Maio 18, 2022
Do Passa Palavra
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Por Mouvement Communiste, Kolektivne Proti Kapitalu

Traduzido do francês para o português pelo Passa Palavra. O original, em inglês, pode ser lido aqui .

1) A guerra na Ucrânia é a primeira desde o fim do último ciclo político proletário ascendente (ou seja, desde 1980) que se passa em um país capitalista desenvolvido, embora de segundo nível. Antes de tudo, isso é importante para qualificar o conflito. A guerra na Ucrânia é uma guerra regular entre duas nações capitalistas. Nós conseguimos defini-la enquanto uma expedição colonial [1] visando a consolidação, em plano militar, dos contornos de um Estado, o da Federação Russa, que ainda suporta os efeitos do colapso imperialista stalinista, cujo processo de deslocamento terminou de maneira formal em 25 de Dezembro de 1991, com a demissão de Mikhail Gorbatchev. Portanto, se trata de uma guerra capitalista, cujo o objetivo não é a ocupação duradora de todo o país atacado, mas sim a destruição de seu exército, de suas infraestruturas “estratégicas”, de seu Executivo e a anexação dos seus portos na costa norte do Mar de Azov. Esta guerra é a expressão (não a causa) da distância da Rússia do mercado europeu, além da mudança geoestratégica e econômica rumo ao Oriente, sobretudo à China. Nesse sentido, este episódio bélico não é o começo da próxima guerra mundial, mas sim um fator de aceleração da formação de blocos que irão se chocar no Mar da China. A guerra da Ucrânia é, assim, uma guerra política no sentido de que é a continuidade da diplomacia para o uso da força. A determinação econômica age como sempre em pano de fundo, definindo os limites da política, mas não é o estopim do conflito. A conquista do mercado ucraniano, às custas, aliás, das perdas de perspectiva nos suculentos mercados europeus, não justifica a operação do Kremlin, não mais, além da tomada das empresas em Donbass já integradas à economia russa. Por pelo menos dez anos, a Rússia vem diversificando seus mercados externos, suas reservas cambiais, seus acordos comerciais e redefinindo sua política externa em função desses pontos. Além dos propósitos estritamente militares descritos acima, a agressão à Ucrânia envia uma mensagem clara aos países fronteiriços ocidentais da Rússia e, ainda, à OTAN e aos países anglo-saxões que compõem a coluna vertebral da organização. Essa mensagem intenciona mostrar a capacidade da Rússia (e de seus fantoches bielorrussos apoiadores) de abrir uma frente na Europa com vistas a um eventual confronto mundial armado, possibilidade essa que está aumentando, com o seu epicentro no Extremo Oriente. O primeiro alvo é o arco dos países do norte, aglutinados em torno do Reino Unido [2] cujo as capacidades ofensivas aumentaram de maneira significativa desde o colapso da União Soviética.

2) A reimplantação da Rússia no mercado mundial não é um assunto recente, como foi mencionado acima. O ponto de virada pode ser situado em 2014, quando Moscou rompeu a parceria com a OTAN: “Por mais de trinta anos a OTAN se esforça para construir uma parceria com a Rússia, estabelecendo diálogo e cooperação em áreas de interesse comum. No entanto, a cooperação está suspensa desde 2014 devido à anexação, ilegal e ilegítima, da Criméia (Ucrânia) pela Rússia, anexação que a OTAN jamais reconhecerá [3].” Esta cooperação havia sido formalizada em 1994, com a assinatura da “Parceria pela Paz”, seguida, em 1997, do Documento de Base do Conselho da Parceria Euro-Atlântico e da lei criadora da OTAN-Rússia. Em 1996, a Rússia e a OTAN organizaram a intervenção na Bósnia no âmbito da Sfor (Força de Estabilização) e em 1999 a Rússia participou da Kfor (Força do Kosovo), como uma força para a manutenção da paz no Kosovo. Essas relações “amigáveis” foram reforçadas ainda mais em 2002, pela Declaração de Roma. No entanto, a Rússia pós-stalinista já havia começado a colidir com a OTAN desde 1991, com a guerra na Geórgia, seguida pela da Ossétia do Norte no ano seguinte e no Tajiquistão em 1994, na Chechênia em 1999 e na Ciscaucásia em 2009. A anexação da Crimeia em 2014, acompanhada da anexação informal de uma parte do Donbass e a intervenção na Síria, no ano seguinte, ao lado de Assad, completou o quadro dos conflitos armados que a Rússia provocou ou alimentou por mais de 20 anos. O fortalecimento armado de suas fronteiras a partir de 1999 se reforçou consideravelmente no leste europeu com a integração da República Tcheca, da Polônia e da Hungria, seguida, em 2004, pela Bulgária, Romênia, Eslováquia, Eslovênia e três Países Bálticos [4]. Por sua vez, em 2009, a Albânia e a Croácia se uniram à OTAN, seguidas, em 2017, por Montenegro e pela Macedônia do Norte em 2020. Observando essas datas, é evidente que a expansão da OTAN é posterior à parceria entre ela e a Rússia. Isso significa que Moscou não temia que a OTAN estabelecesse suas bases nos três primeiros países do leste europeu em 1999. Da mesma maneira, a demanda por adesões à OTAN da Geórgia não impediu a assinatura da Declaração de Roma dois anos mais tarde. Por outro lado, a integração dos países bálticos certamente colocou Moscou em alerta devido à sua posição estratégica. Assim, pode-se estimar que, a partir de 2004, a Rússia começou a adotar uma política externa hostil à OTAN, que teve seu clímax em 2014, com a tentativa de insurreição do Euromaidan, que expulsou o Executivo pró-russo de Kiev. A operação em Donbass e na Crimeia materializou a mudança radical de curso geopolítico que corresponde à aceleração do processo de reconciliação com a China. Reconciliação essa que Pequim saúda por conta de uma polarização geoestratégica com os países aliados aos Estados Unidos próximos à sua área de influência.

