenas que suas vulnerabilidades são diferentes.

De um modo geral, é mais provável que os países mais ricos tenham problemas com a produção de alimentos por conta da natureza de suas cadeias de suprimentos, que são complexas e concentradas. Enquanto isso, os países de baixa renda provavelmente terão problemas com o acesso a alimentos, devido às suas fracas redes de segurança social.

Produção de alimentos

Impactos no suprimento de alimentos variam de acordo com o tipo de alimento. O ano passado foi um bom ano de colheita para a maioria dos principais grãos do mundo, e os estoques são relativamente abundantes. O processamento e transporte de grãos é também relativamente menos trabalhoso do que de outros tipos de alimentos. Assim, não se espera que a escassez de grãos seja um problema nos próximos meses, a menos que alguns dos principais países produtores de grãos optem por estocar suas produções. Essa é uma boa notícia para os países importadores de grãos, incluindo muitos de baixa renda da África.

No entanto, o vírus está começando a criar problemas para a produção de frutas, legumes e carne em algumas áreas do mundo, principalmente em países de alta renda. Aqui (o autor refere-se aos Estados Unidos), grande parte da produção de frutas e vegetais é realizada pelo trabalho de imigrantes alojados em fazendas em locais próximos, tornando-os particularmente suscetíveis a surtos de COVID-19. As fábricas de processamento de carne também são especialmente vulneráveis ao coronavírus, com várias fábricas nos Estados Unidos e no Canadá sendo forçadas a fechar recentemente. A concentração corporativa na indústria de carnes ampliou o problema, porque agora existem menos fábricas, mas significativamente maiores, com trabalhadores muito adensados. Centenas de trabalhadores foram infectados em algumas instalações, levando a perdas significativas na produção de alimentos.

Os impactos do COVID-19 na produção de alimentos em países de baixa renda diferem dos de países de alta renda. A produção para consumo doméstico e para os mercados locais ainda é difundida em algumas áreas tropicais do mundo. Com cadeias de suprimentos mais curtas e produção mais diversificada, há menos chance de algo dar errado. Uma forma dessa produção mais localizada é a agricultura urbana e periurbana de pequena escala, que abastece muitas cidades dos países mais pobres com boa parte de seus produtos frescos.

As mulheres desempenham um papel central como produtoras de alimentos em muitas áreas dos trópicos, representando 70% dos alimentos produzidos na África, por exemplo. Mas as mulheres também são as principais prestadoras de cuidados em muitas dessas sociedades, o que significa que elas podem ser mais propensas a serem expostas a membros da família doentes com o COVID-19, com implicações em cadeia na produção de alimentos, cuidados infantis e nutrição infantil.

Acesso a alimentos

Os bloqueios relacionados ao COVID-19 têm sido particularmente desafiadores para os mais pobres nas áreas urbanas dos países de baixa renda, porque essas populações dependem do trabalho informal e intermitente para ganhar o dinheiro necessário para comprar comida. Além disso, muitos países de baixa renda não são capazes de fornecer uma rede de segurança social robusta às suas populações em termos de substituição de renda ou fornecimento direto de alimentos durante um bloqueio.

Isso tem levado à migração reversa, ou migração urbano-rural, em alguns países como a Índia, quando trabalhadores desempregados voltam para áreas rurais em busca de melhor acesso a alimentos. Embora isso faça sentido para os indivíduos, esses grandes movimentos de pessoas também podem espalhar a doença nas áreas rurais.

Muitas famílias em países de baixa renda também estão enfrentando declínios na renda de remessas de familiares que vivem no exterior e não podem mais trabalhar devido a bloqueios em países mais ricos. Isso restringe ainda mais o orçamento alimentar dessas famílias.

O caminho a seguir

Para enfrentar tanto os problemas de produção quanto os de acesso a alimentos, o mundo precisa de um sistema alimentar mais descentralizado. A concentração corporativa, particularmente nos países mais ricos, apenas tornou o sistema alimentar mais vulnerável a surtos de pragas e doenças. Grandes fazendas que usam métodos industriais para cultivar uma gama restrita de culturas são menos adaptáveis às mudanças nas condições do mercado. Elas também envolvem densas forças de trabalho e campos monoculturais, ambos mais suscetíveis a doenças. Além disso, a tendência para menos e maiores instalações de processamento de alimentos produz gargalos no sistema, pois mesmo uma falha em uma única fábrica pode levar a uma perda significativa na produção. As políticas que incentivam a desconcentração das indústrias de alimentos tornariam os sistemas alimentares menos vulneráveis a doenças, com o benefício adicional de que uma produção alimentar mais localizada é melhor para o meio ambiente.

Nos países de baixa renda, apoiadores e seus parceiros do setor privado também devem interromper seu esforço incansável para integrar os pequenos agricultores no sistema alimentar global. Aqui (Estados Unidos), pequenos agricultores que produzem amplamente para consumo doméstico e local estão sendo incentivados a usar mais insumos comprados — como sementes, fertilizantes e pesticidas — e a produzir para mercados regionais e globais. Isso não tem levado a melhorias na segurança alimentar e nutricional das famílias envolvidas e tornou a produção de alimentos mais arriscada devido ao aumento das chances de endividamento e maior exposição às flutuações dos preços de mercado.

Por pior que possa parecer agora, os efeitos negativos do COVID-19 na segurança alimentar global só se aprofundarão à medida que a doença se espalhar ainda mais nos países de baixa renda. Esses impactos agravarão os problemas alimentares já existentes, exacerbando a fome de maneiras que não vemos há várias décadas. A comunidade global deve responder rápida e generosamente para enfrentar a maré crescente da fome global.

Com o nacionalismo econômico e a xenofobia em ascensão em alguns países mais ricos, será difícil conseguir apoio político para uma assistência generosa e uma abordagem multilateral para combater a fome global. Mas se os políticos não são influenciados pelo argumento moral de que o direito à alimentação é um direito humano fundamental, certamente devem entender que é do seu próprio interesse defender uma maior segurança alimentar global. Afinal, a fome generalizada gera instabilidade e conflito, o que não beneficia ninguém.

traduzido livremente

publicado por William G. Moseley em World Politics Review, 12–05–20
https://www.worldpoliticsreview.com/articles/28754/the-geography-of-covid-19-and-a-vulnerable-global-food-system

William G. Moseley é professor de geografia e diretor do ‘Program for Food, Agriculture & Society’, na Macalester College em Saint Paul, Minnesota.




Fonte: Territoriolivre.noblogs.org