Novembro 16, 2020
Do Territorio Livre
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Notas:

_ por Callum Cant – twitter: @CallumCant1
_ publicado em 03/10/2020 por Novara Media em https://novaramedia.com/2020/10/03/the-frontline-of-the-struggle-against-platform-capitalism-lies-in-sao-paulo/
_ traduzido livremente

A linha de frente da luta de classes no capitalismo de plataforma está agora em São Paulo. Mais precisamente, encontra-se no ponto exato onde a Ponte Estaiada atravessa o Rio Pinheiros, que divide a zona sudoeste da cidade. Foi lá, em 1º de julho de 2020, que milhares de motoboys da cidade montaram um bloqueio como parte da maior greve de aplicativos de plataforma de entrega de comida da história.

Foto: Amanda Perobelli/Reuters – Design: Bronte Dow

São Paulo é uma extensa megacidade com mais de 12 milhões de pessoas, a maior do hemisfério ocidental. Em 2013, tinha dez bilionários residentes – mas para o resto da população da cidade, a vida parece muito diferente. Para os muitos residentes de favelas e cortiços de São Paulo, uma combinação de pobreza, superlotação e colapso do bem-estar social está intensificando os impactos da pandemia. À medida que a taxa de desemprego na cidade aumenta para 12%, mais e mais pessoas têm sido empurradas para fora do emprego, inflando o excedente urbano populacional.

É exatamente a partir desse excedente que as plataformas recrutam a maior parte de sua força de trabalho. Milhares de novos desempregados tornaram-se motoboys. Muitas vezes sujeitos ao preconceito racial no mercado de trabalho e vivendo em condições precárias nas margens da cidade, essa força de trabalho periférica viaja para o centro todos os dias para trabalhar em plataformas de entrega de comida como iFood, Uber Eats, Loggi, Rappi e 99 Food em estradas perigosas por menos de U$ 2 por hora.

O aumento no número de pessoas que trabalham para as plataformas significa que mais trabalhadores estão competindo pelo mesmo número de entregas. Com as plataformas dominantes pagando pelo número de entregas concluídas – ao invés do número de horas trabalhadas – o aumento da competição entre os trabalhadores significou um massivo corte na renda desses. É uma história que tem se repetido inúmeras vezes no capitalismo de plataforma e, como sempre, conflitos logo surgiram.

A greve de julho foi desencadeada por uma forma muito contemporânea de luta: um vídeo de selfie, transmitido de entregador para entregador pelo WhatsApp. Um motoboy conhecido como Galo filmou a si mesmo expressando os problemas enfrentados pelos motoboys. Ele havia sido recentemente desativado por uma das plataformas de entrega de comida para a qual trabalhava e queria responder. O clipe viral se espalhou pelas redes sociais e por grupos de entregadores e, em pouco tempo, uma greve selvagem visando todas as plataformas de entrega de comida em operação na cidade estava prestes a acontecer. Suas demandas centrais eram: aumento das remunerações, fim das desativações injustas de contas e apoio das diversas plataformas de entrega para trabalhadores que contraíram coronavírus.

Em São Paulo, a Vice informou uma participação histórica de 5.000 entregadores de plataformas. Os grevistas se reuniram em enormes comboios e bloquearam pontes e shoppings para interromper a circulação de mercadorias e pessoas pela cidade. Notícias da iminente greve também se espalharam para outros motoboys que trabalham para as mesmas plataformas em todo o continente, com paralisações no dia 1º de julho sendo relatadas no México, Chile, Argentina e Equador.

Essa é uma história que guarda profundas semelhanças com as lutas dentro do capitalismo de plataforma que têm ocorrido na Europa. Há um certo arco narrativo que se repete continuamente: uma mudança nos pagamentos ou nas condições de trabalho levam alguns trabalhadores à decisão de que já estão fartos. Eles começam a catalisar um processo mais amplo de mobilização. Segue-se uma rápida auto-organização por meio dos grupos de conversa criptografados, e é feita uma decisão de tomar ação direta contra a plataforma, geralmente entrando em greve.

A natureza informal dessa ação significa que sindicatos e partidos são amplamente evitados quando a luta aflora, e as expressões políticas que emergem da greve variam em tom do revolucionário ao reacionário. Por causa da abrangência transnacional das plataformas para as quais trabalham e das condições profundamente semelhantes entre as fronteiras nacionais, esses trabalhadores auto-organizados muitas vezes acabam fazendo conexões transnacionais com trabalhadores em outras cidades. Seus grupos de conversa se expandem do intra-metropolitano para o intra-continental.

As próprias greves são caracterizadas por bloqueios e ações diretas disruptivas nas ruas da cidade, e as reinvidicações expressas por meio delas giram em torno de ambas demandas por flexibilidade do autônomo e pela segurança do trabalhador. E, infelizmente, assim que essas instâncias de militância surgem, elas começam a se deteriorar à medida que os processos de auto-organização que as produziram se desintegram e não conseguem encontrar uma forma durável. Foi exatamente o que aconteceu em São Paulo, com uma tentativa de greve em 25 de julho contando com níveis de participação significativamente menores.

Existem, é claro, diferenças contextuais. O trabalho nas plataformas no sul global parece menos o produto final de um rápido colapso na relação de emprego formal e mais uma ampliação de uma esfera já em expansão de trabalho informal. Mas as dimensões fundamentais da luta são notavelmente semelhantes mesmo em contextos nacionais muito diferentes. Existe uma experiência transicional compartilhada de trabalho e luta entre motoboys no Brasil e entregadores nas ruas de Londres, Bristol e Manchester. Como sempre, o desafio enfrentado pelo movimento dos trabalhadores de plataformas é como transformar essas lutas de incidentes pontuais em uma campanha consistente.

O futuro do trabalho será definido por este problema: como transformar insurreições contra o poder das plataformas em um movimento dos trabalhadores voltado diretamente ao próprio modo de produção.

No Reino Unido, o movimento dos trabalhadores de plataformas diminuiu de tamanho desde seu pico em 2018. Mas as lutas continuam: ao longo de setembro, os trabalhadores organizados da Deliveroo, juntamente ao IWGB em York, fizeram piquetes contínuos nas lanchonetes da rede Five Guys para protestar contra o tempo excessivo de espera. Agora, a Deliveroo anunciou sua intenção de “contratar” mais 15.000 trabalhadores somente no Reino Unido – o que significa que o número de trabalhadores da Deliveroo terá dobrado somente em 2020, de 25.000 para 50.000. Podemos esperar que o segmento de nosso novo excedente pandêmico – os trabalhadores de cuidados e comércio expulsos dos centros das cidades – se verá absorvido pelo circuito em expansão do capital de plataforma. Mas para as plataformas, como os motoboys de São Paulo mostraram, o recrutamento não é um processo isento de riscos.

À medida que a proporção da classe trabalhadora posta para trabalhar em plataformas continua a se expandir, os padrões de mobilização nesse setor antes marginal continuam a crescer em importância. Mas a impermanência das estruturas orgânicas desenvolvidas pelos entregadores durante greves e conflitos é uma barreira significativa para eles, desempenhando um papel central em um renascimento mais amplo do movimento dos trabalhadores.

Callum Cant é o autor de Riding for Deliveroo: Resistance in the New Economy.




Fonte: Territoriolivre.noblogs.org