3) O plano para a guerra na Ucrânia foi meticulosamente preparado pelo Kremlin. Um plano em conformidade ao seu poder de fogo, às suas conquistas no campo estratégico durante as muitas intervenções militares dos últimos vinte anos. Durante esses confrontos, os militares russos se transformaram profundamente em função da natureza política de seus compromissos. Com exceção da guerra do Afeganistão, onde Moscou sofreu uma derrota inequívoca, a totalidade dessas intervenções militares no exterior foram bem-sucedidas. Mas a guerra no Afeganistão prosseguiu a ordem de missão herdada do imperialismo stalinista: guerra de ocupação; instalação e apoio de um regime fantoche com o relógio definido para o tempo de Moscou. O fracasso do antigo Exército Vermelho no Afeganistão é a falência da guerra regular de exércitos moldados no modelo dominante durante a Segunda Guerra Mundial, contra guerrilhas rurais e montanhosas. Os territórios pouco povoados, de difícil alcance, ainda mais para lhes cercar, o pouco ou nenhum conhecimento (a cartografia insuficiente), estendeu-se por distâncias consideráveis, colocando os militares russos de joelhos, que recuavam gradualmente para a capital e outros punhados de centros habitados. A humilhação sofrida nesse país da Ásia Central incitou o Kremlin à corrigir a situação e a fazer profundas mudanças em sua doutrina militar, na organização das tropas, na distribuição de recursos entre os três exércitos (sol, ar e mar), na logística e, sobretudo, nas regras de engajamento. A Rússia deixou de ter um poder com objetivos imperiais, redimensionando seu exército, que agora se dedica a missões políticas e diplomáticas fundamentalmente defensivas, posto que a inclinação bélica do Kremlin não responde aos planos de expansão territorial e/ou de conquista de mercados e recursos externos. As tropas do Kremlin agiram para impedir o deslocamento da antiga União Soviética, criando de maneira forçada enclaves-satélites de Moscou. Uma espécie de fortes, de mini-estados de guarnição, ameaçando os setores das classes mais ou menos dominantes seguidas pelas populações que queriam aproveitar o movimento do antigo império para se emancipar da tutela russa. O texto aprovado por Vladimir Putim, em Dezembro de 2014, intitulado “A doutrina militar da Federação Russa”, faz parte da análise da geoestratégia global do Kremlin: “O desenvolvimento mundial em sua atual fase é caracterizado pelo aumento da concorrência mundial, das tensões em diversas áreas de interação inter-estatal e inter-regional, da rivalidade dos valores e dos modelos de desenvolvimento proclamados, da instabilidade dos processos de desenvolvimento econômico e político a nível mundial e regional, em um contexto de complicação geral das relações internacionais. Há uma redistribuição da influência passo a passo em favor de novos polos de crescimento econômico e de atração política. Muitos dos conflitos regionais persistem sem resolução. Há uma constante tendência para sua resolução a partir do uso da força, inclusive nas regiões que fazem fronteira com a Federação Russa. A arquitetura (o sistema) de segurança internacional existente não garante uma segurança igual a todos os Estados. Há uma tendência de transferir os riscos e as ameaças militares para o espaço de informação e para a esfera interna da Federação Russa. Ao mesmo tempo, apesar do fato de que o desenrolar de uma guerra em grande escala contra a Federação Russa está se tornando menor provável, em várias áreas de domínio o risco militar à Federação Russa está aumentando [5] .” Resumindo, a defesa das fronteiras russas passa pela multiplicação das casas militares criadas pelo exército, que impedem a fragmentação da Federação e deixam em aberto a possibilidade de intervirem no exterior para aumentar a influência internacional do país, como foi na Síria, por exemplo.

