Julho 19, 2022
Do Passa Palavra
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Por João Bernardo

A crise económica da década de 1930 é bem conhecida, parece-me inútil alongar-me aqui a este respeito e quero destacar apenas um aspecto. A Alemanha era já então um dos países mais industrializados, contando com uma das tecnologias mais avançadas. Apesar disto era altamente deficitária, porque o tratado de Versailles a obrigava a pagar todos os anos enormes reparações de guerra às potências vencedoras, sobretudo à França e à Grã-Bretanha. Ora, a guerra mundial levara estes dois países a contrair grandes dívidas perante os Estados Unidos, pelo que as indemnizações de guerra alemãs eram em boa medida canalizadas para os americanos, cujos bancos, por sua vez, faziam empréstimos à Alemanha para que ela pudesse pagar as reparações. Instaurara-se assim um circuito triangular: Alemanha → França + Grã-Bretanha → Estados Unidos → Alemanha etc. Quando, nos últimos anos da década de 1920, deflagrou nos Estados Unidos uma crise económica que desencadeou uma sucessão de falências bancárias, os empréstimos americanos à Alemanha ficaram comprometidos, o que por sua vez comprometeu o pagamento das reparações de guerra, com efeitos em cadeia que contribuíram para internacionalizar a crise.

A crise mundial foi precipitada, portanto, por uma ruptura nos circuitos financeiros internacionais, e esta retracção do horizonte económico inspirou ideias nacionalistas mesmo àquelas correntes políticas que não eram originariamente nacionalistas. A doença era apresentada como um remédio. Foi neste contexto, em Abril de 1934, que Leon Trotsky publicou na Foreign Affairs (vol. 12, nº 3) o artigo Nationalism and Economic Life. Trotsky começou por recordar que os fascismos proclamavam o nacionalismo económico, mas não era necessário insistir porque todos o sabiam e, aliás, os próprios dirigentes fascistas anunciavam alto e bom som a defesa de uma economia nacionalista. Por isso Trotsky advertiu que, se todo o fascismo era um nacionalismo económico, nem todo o nacionalismo económico era fascista.

E foi no decurso da sua argumentação que Trotsky escreveu: «Há vinte anos apenas, todos os manuais escolares ensinavam que o mais poderoso factor na produção da riqueza e da cultura é a divisão mundial do trabalho, assente nas condições naturais e históricas do desenvolvimento da humanidade. Mas agora imagina-se que as trocas mundiais estão na origem de todas as desgraças e todos os perigos. Rumo a casa! De regresso ao pátrio lar! Não só seria necessário corrigir o erro do almirante Perry, que fez explodir os muros da “autarcia” japonesa, como seria necessário também corrigir o erro ainda maior de Cristóvão Colombo, que ampliou desmedidamente a esfera da cultura humana». Trotsky foi assassinado em Agosto de 1940, mas isso não seria demasiado grave se desde então ele não tivesse sido assassinado todos os dias, e precisamente pelos seus discípulos. Uma verdadeira hecatombe! Existirá hoje algum partido trotskista — já nem digo partido, mas uma menina ou um menino trotskista — que ouse reconhecer que as viagens de Cristóvão Colombo ampliaram desmedidamente a esfera da cultura humana?

Prosseguindo aquele raciocínio, Trotsky considerou que «só uma perversa ignorância pode traçar qualquer oposição nítida entre a nação e a democracia liberal». Com efeito, ao mesmo tempo que nos séculos XVIII e XIX as burguesias democráticas haviam imposto a unidade e a independência das realidades nacionais, a economia tinha-se também expandido além-fronteiras. «[…] o desenvolvimento económico da humanidade, que derrubou os particularismos medievais, não se deteve no interior das fronteiras nacionais. O crescimento das trocas mundiais ocorreu paralelamente à formação das economias nacionais. Esta tendência de desenvolvimento — pelo menos no que diz respeito aos países avançados — encontrou uma expressão no deslocamento do centro de gravidade do mercado interno para o mercado estrangeiro». E Trotsky chegou então ao cerne da sua argumentação. «A crise actual, na qual estão sintetizadas todas as crises capitalistas do passado, significa, acima de tudo, a crise da vida económica nacional». Mas hoje a generalidade dos trotskistas — e não só, mas é deles que agora me lembro — foi absorvida pelo nacionalismo e rendeu-se ao mito da soberania económica e alimentar, pretendendo solucionar as crises, quaisquer crises, mediante aquilo que para Trotsky era precisamente o fulcro do problema, «a crise da vida económica nacional».