Ucrânia: guerra moderna, movimentos democráticos e processo revolucionário

4) A nova doutrina de Estado-maior do exército russo está muito mais bem definida agora. E ela foi cuidadosamente aplicada na Ucrânia. Essa doutrina se baseia em aspectos relativos às três armas. A elevada capacidade de se movimentar é baseada em profundas incursões em linhas inimigas para evitar, tanto quanto possível, a transformação em uma guerra de posição. Os BTG, grupos táticos de batalha, são os principais instrumentos para um tipo de orientação tática. Compostos por cerca de 600 a 900 homens profissionais, os BTG do exército gozam de relativa autonomia de manobra e de uma leve supervisão. “Os grupos táticos de batalha (BTG) (um ideal dos anos 1990) foram introduzidos em 2012 para gerar um poder de combate eficaz das brigadas, concentrando um grupo de pessoas contratadas do tamanho de um batalhão. Os BTG geralmente incluem um batalhão de tanques ou de infantarias reforçados por blindados ou infantarias e artilharias, da defesa aérea, da guerra eletrônica e de outros meios de apoio ao combate. [6].“ A Rússia dispõe hoje de cerca de 130 BTG’s. O aumento de seu número é contínuo e corresponde a um dos eixos estratégicos identificados pela nova doutrina militar russa adotada em 21 de Abril de 2000, refinada em 2010 e novamente em 2014. Isso levou a uma maior profissionalização do exército. “Em 2021, os recrutas representariam cerca de 30% do pessoal ativo no exército russo; em Abril de 2019, o governo russo anunciou sua intenção de acabar com a inscrição como parte de um esforço para deixar de ser um exército baseado em recrutamento e se tornar uma força menor e mais profissional.” [7] A transformação do exército foi acompanhada da transformação da marinha, que, por sua vez, é baseada no princípio de capacitação ao combate perto da costa russa. “A marinha conserva os vestígios de um papel em águas azuis, contando principalmente com suas maiores e mais envelhecidas plataformas de superfície da era soviética e com submarinos mais modernos. Contudo, as mais recentes adições à sua frota da superfície são adaptadas à defesa do litoral russo, tal qual para a proteção à dissuasão sub-aquática.” [8] Os especitalistas do IISS [Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, think tank britânico] consideram que “as capacidades navais russas ‘em água azul’ permanecem limitadas e dependem em grande parte das antigas plataformas soviéticas. De mesma maneira, apesar das recentes atividades de implantação, as capacidades anfíbias permanecem enquanto uma área de relativa fraqueza.” [9] Quanto à aviação, a Rússia está um tanto quanto atrasada na implementação de seus planos de modernização. As principais lacunas são, de acordo com vários especialistas, o número insuficiente de bombas “inteligentes”, de drones de combate e de sistemas complexos e sofisticados de comunicação. Na Ucrânia, “os especialistas militares viram uma falta de coordenação da Força Aérea Russa, com formações de tropas terrestes, com colunas de tropas russas enviadas além do alcance da própria defesa aérea.” [10] E novamente: “o fracasso da Rússia em eliminar as defesas aéreas ucranianas ‘se torna um sério obstáculo’, declarou Rob Lee, do King’s College de Londres. Este provavelmente será considerado um dos ‘principais erros’ desta guerra, ele afirma. Isso significa que os aviões russos não podem patrulhar livremente sobre os céus para manter as aviações ucranianas distantes, e que os aviões de ataque não podem oferecer suporte aéreo às tropas terrestres. Os aviões de vigilância terrestre e de alerta devem ficar longe do campo de batalha, o que reduz o fluxo de inteligência” [11] Em suma, os exércitos do Kremlin já são capazes, e provaram isso por mais de vinte anos nos vários conflitos onde participaram, de realizar operações de larga escala, mas em territórios relativamente circunscritos e contra forças inimigas que são fracas em termos de poder de fogo e número de combatentes.

5) A guerra contra o exército ucraniano, ainda organizado como o exército russo antes das reformas dos anos 2000 e 2010, mostrou os pontos fortes e fracos do potencial bélico russo. Pontos fortes porque o Estado-maior russo entendeu que a guerra moderna é essencialmente um conflito de movimento quando o objetivo não é a ocupação duradoura de um território. Isso também integrou a dimensão da informação das guerras desse tipo. Daí o reforço das ditas tropas especiais, ou seja, das tropas de elite encarregadas pela realização de missões de sabotagem, subversão e sedição, contra-terrorismo, contra-sabotagem, contra-espionagem, de guerrilha e contra-guerrilha em profundidade. O Kremlin dispõe de duas estruturas responsáveis por estas tarefas: as Forças de Operações Especiais (FOS), com 2000 a 2500 homens, e a antiga Spetsnaz GRU (Forças especiais da direção geral das Forças Armadas russas), que, de acordo com fontes “ocidentais”, conta com cerca de 3000 homens. Além desses dois componentes, pode-se acrescentar os Mercenários de Wagner, com cerca de 5000 homens, empregados sob uma rigorosa supervisão política do Kremlin. “Em um artigo de referência assinado em 2013 pelo chefe do Estado-maior do Exército Russo, Valéri Guérassimov, as unidades de combate designadas às operações especiais (ou às missões) têm agora um papel crucial em virtude das novas regras para a guerra no século XXI. [12] A distinção entre ‘tempo de paz’ e ‘tempo de guerra’ é borrada, os Estados devem recorrer às operações militares mais flexíveis, rápidas, e contra um determinado alvo. Como consequência, o papel dos ‘contrários às medidas militares’, incluindo o ‘uso extensivo de medidas políticas, econômicas, de informação, humanitarismo, dentre outras’, vem crescendo consideravelmente, enquanto os ‘compromissos frontais entre grandes formações de força’ são coisas do passado. Na arte da guerra, continua Guérassimov, está havendo um aumento no uso de meios militares ‘disfarçados’; assim, os Estados que almejam ocultar ou esconder ou negar a presença militar em seus territórios de operação recorrem a forças especiais de intervenção.” [13] Mas também estão as fraquezas. Além do subdesempenho das Forças Aéreas, o exército russo na Ucrânia descobriu no outro a fraqueza de suas Forças Armadas: a logística da guerra. “As forças logísticas do exército russo não são projetadas para uma ofensiva terrestre em longas distâncias de suas ferrovias. Dentro das unidades de manobra, as unidades de sustentação russas são menores em tamanho do que suas contrapartes ocidentais. Somente as brigadas têm uma capacidade de logística equivalente, mas esta não é uma comparação exata. As formações russas não têm nada além que três quartos do número de veículos de combate que suas homólogas americanas, que tem cerca de três vezes mais artilharia” [14].

6) A guerra na Ucrânia é um verdadeiro quebra-cabeças se levarmos em consideração seu aspecto militar. Iniciada como uma guerra regular, corrigida pelas lições tiradas das missões militares imperialistas do segundo período pós-guerra, logo se transformou em um conflito diferente. O exército russo se confinou nas fases iniciais do conflito para evitar a constituição de longas linhas de frente com o exército inimigo. Este tipo de abordagem, possibilitada pela reorganização do exército terrestre, onde a ênfase está tanto nos BTG quanto nas forças especiais, tem funcionado muito bem. A batalha ao redor de Chernobyl é provavelmente o principal sucesso desta tática. O exército terrestre ucraniano, que tinha concentrado muitas forças neste território, foi deslocado muito rapidamente. Após esse e outros avanços de entidades menores ao norte e ao sudeste da Crimeia, as forças armadas ucranianas progressivamente se dispersaram pelo vasto território do país em simbiose com as chamadas defesas territoriais compostas por um milhão, ao menos, de voluntários e de reservistas. A mobilização geral que se seguiu, com a inscrição obrigatória de homens com 18 a 60 anos, certamente desempenhou um papel na forma tênue do exército do país invadido. O exército russo teve, assim, de enfrentar um grande número de batalhas dispersas e reconhecidamente limitadas, mas investindo de maneira aérea em praticamente todas áreas afetadas pelos confrontos. A diferença no poder de fogo dos três âmbitos – ar, mar e terra – em vantagem dos exércitos russos foi parcialmente preenchida pelo fluxo de armas fornecidas por países da OTAN mais determinados em confrontar a Rússia, os Estados Unidos e a grande maioria dos países da JEF [Força Expedicionária Conjunta, coalizão de países bálticos e nórdicos sob a liderança do Reino Unido] e a Polônia (onde segundo várias sondagens, a população apoia massivamente um envolvimento direto na guerra ao ponto de fazer o Executivo dar uma volta de 180 graus). Um outro papel prejudicial aos ocupantes foi desempenhado pelos problemas de organização e de logística peculiares ao exército russo. Todavia, o fator determinante que impediu o Kremlin de cortar rapidamente Kiev, certamente foi o engajamento político voluntário de uma parte significativa da população ucraniana na resistência aos invasores russos. Esse engajamento se materializou através da constituição de pequenos núcleos de combate majoritariamente supervisionados pelas estruturas de comando da defesa territorial, portanto, pelo que ainda funciona do Estado ucraniano. Estas pequenas estruturas são desarmadas, com pouca mobilidade e pouco ou nenhum treinamento na guerrilha urbana. Mas elas têm um enorme trunfo: o apoio muito maciço e muitas vezes ativo da população que crê firmemente, ainda hoje, na vitória militar e em um conhecimento perfeito do território em que operam. A relutância dos exércitos do Kremlin em se envolver em guerras nas cidades, na guerrilha urbana, é parte da consciência de Estado-Maior Russo sobre esta situação. Uma situação que obviamente não havia sido prevista antes da avalanche de hostilidades. A única alternativa que o Kremlin tem para dobrar a resistência é a destruição, o terror e o cerco às cidades. Bombardeá-las, cortar seus suprimentos de água, comida e remédios, lhes privar de fontes de energia e comunicação e jogar o fluxo de refugiados para enfraquecer a resistência dos combatentes da resistência são a sua atuação concreta. O martírio de Mariupol, uma cidade de meio milhão de habitantes, nas margens do Mar de Azov, corresponde ao ápice desta tática de ataque do exército russo.