Assim, com o objectivo de «libertar completamente as forças produtivas das grilhetas que lhes são impostas pelo Estado nacional», Trotsky teve de ir ainda mais longe, ou mais fundo. «A humanidade é impulsionada na sua ascensão histórica pela ambição de conseguir a maior quantidade possível de bens com o menor dispêndio de trabalho. Estes alicerces materiais do desenvolvimento cultural fornecem também o critério mais profundo que nos permite avaliar os regimes sociais e os programas políticos. Na esfera da sociedade humana, a lei da produtividade do trabalho tem a mesma importância que a lei da gravidade na esfera da mecânica». Este crescimento da produtividade, num percurso histórico para o qual Trotsky sublinhou o carácter contraditório, «determinou o triunfo do escravismo sobre o canibalismo, da servidão sobre o escravismo, do trabalho assalariado sobre a servidão». O aumento da produtividade constituía, para Trotsky, o motor do progresso humano. E ele abordou então a grave crise económica que assolava o mundo na época em que escreveu aquele artigo. «A lei da produtividade do trabalho choca freneticamente com as barreiras que ela própria ergueu. É isto que está no cerne da enorme crise do sistema económico moderno».

«Os políticos e teóricos conservadores, deparando de imprevisto com as tendências destrutivas da economia nacional e internacional», continuou Trotsky, «tendem a concluir que um excessivo desenvolvimento da tecnologia seria a principal causa das calamidades actuais. É difícil imaginar um paradoxo mais trágico!». Pobre Trotsky, o assassinato poupou-lhe ao menos a amargura de ver que já não são os «políticos e teóricos conservadores», mas sobretudo os esquerdistas — e entre eles tantos trotskistas! — quem defende hoje a regressão tecnológica. Naquela época a extrema-esquerda apresentava um projecto de futuro, mas hoje agarra-se à imagem mítica de um passado que nem sequer existiu. «A tarefa progressiva de adaptar a esfera das relações económicas e sociais à nova tecnologia é virada de pernas para o ar e apresentada como se fosse uma questão de restringir e limitar as forças produtivas de modo a que se ajustem aos velhos espaços nacionais e às velhas relações sociais». Estas palavras de Trotsky deviam ser colocadas numa tabuleta, para prevenir os incautos, à entrada de todas as experiências das vias campesinas e dos movimentos ecológicos e similares. Lasciate ogni speranza, voi ch’entrate.

E Trotsky continuou. «A orientação que visa uma economia fechada implica o estrangulamento artificial daqueles ramos da indústria que são aptos a fecundar com êxito a economia e a cultura dos outros países. E implica também a implantação artificial daquelas indústrias que não dispõem de condições de crescimento favoráveis no solo nacional. Assim, a ficção da auto-suficiência económica provoca, por um lado e pelo outro, tremendas despesas». Ficava delineada uma crítica de fundo do que viriam a ser as múltiplas experiências frustradas de socialismo terceiro-mundista. E essa crítica não poderia ser mais actual em quase todo o mundo, quando os programas populistas fazem de novo convergir a extrema-direita e a extrema-esquerda num comum proteccionismo económico.

Mas a tendência ao aumento da produtividade é irrefreável. «A lei básica da história humana deve inevitavelmente triunfar sobre os fenómenos marginais e secundários». E Trotsky interrogou. «De que maneira? De todas as maneiras. Um alto coeficiente de produtividade indica igualmente um alto coeficiente de forças destrutivas. Estarei eu a pregar a guerra? De modo nenhum. Não estou a pregar nada. Estou apenas a esboçar uma análise da situação mundial e a extrair conclusões das leis da mecânica económica. Não existe nada pior do que o tipo de cobardia mental que vira as costas aos factos e às tendências quando contradizem os seus ideais ou os seus preconceitos».

Pois é. «Não existe nada pior do que o tipo de cobardia mental que vira as costas aos factos e às tendências quando contradizem os seus ideais ou os seus preconceitos». Aos trotskistas — e aos outros também — que lerem este artigo desejo uma excelente semana.




Fonte: Passapalavra.info