Ucrânia: guerra moderna, movimentos democráticos e processo revolucionário

É compreensível, portanto, que a guerra da Ucrânia esteja prestes a se transformar em uma guerra do Estado capitalista ocupante contra toda uma sociedade civil onde o Estado é mantido quase totalmente pela resistência da população, com o proletariado na liderança. Isso significa que a guerra capitalista na Ucrânia não pode ser reduzida ao padrão de guerra frontal fora das cidades onde as classes subalternas são vítimas passivas do conflito armado. Essa transformação vê o proletariado do país ocupado se engajar em primeira pessoa e, assim, sofrer ainda mais com os efeitos da guerra. Este foi o caso aqui e ali durante o segundo massacre imperialista quando os países imperialistas vencedores armaram, apoiaram e organizaram as resistências nas áreas ocupadas pelos países imperialistas perdedores. Essas resistências têm reunido na maioria das vezes proletários revoltados pelas ações dos ocupantes e/ou pelos regimes fascistas que privaram as populações de liberdades individuais. Os vencedores foram capazes de explorar perfeitamente essas revoltas trazendo-as de volta aos quadros da guerra imperialista. É por isso que os elementos avançados da classe trabalhadora dificilmente sucumbiram à tentação de aderir a essas estruturas resistentes. No entanto, aqueles que, em nome do comunismo de esquerda [15], optaram por se retirar, em seus cenários, à espera de tempos melhores, enquanto optaram por se retirar, em seus círculos internos, esperando por tempos melhores e murmurando para invejar princípios abstratos e ineficazes, abdicaram de fato de sua responsabilidade política essencial: trabalhar, mesmo com uma posição ultra-minoritária e contra-corrente, para dar uma resposta proletária concreta à guerra imperialista. Porém, já na época, os núcleos proletários, na Espanha (apenas contra o Estado franquista), na França, na Grécia e na Itália, tentaram e por vezes conseguiram destacar-se na luta armada terrena e não apenas nos escritos da resistência controlada pelos países capitalistas vitoriosos. E eles pagaram caro por isso [16]. Para retornar à resposta do proletariado revolucionário à guerra capitalista, ela é conhecida e não precisa ser inventada. Derrotismo revolucionário, confraternização e transformação da guerra imperialista em guerra de classe. O derrotismo revolucionário, na Ucrânia de hoje, significa a recusa ao alistamento na defesa territorial ou o que resta do exército regular. Trata-se também de chamar as forças proletárias e revolucionárias disponíveis a se organizarem no terreno da força fora dos exércitos capitalistas presentes contra o Estado capitalista ucraniano e contra as tropas ocupantes. Se tal projeto se concretizasse, mesmo em uma escala embrionária, testemunharíamos um confronto com o Estado ucraniano além de, naturalmente, com os soldados do Kremlin. Na Rússia, um magnífico exemplo de derrotismo revolucionário foi dado pelos camaradas anarquistas que destruíram os escritórios de recrutamento ao exército de várias cidades do país [17]. Na Bielorrússia, a sabotagem de ferrovias por trabalhadores ferroviários contrários ao regime, que impediam os comboios militares russos de transportar homens e materiais à Ucrânia é outra [18]. Outras ações que vão na mesma direção são os estivadores dos EUA [19], da Suécia [20] ou do Reino Unido [21], que se recusavam a descarregar os navios russos. A confraternização se materializa pela pressão mais ofensiva possível exercida sobre as tropas ocupantes para que eles parassem de direcionar suas armas contra a população do país ocupado. A multiplicação de manifestações massivas nas cidades ocupadas pelo exército do Kremlin vão nessa mesma direção, mesmo que os desfiles sejam inundados de bandeiras bicolores. A transformação da guerra regular em guerra de classes, por outro lado, é um processo que deve começar hoje dentro e para a resistência independente dos Estados e sob as bandeiras da revolução proletária e que continuará muito além do fim da guerra capitalista com o ressurgimento da luta de classes nos territórios produtivos devastados pelo conflito. É uma aposta segura que o período pós-guerra na Ucrânia, e talvez na Rússia e na Bielorússia, seja pelo ao menos tão difícil para os proletários quanto a guerra em curso. Um período pós-guerra composto pela militarização geral da sociedade civil, por baixos salários, pelo trabalho forçado, pela vida cara. Mas apenas aqueles, no campo proletário, que se destacaram durante a guerra como forças de oposição concreta à ocupação e ao Estado ucraniano terão a chance de serem ouvidos, de promover a reflexão e a ação dos oprimidos. Eles são capazes de se inspirar na previsão de Lênin: “Hoje a burguesia imperialista militariza jovens e adultos; amanhã ela pode começar a militarizar as mulheres. Nossa atitude deveria ser: Tanto melhor! Velocidade máxima! Quanto mais rápido avançamos, mais perto chegamos da revolta armada contra o capitalismo. Como os social-democratas podem ceder ao medo da militarização da juventude, etc., se não esqueceram o exemplo da Comuna de Paris? Isto não é uma “teoria sem vida” ou um sonho. Isto é um fato. E seria uma situação realmente triste se, apesar de todos os fatos econômicos e políticos, os social-democratas começassem a duvidar que a era imperialista e as guerras imperialistas inevitavelmente devem levar a uma repetição de tais fatos.” Lênin, “The ‘disrmament’ slogan”, Outubro de 1916 [22] .

7) O projeto de criação de forças independentes de resistência proletária dos Estados na guerra está longe de ter sucesso, mesmo que nos círculos libertários russos e ucranianos, a discussão exista. Estamos dando nossa contribuição para este debate, em primeiro lugar, esclarecendo seus termos. A resistência autônoma não pode, no entanto, passar pelo agrupamento de recursos militares com a defesa territorial, nem pela adoção de táticas militares das quais este último é o portador. Historicamente, os proletários revolucionários dependem apenas de si mesmos para se organizar, inclusive no campo da força. Não há dúvida de pedir às potências imperialistas pró-ucranianas para armar a resistência proletária. Tampouco se trata de apostar na multiplicação e no endurecimento das sanções contra a Rússia, cujos efeitos atingem primeiro as classes subalternas na Rússia e fortalecem o domínio do Estado sobre elas. A única “sanção” que teria qualquer chance de arranhar o Kremlin seria, por exemplo, a sabotagem do gasoduto que atravessa a Ucrânia em guerra. No entanto, desde o início das hostilidades e até meados de março, apesar das destruições generalizadas que têm como alvo as periferias populares das cidades ucranianas e algumas fábricas (cerca de metade das empresas continuam funcionando [23]), o gasoduto (passando por Kiev e Liev) está operando em plena capacidade para transportar o precioso hidrocarboneto para os países da Europa Ocidental. Os países que não estão diretamente engajados na guerra, são objetivos em fazer o jogo dos ocupantes para não distinguir o exército de ocupação da resistência da população ucraniana. Os proletários de todo o mundo devem estar com seus irmãos de classe que lutam contra as tropas ocupantes, sem poupar críticas ao nacionalismo que domina grande parte da resistência das populações à ocupação. E sem poupar nem as críticas acentuadas ao pacifismo integral que acredita na propaganda terrorista do Kremlin sobre os riscos de uma guerra nuclear generalizada, e apela por um cessar fogo imediato (o resultado seria endossar as anexações e a ocupação militar russa) e a organização de improváveis conferências de paz sob a liderança das organizações internacionais de bandidos do mundo como as Nações Unidas, ou a Organização pela Segurança e a Cooperação na Europa, que tem 57 Estados participantes, incluindo os Estados direta ou indiretamente beligerantes. Na lista dos hipócritas contra-revolucionários mais perigosos, devemos incluir também os stalinistas, os maoístas e alguns trotskistas que igualam a resistência da população ucraniana com os diferentes batalhões fascistas e nacionalistas presentes na Ucrânia. Este argumento, amplamente compartilhado por muitos representantes anti-vacinas e anti-saúde, serve de justificativa para uma proximidade com a Rússia proto-fascista de Putin e de seus argumentos de que a Rússia invadiu a Ucrânia para desnazificá-la em resposta à agressão de Kiev no Donbass.

8) Nesse contexto, o problema subjacente que precede o da guerra em curso é o da relação do proletariado com os movimentos democráticos interclassistas em massa. Não é mistério que a guerra na Ucrânia tenha suas raízes no movimento Maidan, que começou em 21 de Novembro de 2013 [24]. A ocupação da principal praça de Kiev foi desencadeada pela decisão do governo pró-Rússia na época de não assinar o protocolo de acordo entre a Ucrânia e a União Européia, votado por uma maioria do Parlamento a favor da integração do país à União Econômica Eurasiana dominada pela Rússia. O protesto inicialmente pacífico e pró-europeu tornou-se violento de Dezembro até os confrontos armados nas ruas em Janeiro. Depois de um mês, a ocupação de vários prédios públicos e as batalhas de rua resultaram na renúncia do Executivo e na instalação no topo do Estado de sucessivos governos orientados para a União Europeia. A transformação de um movimento democrático burguês pacífico em um movimento de insurreição armado liderado por forças políticas fascistas e nacionalistas selou o fim do movimento em si e abriu a via para a formação não formalizada de Donetsk e de Luhansk em Donbass e, em seguida, a anexação da Crimeia em 2014. A ausência da luta de classes e a vitória político-militar das forças mais nacionalistas na esteira do movimento de Maidan, vitória indiretamente amplificada pela dupla agressão russa em Donbass e na Crimeia, enterrou o potencial desestabilizador do protesto democrático inicial. Embora tenha desestabilizado o Estado e provocado uma mudança significativa no Executivo, ao contrário de outros movimentos democráticos que ocuparam o palco mundial depois dos anos 1980, o movimento de Maidan não contribuiu para a criação de condições objetivas para o surgimento da luta proletária. Em seus escombros, o patriotismo e o Estado se reforçaram. Mas este cenário não está necessariamente condenado a se repetir de maneira idêntica, como a insurgência tentada no Cazaquistão [25], os tumultos na Colômbia e no Chile, o Hirak Argelino ou as repetidas manifestações e greves na Tunísia, para se citar apenas os casos mais recentes. A rápida radicalização da luta contra Maidan, determinada pela reação raivosa do Executivo e de suas Forças Armadas mais leais, entregou aos fascistas a hegemonia das ruas e destruiu o movimento pacífico democrático. A ausência de qualquer movimento proletário, mesmo em sua infância, deixou o caminho completamente livre ao confisco nacionalista do movimento democrático que, pelo contrário, tinha uma inspiração cosmopolita. A lição de 2013 será particularmente valiosa para o período pós-guerra. Se as classes subalternas — que muitas vezes lutaram com as suas próprias mãos contra a expedição colonial russa — aceitarem a explicação do Executivo enfraquecido, motivará a sua capitulação efetiva pela “traição” dos poderes amigáveis, esta é uma aposta segura que o brasão das armas do nacionalismo emergirá ainda mais fortalecido deste episódio bélico. Se, por outro lado, os setores do proletariado forem capazes de entender que a defesa do Estado não tem nada a ver com a devesa dos bairros populares da classe trabalhadora e das populações sujeitas à violenta agressão russa, se os combatentes proletários de hoje souberem contar com sua extraordinária força e determinação expressas na guerrilha e nas manifestações contra as tropas de ocupação como em Kherson, Berdyansk e Kakhovka, irão traçar seu próprio caminho, o da luta de classes. E isso contra um Estado que sobreviveu apenas em virtude de seu sacrifício e contra seus capitalistas “nacionais”, muito ativos nos hotéis de luxo de Dubai enquanto eles estão sob um dilúvio de fogo, então a polarização da sociedade civil ucraniana pode finalmente ocorrer de acordo com a linha divisória clássica: trabalhadores contra o capital, trabalhadores contra o Estado.

Ucrânia: guerra moderna, movimentos democráticos e processo revolucionário

Notas:

[1] Veja: « UKRAINE : L’expédition coloniale russe accélère la course à la guerre mondiale » Mouvement Communiste, Bulletin n°22 in: https://mouvement-communiste.com/documents/MC/Leaflets/BLT2202FRvG.pdf
[2] Em 2015, o Reino Unido estabeleceu uma cooperação com a Dinamarca, os Países Baixos, a Noruega e três países bálticos na intenção de construir uma Força Expedicionária Conjunta.
[3] Veja: https://www.nato.int/cps/en/natohq/topics_50090.ht%20m?selectedLocale=fr
[4] A Albânia foi admitida como candidata à adesão à União Europeia em 2009.
[5] Veja: https://rusemb.org.uk/press/2029
[6] « Russia’s military capability in 2022 » – IISS –in : https://www.iiss.org/blogs/military-balance/2022/02/if-new-looks-could-kill-russias-military-capability-in-2022
[7] Veja: https://www.cia.gov/the-world-factbook/countries/russia/#military-and-security
[8] « An introduction to Russia’s military modernization » – IISS – in : https://www.iiss.org/blogs/analysis/2020/09/rmm-introduction
[9] « If New Looks could kill: Russia’s military capability in 2022 » – IISS – in : https://www.iiss.org/blogs/military-balance/2022/02/if-new-looks-could-kill-russias-military-capability-in-2022
[10] Veja: https://www.reuters.com/world/europe/what-happened-russias-air-force-us-officials-experts-stumped-2022-03-01/
[11] Veja: https://www.economist.com/interactive/2022/03/08/curious-case-russias-missing-air-force
[12] V. Guérasimov, « Novye vyzovy trebuût pereosmysleniâ form i sposobov vedeniâ boevyh dejstvij » [Les nouveaux défis exi- gent de repenser les formes et les moyens des actions militaires], 27 février-5 mars 2013, in : https://vpk-news.ru/
[13] « Spetsnaz, contractuels, volontaires : qui sont les “hommes de guerre” russes en Syrie ? » – Note de l’Ifri – Décembre 2017 – in : https://www.ifri.org/sites/default/files/atoms/files/fainberg_hommes_de_guerre_russes_syrie_2017.pdf
[14] Veja: https://warontherocks.com/2021/11/feeding-the-bear-a-closer-look-at-russian-army-logistics/
[15] Estamos pensando aqui na corrente bordigista, mas não apenas na mesma.
[16] Pensamos nos camaradas do Partido Comunista Internacionalista, Mario Acquaviva (1900-1945) e Fausto Atti (1900-1945), ambos assassinados pelos stalinistas. Veja, respectivamente: https://it.wikipedia.org/wiki/Fausto_Atti e https://it.wikipedia.org/wiki/Mario_Acquaviva
[17] Veja: https://www.anarchistfederation.net/russia-new-guerrilla-attacks-on-military-recruiting-agencies/
[18] Veja: https://www.railtech.com/infrastructure/2022/03/24/belarusian-special-forces-guarding-railways-following-sabotage/
[19] Veja: https://www.ship-technology.com/news/industry-news/us-dockers-refuse-to-work-on-russian-ships/
[20] Veja: https://globeecho.com/news/europe/war-in-ukraine-swedish-dockworkers-mobilize-to-block-ships-linked-to-russia/
[21] Veja: https://www.cnbc.com/2022/03/06/ukraine-angry-dock-workers-in-the-uk-are-refusing-to-unload-russian-oil.html#:~:text=Europe%20News-,Angry%20dock%20workers%20in%20the%20UK%20are%20refusing%20to,oil%20due%20to%20Ukraine%20inva-sion&text=Tough%20sanctions%20mean%20that%20Russian,be%20transported%20via%20foreign%20ships
[22] Traduzido por nós: https://www.marxists.org/archive/lenin/works/1916/oct/01.htm
[23] “Cerca de metade de todas as empresas ucranianas não pararam de funcionar e uma gama de problemas logísticos assolou o país, começando pela forte falta de combustível.” Ukraine’s War Economy, Kyiv Post, 14 mars 2022 _ https://www.kyivpost.com/article/opinion/op-ed/ukraines-war-economy.html
[24] Veja: « UKRAINE : une insurrection démocratique victorieuse dirigée par les nationalistes» Mouvement Communiste, Bulletin n°6 in : https://mouvement-communiste.com/documents/MC/Leaflets/BLT1403FRVG.pdf
[25] Veja: « KAZAKHSTAN : Le mouvement démocratique se hisse sur les épaules du mouvement insurrectionnel du prolétariat » Mouvement Communiste, Bulletin n°21 in : https://mouvement-communiste.com/documents/MC/Leaflets/BLT2201FRvF.pdf

As artes que ilustram o texto são da autoria de Oleh Sokolov (1919-1990).




Fonte: Passapalavra.info